AS ÁGUAS VÃO ROLAR

AS ÁGUAS VÃO ROLAR

É muito difícil evitar as enchentes. Com obras você pode minorar essas coisas. Mas chegarmos um dia a dizer que nunca mais haverá enchente – isso é utópico. (Mário Covas)

É chuva sobrando em Minas e faltando no Rio Grande do Sul.

Excesso de chuva causa prejuízo na produção de leite, falta de chuva prejudica a lavoura.

É assim o nosso país continental. Uns com sofás, camas, geladeiras, mesas e outros móveis retirados às pressas de suas casas prestes à ruir. Outros cortando cana para dar o gado, que já está muito magro.

É Prefeito sumindo com verba que seria utilizada na reconstrução de sua cidade desde janeiro passado. É Ministro levando muita verba para seu Estado, sua cidade e deixando as outras a ver navios (o pior, no meio do mato).

Morros despencando por todos os lados, pontes caindo, desabrigados desassistidos perambulando por Grupos Escolares, Abrigos e Igrejas.

Carros, móveis, animais e pessoas sumindo rio abaixo. Algumas salvas, por milagre, dependuradas nas copas das árvores.

Só em Minas são 67 municípios em situação de emergência, mas de dois mil imóveis atingidos na Zona da Mata, outros tantos no Centro-Oeste de Minas, milhares de desabrigados.

Ruas viraram rios, moradores navegando, muitas casas debaixo d` água. Moradores ribeirinhos apreensivos podem perder tudo a qualquer momento, depende do rio, que já subira mais de 8 metros.

Deslizamentos de terra, provocado pelas fortes chuvas, amassam carros, matam pessoas, derrubam barracos e prejudicam rodovias.

O pobre não consegue comprar lote de terreno em lugar melhor e vai morar na beira do rio sabendo que mais dia, menos dia tudo será levado pelas águas.

Verbas federais e estaduais, prometidas, demoram anos para chegar (quando chegam…) às cidades devastadas pelas águas.

Na maioria das vezes são desviadas para campanhas políticas. Usam artimanhas de todos os jeitos para passar a mão neste dinheiro que poderia beneficiar milhares de famílias que tudo perderam com as chuvas.

Os bombeiros fazem o possível para salvar vidas, mas às vezes quando chegam já está tudo perdido. As pessoas estão soterradas metros e mais metros de terra. Nada a fazer, só lamentar.

Voluntários aparecem para ajudar e quase sempre conseguem salvar pessoas.

Aqueles se salvaram recebem roupas, água e alimentos, mas o que eles querem é casa para morar e em lugar onde possam viver sem medo.

Agora é só rezar e aguardar as próximas chuvas, não tem jeito, todo ano é a mesma coisa. Trabalhos de prevenção são mínimos e resolve pouco.

E você que está aí no seu cantinho, longe da violência das águas, das encostas dos morros, porque não dá uma ligadinha, faça uma visita ou envie umas roupas, fraldas e brinquedos para as crianças. Tem alguém esperando por você!

Manoel Amaral

http://osvandir.blogspot.com

Com relação ao título da crônica, trata-se de verso da marchinha de carnaval:

SACA-ROLHA
(Zé da Zilda-Zilda do Zé-Waldir Machado)

As águas vão rolar
Garrafa cheia eu não quero ver sobrar
Eu passo a mão na saca-saca-saca rolha
E bebo até me afogar
Deixa as águas rolar…

O QUE VOCÊ FARIA COM 73 MILHÕES DE REAIS?


“O casamento real entre o Príncipe William e

Kate Middleton está estimado em 70 milhões de reais.”


Pois é, lá se foi à ilusão, o prêmio de R$73.000.000,00 (73 milhões), da Mega (diz Word que é meiga) Sena, saiu para um cidadão de Santo André, São Paulo.

Os números sorteado enganaram a todos: 02 – 05 – 15 – 20 – 43 – 57.

Osvandir quase levou a bolada, errou apenas dois números. Como consolação ganhou uma ninharia da Loto Fácil.

Todo mundo ficou a espera dos fabulosos 73 milhões de reais. Uns até pensaram o que poderia comprar: uma mansão, uma indústria, um povoado inteiro, um prédio de luxo, um poço de petróleo, ações da Vale, da Petrobrás, um bom emprego permanente no primeiro escalão do governo e uma infinidade de coisas bobas.

Os entrevistados responderam que iriam ajudar a mãezinha, a irmãzinha, os filhos, os avós, os parentes e muita gente.

Alguns foram mais racionais e pensaram em poucas coisas: uma viagem pela Europa, EUA, Rússia, China e por aí mundo afora.

A maioria queria saldar as dívidas, sinal que tem muita gente endividada por aí.

