O BELO ADORMECIDO

O BELO ADORMECIDO

Naquele país, como na maioria, os Deputados eram eleitos com gordas propinas pagas pelas empresas.

Os Senadores e Governadores também recebiam dinheiro para o Caixa Dois de suas campanhas.

O povo já empobrecido estava sempre espantado com as notícias diárias dos jornais e TV, só coisas ruins.

O Governo Federal anunciava um desconto de R$0,10 nos combustíveis, o povo delirava. Na semana seguinte um aumento de R$0,40 fazia todo mundo guardar os carros e andar a pé.

O Senhor Otoniel, proprietário de vastas plantações de cana para produção de álcool combustível, ficava feliz com os aumentos, só assim dava para ele cobrir todas as despesas com a sua destilaria.

O seu único filho Josuel, cursava Engenharia Eletrônica e prestes a se formar.
Mas o destino é cruel, ele estacionou a sua BMW próximo a uma pracinha da cidade e foi logo atravessando a rua com sinal fechado e digitando qualquer coisa no seu celular. Veio uma moto, em alta velocidade e atropelou-o.
Chegando ao hospital com vida, tudo foi feito para que sobrevivesse.

No entanto não lograram êxito, aqueles dedicados médicos. O jovem ficou em estado de coma.

Os enfermeiros ficaram ali cuidando daquele bonito rapaz dia e noite, estendido numa cama do hospital.

As Redes sociais servem para o bem ou para o mal; uma daquelas cuidadoras, quando havia uma visita, comentou que ele parecia “O Belo Adormecido”.

Como uma foto foi publicada, ninguém sabia. Aquilo “viralizou” na internet.
Assim sendo, algumas ingênuas jovens apareceram no hospital para beijar Josuel, acreditando que ele iria acordar daquele sono eterno.

Alguns enfermeiros não disseram não e aí a coisa piorou até a notícia chegar a casa da pobrezinha Aurora que morava a 50 km daquele hospital, justamente em um acampamento de plantações de canas do Senhor Otoniel.

Tímida, com 17 anos, lourinha, com cabelos encaracolados, resolveu tentar o beijo ao Belo Adormecido.

Mas suas roupas eram tão velhas que foi impedida de entrar no hospital. Um canal de TV viu aquilo e achou que daria uma boa reportagem.

Levaram Aurora num salão e numa loja de roupas finas e de lá ela saiu como uma princesinha.

No outro dia, toda cheirosa, e com aqueles repórteres de lado, entraram sorrateiramente no quarto do jovem em estado de coma.

Ela chegou e chamou a atenção de todos e sem pedir foi logo beijando a mão do rapaz e as máquinas deram sinal de vida.

Logo um enfermeiro disse para que beijasse a boca do rapaz para ver o que aconteceria.

Nesta altura o quarto estava cheio e muitas garotas com seus celulares filmando tudo.

Ela, tímida que era, relutou, mas devido à insistência de todos que diziam:
— Beija! Beija!

Ela inclinou-se sobre aquele corpo sem vida e deu um beijo com aquela boca avermelhada.

As luzes apagaram-se, o barulho foi imenso. Acesas novamente e as máquinas começaram a dar sinal que ele acordara do estado de coma.

Foi uma alegria total, palmas e mais palmas.

A princesinha não acreditou e desmaiou.

Senhor Otoniel que acabara de chegar de Miami, onde participava de uma Feira de Produtos Derivados de Cana, veio rápido para o hospital.

Os dois, agora recuperados, foram abraçados pelo grande industrial e ali mesmo ele fez uma promessa:
— Se fosse da vontade de seu filho os dois casariam de verdade.
Só aí que seu Antônio, pai de Aurora, ficou sabendo da história por um vídeo repetido milhões de vezes na internet.

Viajou para a cidade para encontrar sua filha e seu patrão.

Muitos anos depois eles casaram-se e tiveram gêmeos.

