O ATIRADOR

“O bom pesquisador vê o que os outros não veem.” (Osvandir)

Há anos, ali naquele local, tinha o mais alto índice de acidentes de veículos. Um aclive, uma curva, um trecho em linha reta em declive. Para os engenheiros seria um trecho de rodovia normal. Várias análises foram feitas até em laboratórios especializados. Nada encontrado que pudesse ser melhorado, tudo estava dentro do padrão de construções modernas.

Toda semana, ao cair da tarde, uma carreta ao subir, fazer a curva, logo nos primeiros cem metros de descida, o motorista perdia a direção do veículo e saía fora da estrada, arrastando árvores e capotando.

Uma barra de metal fora colocada onde elas saiam da rodovia e mais sinalização. Não adiantou praticamente nada. Elas continuaram a despencar morro abaixo.

A única coisa que a polícia rodoviária conseguiu descobrir foi o tipo de carga mais frequente nos acidentes: alimentos. Mas só na aparência, outros produtos transportados também eram vítimas dos acidentes.

Osvandir foi convidado para fazer uma análise destes acidentes e enviar um relatório para um Deputado Federal e uma Companhia de Seguros que estavam intrigados com a insistência destes acidentes, agora em qualquer horário do dia.

Pesquisou o que pode nos depoimentos dos motoristas, nas fotos da polícia e nos jornais. Pegou o que já havia nas empresas transportadoras e pode notar a presença de uma mesma pessoa em três acidentes. Era um rapaz novo, de uns 25 anos.

Deu em nada, este rapaz passava por ali umas três vezes por semana e sempre que via um acidente, parava o seu carro para ajudar os motoristas acidentados.

Osvandir quis ver os restos de alguns veículos acidentados, que sempre eram levados para o mesmo lugar, um ferro velho próximo de um povoado, quando não eram reclamados pelos proprietários ou pelas seguradoras. Pediu ao proprietário para ver os pneus das carretas, os da frente, de preferência. Alguns já estavam até sem a roda. Pegou uns quatro e jogou no porta-malas de seu carro.

Em casa, de posse de uma lupa, rastreou quaisquer defeitos, tais como buracos, rachaduras ou outros tipos de desgastes. Anotou tudo no seu relatório, fez várias fotos do lado de dentro e do lado de fora dos pneus.

Num dos dias da semana em que estavam registrando mais acidentes, Osvandir resolveu passar por ali de manhã, no meio do dia e à tardinha. No período da tarde pode presenciar quando uma carreta subiu e desceu até certa altura e começou a virar naquele asfalto já cheio de sinais no piso. Parou imediatamente o seu carro no acostamento e verificou vários pontos do local. Viu qualquer coisa brilhar no alto de um barranco, cerca de oitocentos metros logo abaixo, entre algumas árvores. Anotou tudo, bateu fotos e cuidou de socorrer o motorista, que não se ferira. Aliás é bom frisar que em nenhum acidente houve mortes.

Perguntou ao ajudante se ele ouvira algum barulho ou som diferente. Ele informou que estava olhando para os barrancos da esquerda e viu algo, como se fosse um pequeno brilho, lá em cima.

O pesquisador, no outro dia, parou o seu carro antes da curva, desceu a pé. Subiu, com grande esforço, o tal barranco. Bateu algumas fotos.

Concluiu o seu relatório e entregou para o Deputado Federal, outra cópia para Companhia Seguradora e informou tudo para a Polícia, com a recomendação que sigilosamente, colocassem um vigia escondido naquele local.

Dois dias depois a Polícia prendeu Fred, 35 anos, com um Fuzil Para-Fal, bem no alto daquele barranco. Perguntado o que fazia ali, com aquela arma, confessou:

― Quando eu era menino, com uns 12 anos, ficava aqui e pelo barulho dos motores sabia qual era o carro que chegava. Quando cresci, estive no Paraguai e consegui comprar esta arma, depois comprei pela internet o silenciador, a luneta e a apostila para aprender a atirar e fazer a manutenção do fuzil. Subia para este morro e atirava nos pneus das carretas, por pura distração. Estava na minha guerra particular.

― Osvandir, como você conseguiu descobrir isto tudo? ― quis saber um executivo da Seguradora.