Investir em educação ninguém falou.

A mais sensata foi ANA: “primeiro de tudo ficar calma; depois aplicar e pensar bem como fazer esse dinheiro multiplicar e aprender a conviver com ele, sem ser escrava dele”.

Com R$ 73.000.000,00 (setenta e três milhões de reais ) é possível comprar mais de 2 mil carros ou render mais de R$ 300.000,00 por mês, na poupança. Por que poupança? Poderia ser outro tipo de investimento diversificado, bem pesquisado.

O Osvandir pensou bem e ficou mais tranquilo. Aquele dinheirão todo só ia complicar a sua vida!

OSVANDIR E O CÁLICE SAGRADO

O cálice da Santa Ceia tem o valor simbólico da celebração da eucaristia.

Já seu poder mágico é só uma lenda”,

Rafael Rodrigues Silva,

A procissão sairia de uma Igreja do centro e iria para um bairro mais próximo, cerca de 1 km, tudo entre ruas movimentadas, carros, motos e bicicletas. Cada um levava sua vela e lanterna, aquele símbolo do fogo, desde os tempos remotos dos cristãos. A origem da Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo remonta ao século XII. A Eucaristia é um dos sete sacramentos e foi instituído na Última Ceia, quando Jesus disse: ”Este é o meu corpo, isto é o meu sangue… fazei isto em memória de mim”. Porque a Eucaristia foi celebrada pela primeira vez na Quinta-Feira Santa, Corpus Christi se celebra sempre numa quinta-feira após o domingo depois de Pentecostes.

Osvandir ia por ali, entre uma jovem de longos cabelos na frente e dois velhinhos atrás.

O Santíssimo logo adiante, com aquele esplendor, iluminado pelo sol forte do fim de tarde. Como uma cobra que se contorcia, a procissão, com centenas de pessoas, seguia rua abaixo, virava aqui e acolá, onde estava determinado o trajeto. De repente uma faísca nos céus, um brilho nos olhos e Osvandir: estava na Idade Média à procura do Santo Graal, o Cálice Sagrado.

Ao lado de um cavaleiro, nomeado pelo Rei Arthur, ali estava ele, ouvindo mais uma fala do Mago Merlin, profeta, conselheiro e Grão-druida.: ― Cavaleiros! Vocês estão aqui hoje, reunidos, nessa mesa redonda que é para nunca haver discussão, para saber qual o próximo passo ordenado pelo nosso Rei. “A cadeira situada à direita do rei está reservada a um único cavaleiro. A esse cavaleiro eleito caberá uma santa missão. Vocês sabem que, no dia em que Jesus foi crucificado, um romano convertido, José de Arimatheia, recolheu o sangue de suas chagas em uma taça, o Graal. Só o cavaleiro que a encontrar poderá ocupar a “Cadeira Perigosa.” Osvandir ouvia tudo em silêncio. Merlin fazia os últimos juramentos, transmitindo a todos cavaleiros: ― Juro partir em busca do Cálice Sagrado…

Osvandir foi destacado para um determinado local, onde havia um castelo em ruínas, mal assombrado. Um friozinho percorreu-lhe a espinha. Estava com muito medo. As buscas começaram ali mesmo na entrada.

Tudo foi vasculhado, com ajuda de três dos seus companheiros. Um pequeno detalhe chamou-lhe a atenção: várias frases em latim numa parede. Com seus precários estudos da língua, pode notar que alguém contava uma história muito estranha.

Abaixo do texto um pequeno buraco em formato de cruz. Osvandir retirou do seu bolso um medalhão antigo, com uma saliente cruz, colocou-o naquela abertura e girou para a direita. Ouviu apenas um pequeno barulho além da parede. Girou novamente, desta vez para esquerda e uma porta se abriu. Lá no fundo uma sala inteira só com peças em ouro, diamantes, esmeraldas, rubis e outras pedras preciosas.

Admirado com todo aquele tesouro bem ao alcance de suas mãos, mandou transportar tudo até a presença do Rei Arthur. Arthur estremeceu, quando verificando no meio daquelas coroas todas cravejadas de diamantes, encontrou um velho cálice com o símbolo sagrado da igreja cristã. Na reunião, à noite, o Rei chamou alguém para assentar-se ao seu lado, na “cadeira perigosa”.

Vinha com o rosto coberto, ele assentou-se naquela cadeira ricamente bordada e ao levantar o olhar, por sobre a mesa estava escrito o nome: Osvandir, – em letras gravadas a ouro. Quando o Rei fez um brinde a todos, uma faísca brilhou no céu.

Um tropeção numa pedra de calçamento e acordou daquele cochilo por um milésimo de segundo, uma pequena fração do tempo.

