COITADO DO CHICO

COITADO DO CHICO
Obras da transposição do rio São Francisco. Foto: jornalistaflavioazevedo
O Chico aqui no caso é o Rio São Francisco, poluído, diminuído, arrasado, aterrado, deflorado e desmatado.
Não tem mais condições de sobrevivência como a maioria dos rios brasileiros.
Um país com a quantidade de bacias hidrográficas e faltando água em muito estados, é porque a coisa está grave.
Começaram a transposição, canalizaram uma parte, falta muito ainda para acabar.
E quando acabar não haverá mais água para transpor. Apenas barro e fétido, contaminado, escuro que nem petróleo.
Mas a região do São Francisco não é só água, às suas margens tem muitos afetados, índios,  quilombolas e os ribeirinhos, além das matas ciliares devastadas e terras que eram boas para cultura, sem contar a perda de fauna e flora.
Cientistas listam muitas outras perdas:
a)   fragmentação de cerca de 430 hectares de áreas com vegetação nativa e de habitats de fauna terrestre;
b) Risco da introdução de espécies de peixes potencialmente      daninhas ao homem nas bacias receptoras;
c) Interferência sobre a pesca nos açudes receptores;
d) Modificação da composição das comunidades biológicas aquáticas nativas das bacias receptoras;
     e) Modificação do regime fluvial das drenagens receptoras.
Sobraram só os gases. Os gases que já estão sendo explorados por empresas multinacionais. Daqui a pouco nem eles.
Por que será que as águas doces, quando já estão quase chegando próximo ao mar não são canalizadas para outras áreas, em vários rios que temos. Tinha que ser o São Francisco, naquela obra eterna, para várias gerações futuras.
Nos canais abandonados já tem árvores de grande porte de mais de 5 metros de altura.
Imagino quando a natureza resolver protestar contra esta obra, o que deverá acontecer.
E o Nordeste continua e continuará seco.
Por isso:
“EU VIRO CARRANCA PRA DEFENDER O VELHO CHICO”
Manoel Amaral

AS ÁGUAS VÃO ROLAR

AS ÁGUAS VÃO ROLAR

É muito difícil evitar as enchentes. Com obras você pode minorar essas coisas. Mas chegarmos um dia a dizer que nunca mais haverá enchente – isso é utópico. (Mário Covas)

É chuva sobrando em Minas e faltando no Rio Grande do Sul.

Excesso de chuva causa prejuízo na produção de leite, falta de chuva prejudica a lavoura.

É assim o nosso país continental. Uns com sofás, camas, geladeiras, mesas e outros móveis retirados às pressas de suas casas prestes à ruir. Outros cortando cana para dar o gado, que já está muito magro.

É Prefeito sumindo com verba que seria utilizada na reconstrução de sua cidade desde janeiro passado. É Ministro levando muita verba para seu Estado, sua cidade e deixando as outras a ver navios (o pior, no meio do mato).

Morros despencando por todos os lados, pontes caindo, desabrigados desassistidos perambulando por Grupos Escolares, Abrigos e Igrejas.

Carros, móveis, animais e pessoas sumindo rio abaixo. Algumas salvas, por milagre, dependuradas nas copas das árvores.

Só em Minas são 67 municípios em situação de emergência, mas de dois mil imóveis atingidos na Zona da Mata, outros tantos no Centro-Oeste de Minas, milhares de desabrigados.

Ruas viraram rios, moradores navegando, muitas casas debaixo d` água. Moradores ribeirinhos apreensivos podem perder tudo a qualquer momento, depende do rio, que já subira mais de 8 metros.

Deslizamentos de terra, provocado pelas fortes chuvas, amassam carros, matam pessoas, derrubam barracos e prejudicam rodovias.

O pobre não consegue comprar lote de terreno em lugar melhor e vai morar na beira do rio sabendo que mais dia, menos dia tudo será levado pelas águas.

