OSVANDIR E AS TESTEMUNHAS

OSVANDIR E AS TESTEMUNHAS
Imagem Google

“A caçada para o índio, representa uma luta até as últimas
consequências, com o objetivo da matança”.
Rosane Volpato
Numa daquelas noites, depois do trabalho duro na mata, à beira da fogueira, Osvandir ouviu do Pajé Katimbú esta história:
“Foi há muito tempo, quando tudo era só mata fechada naquela região. Os índios tinham como costume iniciar os jovens guerreiros em uma caçada no meio da floresta.
O primeiro grande animal que aparecesse era para caça do índio iniciante. Ninguém podia atacá-lo, salvo em caso de perigo eminente para ele.
Assim foram preparados para o grande dia, as cerimônias de iniciação dos jovens. O Cacique da tribo acompanharia a todos nesta caçada, pois seu filho também estaria entrando na fase de jovem para guerreiro. Era o ritual tradicional da caça. Alguns pintavam o corpo, destacando-se o vermelho e preto e usavam o termo “mrü kubin” que quer dizer “matar caça”.
No centro da mata, um barulho forte de um grande animal correndo. Todos de armas em punho. Era hora de demonstração de força, ação e reação. Luta corporal para vencer ou ser derrotado.
O guerreiro partiu de um lado, do outro a onça pintada, faminta, sem saber por onde atacar.
O ponto de encontro seria numa velha árvore próximo de um desfiladeiro.
A visão do animal um pouco embaçada, ia mais pelo olfato, de acordo com o vento.
O homem, também com visão prejudicada, via com os sentidos, pelo tato.
Ela ouviu um grito, ele ouviu um urro. Lança em punho, garras estendidas.
A luta era eminente. Ela sentiu um gosto de sangue na boca, ele um estranho contorcer do estômago.
Eles nem perceberam que por ali estavam mais sete guerreiros da tribo.
Um bem próximo da cena, outro bem afastado. Aquele lá embaixo no desfiladeiro e além, o do alto da pedra gigante. Um na frente e outro atrás.
A luta ia começar quando o valente guerreiro caiu sobre o animal que também estava morto.
A testemunha que estava próxima afirmava que tinha visto tudo. O Valente guerreiro transpassara o animal com a sua lança, mas recebera uma flechada de outro guerreiro que assistia a cena. Só que a flecha era para o animal.
A segunda testemunha que se encontrava mais distante disse que tudo ocorrera ao contrário. O animal foi morto pela lança do guerreiro e que uma faca atirada na onça por outro, acertou o índio.
A terceira foi mais objetiva, ela observava do alto da pedra gigante; disse que ao atacar, a onça se espetou sozinha na lança e o guerreiro caiu em cima de sua faca.
A quarta que estava lá no fundo da grota informou que o fato se deu da seguinte maneira: o guerreiro veio correndo tropeçou numa moita ao atirar a lança, esta atingiu o animal que lhe deu uma dentada na veia jugular.
A quinta veio da frente falou que tanto a onça como o guerreiro, deram uma trombada, a lança espetou-se no animal e o guerreiro com a faca na mão cortou o outro pulso e morreu.
A sexta que estava atrás da moita, disse que não pôde observar direito porque o mato atrapalhou a sua visão, mas o que viu por último foi os dois caindo, primeiro a onça e depois o guerreiro.
O pajé que tudo ouvia, sem nada dizer, resolveu chamar a alma do guerreiro. A fumaça branca subia pelo céu azul, um cheiro forte de alecrim e outras plantas pairava no ar.
Aos poucos uma pequena imagem, parecida com holografia, foi se formando ao lado de um arbusto. Todos em silêncio. Uma fina brisa caía sobre a mata.
Pajé Katimbú fumava um cachimbo indígena, feito de barro; cada baforada trazia uma nova mensagem, segundo suas crenças.
Daí a um certo tempo ele contou como tudo aconteceu segundo lhe foi revelado pela alma do índio.
“Eu vinha correndo em direção ao animal para matá-lo. Atirei a lança, que acertou em seu coração. A minha faca caiu ao lado da onça. Ao ver a caça ali no chão, sofri um ataque cardíaco de tanta emoção. A morte foi instantânea. Este é o meu depoimento”.
O sábio Pajé da mata levantou-se, bateu a poeira, deu um espirro e falou:
__ Nem tudo é o que parece ser, nesta grande floresta.
Manoel Amaral
www.casadosmunicipios.com.br