― Foi fácil, quando vi os pneus que recolhi no ferro velho, em três deles descobri a perfuração por bala. O resto foi ficar atento a detalhes. Lá em cima achei uma cápsula de 7,62 x 51 mm, uma velha árvore com um buraco, algumas pegadas, tocos de cigarro e outras coisas bem interessantes. Imaginei que ele guardava o fuzil no buraco da árvore. O brilho ou reflexo que eu e o ajudante do motorista vimos era do seu isqueiro.

O atirador foi internado numa clínica psiquiátrica para observação, conforme notícias dos jornais.

Manoel Amaral

O ASSASSINATO DE UM PRESIDENTE

O jornal noticiou que um louco fora internado no hospital. Tinha mania de querer matar o Presidente.

O Presidente estava preparando-se para partir. Iria visitar um estado que lhe era hostil, para acalmar os ânimos na política.

A política da esposa era outra e avisava sempre: __ Cuidado querido. Quero que você volte vivo! A gente nunca pode confiar num louco. Ele é sempre capaz de cometer desatinos…
__ Desatinos! O que há? Está com medo querida? Já viajei tanto e nunca me aconteceu nada. Tudo é a prova de bala no carro…

O carro americano, modelo 1963, deslizava suavemente no asfalto e a rádio anunciava que um louco fugira do hospital. O rádio do carro foi desligado por um instante.

Há instante dali, num recanto da cidade mais próxima a conversa era diferente: __ Você já está com o fuzil?
__ Já!
__ Então faça tudo como te ensinamos. Você não deve perder tempo. Estaremos te esperando do outro lado da rua.

Do outro da rua principal dera entrada o carro presidencial e vinha uma fila enorme de outros carros atrás. Os Senadores, Deputados, Governadores e Jornalistas sempre acompanhavam o presidente onde quer que ele fosse. Um forte dispositivo de segurança estava preparado.

Preparado ninguém está para o imprevisto. O presidente sentindo muito calor (teria o ar condicionado enguiçado?), mandou abaixar as capotas à prova de bala, justamente na hora em que virava a esquina.

Na esquina, do alto do prédio mais próximo, um tiro partiu. Todos ouviram, mas ninguém foi atingido. Outros três foram disparados de locais diferentes e o presidente foi atingido na cabeça e no pescoço.

Pelo pescoço abaixo o sangue escorria e hemorragia instalou-se naquele cérebro.

Naqueles cérebros a confusão se formava: __ Mataram o presidente! Assassinos loucos!

O louco saiu correndo, escada abaixo, atravessou a rua mas foi preso por um soldado que já estava ali para isso.

Enquanto isso, o carro presidencial dava entrada no hospital da cidade.

Na cidade o comentário era muito grande e um boato começou a ser espalhado no meio da multidão:
__ Um louco matou o presidente, dando três tiros lá de cima!

De cima, mais alto em pensamento do que a camada popular, os jornalistas imaginavam diferente:
__ Foram três tiros vindo de locais diferentes, o louco preso não era o assassino, o tiro vindo do prédio da esquina não atingiu ninguém.

Ninguém imaginava que o suposto assassino do presidente ia para o matadouro. Os saldados levaram o psicopata para a rua central da cidade. Ele não parecia doente mental, alguém que perdeu a razão, pelo contrário, articulava bem as palavras e seus gestos eram bem compreendidos. Contudo qualquer coisa o impedia de falar o que desejava. Queria gritar para todos que não estava louco. Que aquilo tudo não passava de uma farsa! Até a fotografia com o fuzil! Tudo combinado! Planejado!

Planejado também estava a sua morte! Quando fez um esforço maior para falar, um tiro a queima-roupa provocou uma fumaça no meio da multidão e a câmara da TV pode captar o último gesto do inocente útil, ainda algemado a um soldado.

Um soldado sem qualquer esforço pegou o atirador, ainda com a arma na mão.

Na mão da polícia estava o segredo da morte dos dois e ninguém se atreveu a verificar a verdade. O Relatório famoso, dizia que não havia complicação com organismos internacionais e que o único culpado era o “assassino louco,” o outro era apenas um “espectador exaltado.”

MANOEL AMARAL
Em dezembro de 1963