OS TAMBORES

OS TAMBORES

Ele, trabalhador rural, estudou muito e tornou-se especializado em tratores. Mecânico, mas de vez em quando era recrutado para trabalhar a terra.

Até comprou uma fazendinha lá para as bandas dos ribeirões. Terra preta, boa para plantar tudo.

Resolveu pelo milho que estava com boa saída para rações e alta cotação no mercado.

Procurou um amigo que trabalhava com fotografia aérea e fez um mapa de sua fazendinha.

Alugou um trator do seu vizinho por alguns dias.

Separou o local e começou a aração. Entre altos e baixos, ia tudo muito bem.
Até que encontrou alguns cupins novos e resolveu ir com calma.

Já estava escurecendo e alguma coisa, parecendo com tronco de árvore fez um barulho diferente. Desceu, calmamente e observou um buraco com um tambor de 200 litros, de PVC, cor preta,  enterrado naquele local.

Antes de abri-lo resolveu retirá-lo do local, estava bem pesado. Foi preciso usar o trator. Com medo de poluição que poderia conter resolveu tomar todos os cuidados.

Colocou-o na camionete e levou para sede da fazenda. Nem pensou em abri-lo.
Continuou o trabalho com o trator e mais outro barulho esquisito, outro tambor. E mais outro e um último.

Levou tudo para a casa e já ia colocá-los num velho barracão, então resolveu abri-los.

Pensou numa coisa e deu outra. Achou que seria droga e era dinheiro.

Pacotes com notas de 100 e de 50 reais e até dólares. Muito bem embalados.
Quanto teria ali? Nem fazia ideia.

Pensou em conseguir uma máquina para contar, depois desistiu.

De onde viria aquilo tudo? Com todo este barulho sobre corrupção algum político ou traficante sentiram-se amedrontados e acharam melhor enterrar a fortuna.

O pequeno fazendeiro comprou quatro tambores de 200 litros da mesma cor daqueles que achou. Colocou adubo neles e nos outros cobriu o dinheiro com um plástico e também colocou um pouco de adubo em cada um. Deixou tudo naquele velho barracão.

O medo era tanto que não sabia o que fazer. Em casa nem um pio, sobre o assunto. Nada de falar sobre os achados.

No terceiro dia de trabalho apareceu uma visita. Conversa daqui, conversa de lá e andando nos arredores o visitante entrou no barracão e perguntou:

–Para que tanto tambor, Euzébio?

–É aqui que guardo adubo para as plantações e o barracão está muito velho, com goteiras por todo lado, então comprei esses para proteger da umidade. Pode ficar aí por mais tempo sem estragar.

Destampou e mostrou ao homem que sacudiu a cabeça e pensativo falou:
–Você tem cada ideia.

Joaquim foi embora e Euzébio voltou a pesquisar o terreno. Buscou as fotos aéreas e procurou indício de algumas escavações recentes.

Não encontrou mais nada. Só capim naquelas planuras. Arou até terminar a área que pretendia plantar e pronto. Semeou o milho.

Queria mais tempo para pensar sobre o que achou.

Depositar em banco nem pensar. Gastar, comprando imóveis, muito menos.
Tomou uma decisão: depois da colheita do milho pegaria tudo e mudaria para a Chapada dos Guimarães.

Manoel Amaral

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OSVANDIR E O VENDEDOR DE ADUBOS

A terra se esgota para te alimentar, mas adubada, se refaz.” (Lucrécio)

O velhinho, de repente, resolveu vender adubo. Comprou uma carreta cheia e mandou descarregar no seu quintal, num velho galpão.

Todos fazendeiros da região ficaram sabendo da história do adubo, o preço era baixo e a qualidade muito boa.

Alguns até acharam engraçado a idéia do Senhor Antônio; vender adubo, que coisa mais estranha.

Não passou nenhum mês e lá estava o inusitado vendedor de adubo novamente com mais uma carreta na porta, para descarregar. As vendas estavam indo de vento em popa!

Senhor Antônio estava bem feliz, o povo estava comprando só ali. Sua esposa falecera há alguns meses antes dele instalar o depósito de adubo.

Uma jovenzinha de uns 18 anos, olhos verdes claros, cabelos louros, um pouco encaracolados, estava trabalhando na lida da casa, sem nenhum comprometimento amoroso com o patrão, que era muito respeitoso.

Alguns meses se passaram e tudo ia tranqüilo, quando o velho vendedor de adubo sofreu um ataque cardíaco e faleceu.

Belinha, a empregada, ficou sem saber o que fazer. Chamou o vizinho que tomou as providências funerárias. Foi um enterro com muitas pessoas, o maior que já viram na localidade.

Até arranjar outro emprego, ela ficou ali naquela casa. No dia seguinte foi ao porão pegar alguns produtos de limpeza e assustou-se com aquela grande máquina, aí lembrou do barulho que ouvia diariamente.

Um advogado apareceu na casa pedindo informações para o inventário, mas Belinha não ajudou muito, apenas mostrou os documentos.

Osvandir, passando por aquela cidade, tomou conhecimento da história do velhinho, vendedor de adubos.

Nesse meio tempo a empregada recebeu a notícia que havia um depósito de três milhões de reais, em seu nome, no banco da cidade. Como não tinha a menor idéia da quantia, perguntou para o professor Marcos, que lecionava matemática no colégio, se aquele valor dava para comprar uma casinha, ele respondeu que dava para comprar uma rua inteira do bairro.

Belinha não resistiu a grande emoção e também faleceu.

Osvandir ficou desconfiado que o adubo estava servindo para ocultar alguma coisa. Fez logo um levantamento na casa inteira. Começou pela parte superior da casa, não encontrou nada de importância. Desceu para o porão e viu a máquina que a empregada havia mencionado. Alguns sacos de adubos abertos, uns dez fechados e três tambores de metal com capacidade para cem litros cada.

A máquina era um triturador. Os tambores estavam queimados na parte interna. Os sacos de adubo abertos, continham apenas a metade, parece que esperavam alguma mistura.

Na manhã seguinte um fazendeiro, cliente do Senhor Antônio, chegou na casa procurando o Osvandir. Encontrara um pedaço de nota de cem reais, lá na sua roça de feijão, na beira do rio, na sua Fazenda do Morro Redondo.

Declarara ainda que o adubo de “seu” Antônio era de uma cor esverdeada, diferente dos demais.

Mediante tais informações Osvandir verificou melhor o triturador e os tambores. Encontrou pequenos pedaços de papéis verdes, quem ampliados, pareciam ser dinheiro.

Procurou a Caixa Econômica da cidade e confirmou: era mesmo dinheiro e a maioria de notas de cem reais. Descobriu mais um fato novo ao conversar com o gerente. O Senhor Antônio era um dos ganhadores do grande prêmio da mega-sena, mas ninguém na cidade sabia disso.

Consultando os extratos das contas, tomaram conhecimento que ele vinha fazendo saques semanalmente e no dia em que faleceu a conta estava zerada.

O único valor que restara seria o da conta da empregada Belinha. Fizeram a consulta, através de seu advogado, tiveram uma grande surpresa. No dia de seu falecimento o dinheiro de sua conta, desaparecera misteriosamente. Contam na cidade que foi obra de um hacker.

Finalmente Osvandir descobriu o segredo do Vendedor de Adubo. Ele estava triturando todo o dinheiro que ganhara na loteria e misturando ao adubo que vendia. Uma nova maneira de gastar dinheiro!

Manoel