Verbas federais e estaduais, prometidas, demoram anos para chegar (quando chegam…) às cidades devastadas pelas águas.

Na maioria das vezes são desviadas para campanhas políticas. Usam artimanhas de todos os jeitos para passar a mão neste dinheiro que poderia beneficiar milhares de famílias que tudo perderam com as chuvas.

Os bombeiros fazem o possível para salvar vidas, mas às vezes quando chegam já está tudo perdido. As pessoas estão soterradas metros e mais metros de terra. Nada a fazer, só lamentar.

Voluntários aparecem para ajudar e quase sempre conseguem salvar pessoas.

Aqueles se salvaram recebem roupas, água e alimentos, mas o que eles querem é casa para morar e em lugar onde possam viver sem medo.

Agora é só rezar e aguardar as próximas chuvas, não tem jeito, todo ano é a mesma coisa. Trabalhos de prevenção são mínimos e resolve pouco.

E você que está aí no seu cantinho, longe da violência das águas, das encostas dos morros, porque não dá uma ligadinha, faça uma visita ou envie umas roupas, fraldas e brinquedos para as crianças. Tem alguém esperando por você!

Manoel Amaral

http://osvandir.blogspot.com

Com relação ao título da crônica, trata-se de verso da marchinha de carnaval:

SACA-ROLHA
(Zé da Zilda-Zilda do Zé-Waldir Machado)

As águas vão rolar
Garrafa cheia eu não quero ver sobrar
Eu passo a mão na saca-saca-saca rolha
E bebo até me afogar
Deixa as águas rolar…

OSVANDIR E AS HISTÓRIAS DE PESCADORES

Parte I
CHUVA ESTRANHA
“A pesca assemelha-se à poesia: é necessário nascer pescador.”(Izaak Walton)

Todo fim de ano Osvandir viaja para o interior de Goiás, sua terra natal.
Ali ainda contam todo tipo de história de pescador, de assombração, de caminhoneiro, de mentiroso e outras mais, afirma ele.

Numa destas rodas, à beira do fogo, um senhor franzino, bigode branco e fino, cerca de sessenta anos, contou uma história complicada.

Diz ele que no povoado de Arranca Toco, no interior do interior, lá bem longe, onde a TV e nem o computador ainda não poluíram a mente de ninguém, existia um teimoso pescador que às vezes ficava horas e horas à beira do rio e não conseguia pescar nada que valesse a pena.

Era nervoso e por pouca coisa estava sempre brigando com a família. Xingava todo mundo, pegava as varas, os anzóis, a lata de iscas e ia pescar.

Quando pescava muito num lugar, o peixe rareava, resolvia mudar de lugar e onde pescava ultimamente, perto da cachoeira Véu de Noiva estava acontecendo isso. Nada de piabas, só mosquitos.

Numa destas idas e vindas ficou sabendo de umas luzes que estavam aparecendo lá para os lados da fazenda Céu Azul, do Senhor Jerônimo. Resolveu ir até aquele local para analisar os fatos.

Naquele dia, apesar das discussões costumeiras, ele saiu cedo, despreocupado, iria fazer uma grande pescaria. Havia chovido a noite e a água estava um pouco turva, boa para certos tipos de peixes que ficam pulando toda hora para abocanhar um inseto ou alguma frutinha que dá na beira do rio.

Pegou uma minhoca bem grande, iscou o anzol, já bem gasto pelas centenas de vezes utilizado e começou a pegar peixes de todos tipos e tamanhos. Alguns que nunca vira naquela região, saiam grudados no anzol.O pescador nem tinha como levar para casa tudo que estava pescando.

Um barulho estranho veio das árvores do outro lado do rio, apesar da calmaria, parecia um redemoinho. Uma chuva de peixes caiu do céu, depois de uma ventania forte, que tombou várias árvores e formou um misterioso círculo no canavial mais próximo.

