O POBRE VAMPIRO DE SÃO JOSÉ DE BICAS

“Minha força está na solidão. Não tenho medo nem de
chuvas tempestivas nem de grandes ventanias soltas,
pois eu também sou o escuro da noite.”
(Clarice Lispector)

Imagem Google

Ninguém sabia o seu nome, apareceu na festa de fim de semana.

Bebeu, fumou e cheirou. Saiu, tropeçou, caiu e dormiu.

De madrugada acordou. Olhou no escuro da noite e não viu nada.

O barulho de veículos foi diminuindo, ele dormiu novamente. Belos sonhos sonhou.
Da manhã, procurou um boteco para tomar um café forte a fim curar a ressaca de tantas drogas ingeridas.

A cabeça doía muito. Parecia que o cérebro havia evaporado. Não conseguia pensar coisa com coisa.

Enveredou por uma ladeira, viu umas mulheres na calçada. Magras, roupas curtas e muito feias. Ainda procuravam os últimos fregueses.

A pequena cidade de São Joaquim de Bicas, com pouco mais de 25 mil habitantes, pertence a pertence a Região Metropolitana de BH.

Não é a melhor nem a pior das cidades do entorno da capital. Tem as suas sequelas. Bandidagem, ladroagem, roubalheira, drogas, drogas e drogas.


O Jornal O Tempo abriu manchete: Polícia estoura laboratório de refino e distribuição de drogas em São Joaquim de Bicas.

Os serviços públicos, como em qualquer cidade brasileira, deixam muito a desejar.
A Prefeitura não tem como atender tantos pedidos de emprego, conserto de ruas, canalizações esgoto, construção de escolas, pontes, creches e outros prédios públicos.

Os Vereadores continuam legislando sobre troca de nome de rua. O prédio da Sede Administrativa é muito moderno.

Tudo ali deveria correr as mil maravilhas ao primeiro olhar, mas na realidade só mudou a construção, continua tudo como qualquer Prefeitura do Interior. A Oposição de um lado e a Situação de outro, cada um tentando mostrar mais serviço.

Lá também tem casos de crianças desaparecidas: Polícia investiga sequestro e encontra jovem em cárcere privado… que foi manchete Nacional.

Mas aquele Senhor sem nome estava no fim da linha. Os pensamentos voavam. Os restos das drogas no organismo faziam, agora, efeito contrário. Ele foi ficando depressivo, precisava arranjar um local para apagar as suas mágoas e arranjou.
Entrou num beco, viu um tambor velho com pedaços de pau queimando naquela manhã serena. Um friozinho subia a sua coluna vertebral e parava ali na nuca provocando um baque. Parecia uma chave de desligamento de energia. O seu corpo ficava mais leve.

De repente, por entre aquelas ruas estreitas surgiu um louco com uma estaca de metal.

Sem que tivesse tempo de desviar, recebeu aquele forte impacto no peito. Metal frio arregaçando as carnes.

Ainda vivo, tentou encontrar socorro na beira da rodovia, ficou ao lado de um Fiat Palio, de cor prata.

Foi encontrado pela Polícia Rodoviária Federal o homem, de 33 anos, com vida, no km 509 da rodovia, mas morreu logo após dar entrada no hospital.

Manoel Amaral
www.casadosmunicipios.com.br

O SEQUESTRO DO LEITOR

“Escrever é uma viagem perigosa para dentro de nós mesmos”
(Chistopher Vogler)

“Estava perambulando pelas páginas de um livro, quando senti que tinha sido seqüestrado. Não podia largá-lo, em hipótese alguma.Dizia o leitor aflito”

Neste esquema o leitor era obrigado a ler um conto diariamente. Uma tortura, mas real.

Aquele livro, grande, 364 páginas, antologia de contos, pegou aquele jovem desprevenido.

Não podia mais pensar nem agir como antes. Estava completamente comprometido com aquelas páginas.

Conta de energia, telefone, água, tudo ficou atrasado. Até a prestação da casa, que tinha uma multa e uns juros altos, ficou ali na gaveta.

A mensalidade da faculdade, a lavadeira, a prestação dos sapatos, das roupas, gente cobrando. Farmácia cortando o crédito e o cartão de crédito? Também embolando.

O trabalho de escritório foi esquecido, como se não existisse. O chefe ligou várias vezes, ele nem atendeu. Olhava na bina do aparelho telefônico e sabia quem estava ligando e desligava na cara do cidadão.

Tudo correndo desta maneira. A vivência era a dos contos, nada mais.

Enquanto isso, tudo acontecia do lado de fora:

Albertina se casara com Mário que a abandonou depois de três dias.

A Universidade expulsou a garota da mini-saia. Ela resolveu entrar com processo de indenização e danos morais.

O menino foi amordaço na escola. A Professora disse que ele falava demais.

A lista de cornos, naquela cidade do interior de Minas, estava causando o maior reboliço.

Homem tem documentos usados por irmão foragido, que pintava e bordava em seu nome.

O Ministro das Comunicações pretende dar ao povo, a Bolsa Celular. Disse que é para beneficiar quem tem bolsa família. Mas não é de graça, as empresas receberão do Fundo de Fiscalização das Telefônicas. Muito dinheiro envolvido: mais de dois bilhões de reais.