VAMOS CAÇAR TATU?

VAMOS CAÇAR TATU?


Lua cheia, na zona rural, casal de namorados na varanda:
— Que lua linda – diz romanticamente a garota.
— Boa para caçar tatu – responde o rapazola.
Para entender o sentido desta piada que corre na zona rural e mesmo nas cidades, leiam o texto abaixo.

O Zeca convida o seu amigo Joselito para mais uma caçada de tatu, lá no meio do matagal.

Os dois seguem pirambeira abaixo e bem próximo ao rio os dois se separam e cada um vai por um lado.

Daí a poucos instantes o Zeca grita:
— Achei um Joselito, venha correndo para começarmos a caçada.

O amigo dispara pasto afora e na beira da pequena floresta encontra o Zeca já preparado para enfiar a mão no velho cupim que imagina ter sido escavado naquela noite por um tatu.

O tatu, como todos sabem, quando atacado, crava as suas garras na terra e não sai do buraco “nem a pau.”

Mas o nosso amigo Zeca tem uma técnica especial para caçar tatu. Aprendeu com o seu avô há muito tempo. E vem passando de geração em geração. Todos faziam a mesma coisa.

Ele enfia a mão no buraco, com todo cuidado, pega no rabo do tatu, vai com o dedo anular por baixo e toca as partes íntimas do bichinho. Estes sentindo aquele estranho invadindo a sua privacidade, esquece-se de tudo e se protege enfiando as patas debaixo de sua carapaça. Aí o caçador, mas que depressa, puxa o bicho para fora do buraco e coloca no saco.

Nesta noite os dois não estavam no melhor dia. O lampião não queria parar aceso. Joselito tropeçou num toco de alecrim e quase arrancou a unha do dedão (eles estavam de sandálias havaianas). O outro quase caiu no rio quando tentava achar um cupim.

Zeca não reparou direito, aquele buraco não era novo, já tinha até teia de aranha.

Quando ele enfiou a mão e deu um grito, retirando-a imediatamente, o seu amigo Joselito não entendeu nada. Só  depois que Zeca disse:

— Fui atingido por qualquer coisa pontiaguda – é que ele entendeu que o seu grande amigo fora picado por uma cobra.

Preparou um pedaço de pau e retirou-a do buraco. Era um cascavel, das grandes.

Na zona rural dizem que “picada de cascavel quando não mata aleija”.

Pegaram as bicicletas e correram para o povoado. Eram seis horas da manhã e posto ainda não estava funcionando. Esperam e esperam, só abriu lá pelas sete e meia que eles foram atendidos.

O Zeca começara a ficar com o dedo roxo. O posto fez apenas um pequeno curativo no dedo anular e encaminhou-os dois para a cidade.

O tempo estava correndo contra a vida de nosso amigo caçador de tatu.

Assim que chegaram ao posto de saúde da cidade o médico perguntou qual era a cobra e foi logo pegando o soro antiofídico.

O profissional da saúde disse que não poderia garantir nada, pois já havia passado várias horas desde a picada e o atendimento.

O que aconteceu foi que Zeca ficou com aquele dedo inutilizado até o dia em que teve de operá-lo, arrancando as falanges, pois já prejudicava os movimentos da mão.

PIRAMBEIRA – Ladeira muito inclinada.

Manoel Amaral