Josino, o insistente pescador, descobriu logo porque tinha tanto peixe no rio e alguns que nunca tinha visto.

No meio da estrada ficou cheio de peixes de todos tamanhos, pegou alguns e ia colocando na sacola mas notou que nenhum deles se mexia. Olhou melhor e pode constatar que estavam mortos há um bom tempo.

Não entendeu nada, voltou ao local do poço onde pescava e colocou na sacola somente os estavam vivos.

De volta para o povoado contou para a turma o que aconteceu e ninguém acreditou.

Quando saiu, seguindo para sua casa, alguém falou:
__ Isso é história de pescador!

Parte II
O PODER DAS ÁGUAS
“Existe uma tênue diferença entre pescar e ficar na margem, em pé como um idiota.” (Abraham Lincoln)

Josino, o nervoso pescador, depois de mais uma desavença em casa, mesmo tendo chovido muito a noite inteira, resolveu ir pescar que era a coisa que entendia muito bem. Cada peixe um tipo de isca, anzol apropriado e vara certa. Tem até peixe que nem se pega com anzol.

Desta vez ele ficou só observando o rio, a enchente tomava conta de todo o espaço do terreno. Muitos objetos da cidade mais próxima estavam descendo rio abaixo: sofás, colchões, geladeiras, fogões. Muitos animais domésticos também lutavam contra as águas.

No povoado de Pedra Grande “Seo” Souza bebia o último gole de pinga num boteco de fim de rua, sempre acompanhado de seu inseparável cavalo de nome Gigante, apesar de ser pequeno.

O Senhor Quim, conhecedor da região, insistiu para que Souza não prosseguisse viagem, poderia até ficar em sua casa naquela noite.

Teimoso, o cavaleiro bêbado, seguiu para a beira do rio, onde ficava sua fazenda lá do outro lado.

Ao aproximar-se das águas o velho animal empacou. Com espora no lombo nadou cerca de cem metros, foi levado pela correnteza, rio abaixo. Nadou para beira de um barranco onde um galho de uma frondosa árvore arrancou o cavaleiro dos arreios do “poderoso” Gigante. O cavalo seguiu rodando, com o poder das águas.

Josino olhou para o lado direito e viu um animal arreado, que conhecia muito bem, debatendo-se no meio da enchente.

Resolveu largar a pescaria e seguiu rio acima. Não tinha esperança de encontrar o Senhor Souza, vivo.

Andou quinhentos metros no meio de barro, mato, canavial e na curva do rio vislumbrou uma árvore grande com qualquer coisa na copa.

Era gozado e trágico ao mesmo tempo, Souza lá estava num galho da árvore, imaginando estar montado em seu cavalo, mais parecia o D. Quixote do sertão.

Josino lembrou que quando subia notou uma corda dependurada numa galhada, voltou lá e com um pouco de astúcia conseguiu retirá-la da árvore. Enrolou-a de maneira que ficasse mais fácil o transporte e voltou correndo para onde se encontrava o cavaleiro perdido, que lutava contra as águas.

Amarrou um pedaço de pau curto e grosso na ponta da corda e jogou-a para o lado da árvore. A primeira tentativa não deu resultado, quase perdeu-a. Entrou mais um pouco na água e atirou novamente mirando bem o centro da copa da árvore. Deu sorte, o pau enroscou-se num dos galhos da árvore.

Josino gritou para Souza amarrar bem a ponta da corda em algum ponto mais resistente. Daí a pouco vinha aquele velho homem debatendo-se na água, a sua amarração não ficou bem feita, o nó soltou-se; acontece que o pescador, precavido, havia amarrado a outra ponta num velho toco no meio do mato.

São e salvo, Souza chegou ao povoado em companhia do pescador Josino e foi logo convidando todos para tomar uma rodada de pinga.

Quando contou o que aconteceu e Souza ali confirmando, alguém do meio da turma disse:
__ Isso que é verdadeira história de pescador!

Manoel