E no Sul de Minas, surto de diarréia, postos de saúde cheios de gente indo aos banheiros. Alguns acham que o Prefeito tratou mal a água da cidade.

Criança sai para entregar a chave da vizinha e é morta misteriosamente.

Várias balas perdidas (não existe bala perdida), matam no Rio.

Aposentados vão ter que esperar mais. O aumento prometido não vai sair. Quem sabe poderia sair um celular desta bolsa para os coitados.

Morto aparece no próprio velório, assustando todo mundo. Acontece que quem havia sido atropelado era outra pessoa. As suas irmãs esqueceram a sua fisionomia de tanto ele morar na rua.

Velório da mulher que ainda estava no Hospital. Explica-se estavam velando a mulher errada.

Namoro na WEB acaba em homicídio, o corpo da mulher foi encontrado incinerado.

Os Políticos, no ano que vem, serão todos honesto. Ano de Eleição vale tudo, até fingir que é homem do bem. Adeus quadrilhas, mensalões, empréstimos fabulosos, castelos e viagens ao exterior.

Seria melhor o Leitor ficar no mundo dos contos, aqui fora a vida continua cruel.

“No conto, o autor vence o leitor por nocaute”
(Alex Gennari)

MANOEL AMARAL

OSVANDIR, O PARDAL E O LOUVA-DEUS

“O pássaro jamais emudece, nem retrocede,
segue cantando e construindo,
construindo e cantando.”
(Sebastião Ramos de Oliveira – Fortaleza-CE)

Osvandir descia a rua para ir ao supermercado fazer compras das ofertas do dia, quando viu um pequenino pardal numa luta terrível contra um seu inimigo, o louva-deus.

Ele bicava rápido aquele inseto verde, tentava por a nocaute aquele jantar. Clicava direto nos olhos para apressar a morte da futura comida.

Quando já ia mais embaixo viu uma andorinha sondando um ninho de outro passarinho, numa mangueira, mas o dito a espantava. Não entendeu o motivo, pois a linda andorinha estava com um inseto no bico e o ninho estava cheio de filhotes.

O melro, pássaro malandro, bota em ninho de tico-tico e nunca mais volta lá para tratar dos filhotes e nem por isso eles deixam de sobreviver, muito bem tratado pela mamãe tico-tico. Às vezes trata primeiro do filhote adotivo, que costuma jogar os demais fora do ninho.

Mas voltemos ao pardal. Ele veio para o Brasil nos antigos porões de navios desde o descobrimento. Invadiram nossas cidades, foram para a zona rural e voltaram novamente paras as cidades. Interessante notar que muitos pássaros e animais estão retornando para as comunidades a procura de alimento.

Do quintal de seu sogro, numa pequena cidade de Minas, Osvandir via sempre um belo tucano que só tinha visto em cativeiro.

As maritacas, as araras, os bem-ti-vis, as trocais, as rolinhas, etc., estão cada vez mais invadindo as cidades em busca de alimentos.

Culpa do homem, que cortou todas as árvores frutíferas dos cerrados, das matas. Tem fazendeiro ignorante que para plantar capim para o pasto do gado, corta todas as árvores, deixa tudo limpo. Depois reclama que está faltando água em seu sítio. Vai faltar mesmo, vai secar tudo, não é praga do Osvandir, é por que as árvores ajudam a manter as nascentes.

Outros cortam e nunca plantam nada, nem horta, levam tudo do supermercado, até cebolinha, pode?

Quando vem a cidade levam para roça todas as coisas que poderiam estar produzindo lá mesmo: rapadura, leite, doces, farinha, polvilho, verduras e legumes, lenha, canas, árvores frutíferas. Cortaram tudo que havia no local e não plantaram nem um pé de manga. São bitolados, só visam o lucro. Tem uns que nem vaca leiteira eles criam, dizem que dá muito trabalho e prejuízo, preferem criar bezerros para engorda e venda posterior, daí alguns meses. Vão só comprando terras e desmatando, prejudicando o meio ambiente.

As chuvas já não vêm nos meses certos como antigamente, está tudo mudado, até lobos guarás estão encontrando nos quintais, assustando a população.

O pardal era muito odiado há algum tempo, hoje ninguém se preocupa com ele. Está sobrevivendo apesar de o homem estar ao seu lado. Entra na cozinha, pega um grão de arroz, voa pela janela. Volta leva um pequeno pedaço de pão.

A comida é farta, para que ele vai se preocupar? Na roça correria o risco de ser apanhado em algum alçapão ou morrer na boca de algum predador.

Ele estava ali diligente, tentando preparar a sua comida ou dos filhotes. Bicava o inseto verde que esperneava. O povo passando bem pertinho, ele não estava nem aí para ninguém, cuidava de sua presa.

Bicava, bicava e bicava, até que o louva-deus ficasse imóvel.
Daí ele, com certeza iria parti-lo em pequenos pedaços, para devorar por ali mesmo ou levá-los até o seu ninho.

A andorinha sempre voando em torno da árvore, chilreando. O outro pássaro defendendo o seu ninho, quem sabe estaria criando um filhote de andorinha? Não sabemos, o fato é que ela estava ali e insistia.

São pequenos fatos da natureza que ninguém quase nota, mas os olhos de lince de Osvandir não deixam passar.

Manoel Amaral
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