HÍSTÓRIAS DE TERROR – O Defunto

O DEFUNTO

Tem pessoas que vão a velórios para conversar, rever amigos, tomar uma pinga da roça, fabricada com mistura de puro álcool ou para tomar um cafezinho na cozinha.

Outros vão fazer Merchandising, distribuir cartão, vender produtos e incrível, – não vai acreditar, – para chorar, berrar.

Advogados vão para ver se conseguem faturar mais um inventário.

Tem gente que é viciado em velório. Muitos cidadãos adoram fazer discurso quando o caixão está descendo na cova. Palavras de pura falsidade:
__ “Conheci este cidadão, gente fina, pagava todo mundo, ajudava quem podia, nunca foi preso, foi um grande político sem nunca ter ganho nenhuma eleição…”

Puro humor negro (não adianta reclamarem, não existe humor Afro-brasileiro). Mais palavras, palavras e palavras falsas.

Um até chorava de verdade, era velho amigo do falecido, havia emprestado alguma grana para ele e sabia que agora não receberia nunca.

Mas neste caso o defunto era mesmo querido, estava ali esticado, com algumas folhas incomodando-lhe o nariz e uma abelha que insistia em beijar todas as flores do caixão e das coroas.

O prédio do velório era novo, bem construído, com um defeito muito grande: era muito próximo demais do cemitério. Já pensaram? De madrugada se os mortos resolvessem dar uma passeada entre os vivos?

Estava aproximando-se da meia-noite, as conversas foram rareando, ficaram apenas dois bêbados ao lado do caixão. Zezinho, velhinho e medroso; Zequinha, jovem e corajoso.

Os outros foram todos embora, com promessa de voltarem de manhã para continuar os papos. Aqueles dois ali, quase dormindo. Um sempre cutucando no outro. Zezinho dormiu que até caiu da cadeira.
Sono pesado. Zequinha resolveu ir embora e saiu de mansinho.

Ficou então Zezinho naquele sono bom, ali ao lado do defunto. Acordou, o falecido ainda estava ali. Continuou dormindo.

O defunto, com o saco cheio, resolveu levantar-se do caixão e ficou ali sentado numa cadeira, mais afastado. Nesse meio tempo Zezinho acordou sobressaltado, olhou ao lado e havia um novo companheiro.

Começou a conversar:
__ Está muito tranqüilo isso aqui, né companheiro?
__ Um pouco – falou o defunto com voz um pouco rouca.

Foi aí que a coisa pegou fogo! Zezinho resolveu dar uma conferida no defunto e teve a ingrata surpresa de encontrar o caixão vazio. Apavorado foi falar com o novo colega:
__ Não a de ver que o defunto saiu do caixão?
__ Como era o nome dele?
__ João da Mariazinha…
__ Este é meu nome.

O bêbado deu três pulos, desceu o morro correndo só indo parar quando chegou em sua casa. Até esqueceu que estava tonto.

Manoel Amaral
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OSVANDIR E A MULHER DA MALA III

Capítulo III
O Casamento
“Marido de mulher feia sempre acorda assustado.”
(Osmair, Tio do Osvandir)

Osvandir lembrou também que “marido de mulher feia detesta feriado”. Veio assim na sua cabeça, sem pensar em mais nada.

Mas precisava de explicar para o pessoal, o que representava aquilo tudo que achou na maleta da Mulher de Branco.

Ela veio em sonho e contou-lhe como tudo aconteceu:
__ Foi num mês de janeiro ensolarado, que casei, numa fazenda de meu pai, há quase cem anos. Tudo estava correndo muito bem, em meu casamento, até que meu marido enrabichou por uma garota com a metade de sua idade.

Osvandir tomou um gole de água fria, para acordar, mas não acordou e a Mulher de Branco continuou contando:
__ Lutei com todas as minhas forças para ver se retirava aquela garota do meu caminho. Melhorei o meu visual, comprei novas roupas, mas nada, ele estava completamente enamorado da jovem. Ela estava consumindo nossas economias.
Meus filhos, um casal, já estavam crescidos, arranjei mais um para ver se mudava o roteiro do destino. Nada. O menino morreu com dois anos. Guardei só uma blusinha dele, que carrego na maleta.

__ Mas você não tentou mudar de cidade, de fazenda, sei lá? – Osvandir ainda sonhando.
__ Tentei, fui até para um local perto de Itaúna, uma fazenda maior que a nossa.
Não adiantou. O marido levou a coisinha. Ficou pior, todo fim de semana os dois saiam para passear na cidade e eu ficava trancada em casa. – Mulher de Branco, ainda assustando…

Continuando, ela deu informações muito importantes:
__ Foi aí que fiz um plano para matar os dois, no sábado ele se enfeitava para ir visitá-la. Armei tudo no local do encontro. Comprei uma Mauser, modelo 1889 e um Winchester de longo alcance. Fiquei a espera dos dois num local mais alto. Assim que começou a escurecer ouvi uma conversa, eram os dois agarradinhos. Não pensei duas vezes, dei quatro tiros, dois em cada um. Aproximei-me, parece que a mocinha ainda estava viva, saquei da Mauser e dei mais um tiro em sua cabeça.

__ Mas você saiu atirando assim, sem esperar para comprovar que eram eles? Já era quase noite, meio escuro, como fez?
__ Conheci pelas roupas e depois fui lá para conferir. Estavam mortos, um sobre o outro. Não me senti muito bem. A Jovem estavam com um fino lenço no pescoço, retirei-o e levei-o para casa e coloquei-o em minha mala maior. Estava manchado de sangue. O tempo passou, ninguém desconfiou de mim. Acharam que eram assaltantes.

Osvandir ficou remexendo na cama e depois acordou assustado, parece que alguém havia batido na porta.

Levantou, olhou e nada! Lavou o rosto e ficou um tempo na cozinha, conferiu o relógio, eram três horas da madrugada.

Deitou e começou a sonhar de novo:
__ Como ninguém desconfiava, – contava a Mulher de Branco – tratei de providenciar o enterro dos corpos. Ninguém veio reclamar o corpo da jovem. Foi enterrada em cova rasa. Para o meu marido, mandei fazer um túmulo grande, de puro mármore preto. Paguei uma fundição para fazer um belo anjo de metal amarelo. Gravaram as datas de nascimento e falecimento na lápide: 1850 – 1909, ele faleceu com 59 anos.

Osvandir remexeu na cama, mas antes de acordar, lembrou de perguntar para a Mulher de Branco:
__ E a Senhora, o que aconteceu depois?
__ Eu sobrevivi mais uns dez anos e depois faleci, acometida de uma gripe espanhola. Hoje fico zanzando por aí, sem destino.
__ O que poderia fazer para minorar o seu sofrimento?
__ Mandar celebrar uma missa pelas nossas almas e rezar um Pai-Nosso e algumas Ave Marias, no próximo enterro que acompanhar. Ao visitar o cemitério de Pedra Lascada, lá irá encontrar o nosso túmulo, passe por lá e faça alguma oração por nós. Não esqueça da jovem que também precisa de ajuda.

Osvandir levantou de um salto, entre dormindo e quase acordado, olhou pela janela e ainda pode ver um fino lenço branco voando no quintal…

MANOEL AMARAL
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