Os olhos de Osvandir estavam direcionados para aquele Ostensório, ou custódia, formosamente decorado e pintado a ouro; ele seguia lentamente naquela procissão, já quase chegando o ponto final.

Manoel Amaral

ALADIM E O CARTÃO MÁGICO

Imagem Google

“Dinheiro não traz felicidade: manda buscar.”
Márcio Casaroti

Aladim caminhava por uma rua estreita e escura, de um pequeno bairro de cidade grande, quando uma coisa brilhou no chão.

Aproximou-se para ver do que se tratava, olhando para os lados, pensando logo em algum bandido.

À luz do sol ela brilhava muito. Subitamente um grande clarão surgiu como se fosse uma lâmpada de mercúrio.

Aladim estava ali a olhar aquela lâmpada brilhante quando notou uma fumacinha branca subindo aos ares.

No meio daquele rodamoinho surgiu um gênio com várias ideias na cabeça, oferecendo tudo, parecendo político em época de eleições.

Oferecia três pedidos para o cidadão Aladim. Riquezas sem fim, modernidades mil, viagens até à lua, marte ou outros planetas.

Aladim, muito comedido perguntou:
― O Senhor tem aí um tal de Cartão Corporativo?
― Cartão corporativo? Onde você viu falar isso meu filho?
― Aqui mesmo em nosso diminuto reino.
― Tá, vou pesquisar… huuuuummmm. Tem vários cartões de Crédito, serve?
― Não, quero somente Cartão Corporativo!
― Do Reino Unido?
― Isso mesmo!
― Está aqui o seu Cartão! Agora você só tem direito a mais dois pedidos, viu?

Aladim pensou, pensou e revolveu pedir mais dois Cartões Corporativos.

O gênio muito encabulado perguntou:
― O que você vai fazer com uns cartõezinhos de plástico?
― Muita coisa – respondeu Aladim.

Uma nuvem branca surgiu e levou aquele gênio maluco.
Aladim ficou ali por muito tempo, admirando aqueles três cartões de plásticos, brilhantes, com faixa dourada.

Lembrou que esta praga de cartões fora criada para facilitar a transparência das contas do reino e diminuir os gastos por meio da comprovação de notas.

Naquele reinado, onde o petróleo jorrava em todo lugar, o cartão podia ser utilizado para qualquer tipo de compra, desde passagens aéreas até pagamento de prestações de vários tipos e saques em dinheiro. Enfim, o cartão era de muita utilidade para qualquer cidadão que trabalhasse na área pública.

Mas Aladim nunca ocupou cargo público, como ficaria a sua situação? Ninguém sabia, também nunca ouve fiscalização dos ditos cartões e todos os usuários estavam usando como bem entendessem aqueles magníficos e brilhantes, suporte de vida!

Foi vivendo e aprendendo, primeiro sacou cem mil para comprar uma casinha. Entusiasmado fez uma viagem pelos países vizinhos, gastando uma nota preta (ou seria uma nota afrodescendente?).

Na volta observou se havia algum comentário, nada, tudo estava como deixara.
Resolveu então arranjar uma namorada e gastar a vontade em bailes, restaurantes, viagens, carros, roupas, e tudo que o cartão poderia comprar. Por enquanto estava usando apenas o primeiro cartão, em caso de problemas passava imediatamente para outro, por que ele não era bobo.

Assim foi enriquecendo cada vez mais, sem ninguém saber como, muitos até pensavam que ele esta vendendo drogas, mas depois chegavam a conclusão que aquele bom moço não iria chafurdar na lama do sistema violento dos traficantes.

Mas um fato muito interessante aconteceu: o gênio Midala resolveu voltar para ver como estava vivendo Aladim.

Chegou, bateu na porta do palácio (palácio?), é, o esperto mocinho já comprara um velho palácio na rua principal do lugarejo e mandara reformá-lo, era o melhor prédio daquele local.

― Enriqueceu muito meu velho amigo! Como foi que fez isso? Com aqueles cartõezinhos de plástico?
― É preciso destreza e muita sabedoria. Não pode ir como muita sede ao pote. Tem que saber usar o que ganha. Movimentar o capital. Nunca desperdiçar. Hoje estou aplicando muito dinheiro em ecologia. Está vendo aquela fábrica? É tudo reciclagem, muitas pessoas trabalham ali. O valor das vendas é dividido entre eles.
― Aladim, meu filho, como você está se tornando sábio. Toma mais alguns cartões, onde poderá usar com sabedoria.
― Obrigado meu gênio. Você poderá visitar-me quando quiser. Agora vamos almoçar com tudo que temos direito e depois uma sobremesa com frutas da região, por que ninguém é de ferro!

O gênio Midala aprovou tudo que Aladim fizera e disse que voltaria sempre.

Manoel Amaral