Manoel Amaral

OSVANDIR & O DIA EM QUE A INTERNET ACABOU III

Capitulo III

A TOMADA DE JERICO

“Gritou, pois, o povo, e os sacerdotes tocaram as trombetas;
ouvindo o povo o sonido da trombeta, deu um grande brado,
e o muro caiu rente com o chão, e o povo subiu à cidade,
cada qual para o lugar que lhe ficava defronte,
e tomaram a cidade” Js 6:20
.

Os estranhos eram selvagens, atacavam em grupo e tudo destruía. Tocaram umas cornetas feitas de chifres de carneiro, como nos tempos do Primeiro Testamento.

Não sabemos se por milagre ou por dinamite (TNT), a verdade é que ao tocarem aqueles instrumentos, os muros e o portal de entrada da comunidade desabaram.

Aqueles bárbaros foram invadindo tudo e tomando conta dos alimentos.

Barulho se combate com barulho. Sem demonstrar nenhum medo, dois habitantes de Jerico seguiram para o meio do grupo e puseram a tocar, em som altíssimo, seus instrumentos (um piston e um saxofone). Atraídos pelo som que não conheciam, eles foram para a rua principal. Um saiu tocando por um lado e o outro por outra rua, assim aqueles bárbaros foram logo divididos em dois grupos.

Com muito custo, com a ajuda das ideias de Jeq e da astúcia de Osvandir, aquele povo foi dominado e enviado de volta para sua região.

Após a partida deles, o muro foi reconstruído, bem como o portal. Tomaram a precaução de agora em diante, ficarem de sobreaviso para caso de invasão.

Jerico estava num lugar privilegiado, entre montanhas, não tinha campo de aviação. Não recebeu quase nenhuma visita de estrangeiros. Estava muito longe dos grandes centros. Por esta razão evitaram a contaminação pela gripe A. Os raros casos que aconteceram foram com pessoas que por ali passaram e seguiram em frente, levando aquele vírus maligno.

Noutras comunidades a Gripe Suína chegava e se instalava aproveitando a debilidade da população.

Porém após o Raio Azul, as coisas complicaram muito e outras doenças apareceram: varíola, catapora, gripe comum, piolhos, sarna e por aí. O pequeno Posto de Saúde estava cheio de pessoas com uma infinidade de sintomas. Cada grupo que chegava trazia um tipo de doença, que era debelado com muito custo.

Com a chegada de Osvandir, alguma coisa foi melhorada. A população foi devidamente informada sobre este novo vírus da Gripe. Os funcionários do Posto de Saúde queriam saber mais e foram orientados de acordo com vários prospectos que trazia na mochila.

Ali naquela comunidade de pouco mais de 10.000 habitantes as necessidades eram bem menos que outros grandes centros.

Produção de alimentos até que existiam por todo lado, porque as terras não foram afetadas, mas o difícil era o transporte. Para uma viagem de 50 km gastava-se dois dias com o carro-de-bois. Às vezes as verduras e legumes estragavam com a viagem, sendo uma tremenda perda de tempo.

Por esta razão os comerciantes preferiam transportar a carne, os grãos e o sal.

Como Jerico já tinha resolvido muito sobre como moer os grãos (milho para o fubá), triturar o sal e tirar a casca de arroz e café, o seu comércio era muito grande com outras comunidades. Passaram até a fabricar linguiça, queijos, carne seca, gordura de porco, farinha, fubá, pó de café, óleo de mamona (combustível para veículos e lamparinas de iluminação) para remessa a outras localidades mais distantes.

Os problemas maiores eram os custos da segurança para remessa dos produtos. Os assaltos sempre constantes nas estradas impediam viagens sem planejamento.

Quando Osvandir e o seu grupo preparavam-se para partir uma estranha luz apareceu no céu, bem próxima dos moinhos de vento. Ficou girando, como se fosse um torvelinho. O povo ficou olhando aquele espetáculo raro.

De repente um telefone de orelhão começou a tocar e uma luz acendeu num poste…

Continua…

Manoel Amaral

Leia mais Osvandir em: http://www.textolivre.com.br/component/comprofiler/userprofile/Manoel