CORPO FECHADO II

CORPO FECHADO II



“Ave Maria, gratia plena, Dominus tecum:
benedicta tu in mulieribus et benedictus fructus ventris tui Iesu.
Sancta Maria, Mater Dei, ora pro nobis
peccatoribus, nunc et in hora mortis nostrae.”

Na sua mão direita, queimada pela pólvora, uma bala disparada pela segurança do Governador.

Quase ninguém entendeu o porquê daquela bala estar alojada ali na mão do matador profissional.

Todos os dias quando levantava para o trabalho, rezava a oração de São Jorge:

Eu andarei vestido e armado com as armas de São Jorge para que meus inimigos tendo pés, não me alcancem; tendo mãos, não me peguem; tendo olhos não me vejam e nem em pensamentos eles possam me fazer mal. Armas de fogo o meu corpo não me alcançarão, facas e lanças se quebrarão sem o meu corpo tocar, cordas e correntes se arrebentem sem o meu corpo amarrar. “
“Jesus Cristo me proteja e me defenda com o poder de sua santa e divina graça, Virgem de Nazaré me cubra com o seu manto sagrado e divino, protegendo-me em todas as minhas dores e aflições, e Deus com sua Divina Misericórdia e grande poder seja meu defensor contra as maldades e perseguições dos meus inimigos. Glorioso São Jorge, em nome de Deus, estenda-me o seu escudo e as suas poderosas armas, defendendo-me com a sua força e com a sua grandeza, e que debaixo das patas de seu fiel cavalo meus inimigos fiquem humildes e submissos a vós. “
“Assim seja com o poder de Deus, de Jesus e da falange do Divino Espírito Santo.”

Além da oração, o profissional levava um patuá junto ao corpo. Uma espécie de “breve”, dobrada e costurada, amarrada a um fino fio de couro.
Estes encantos eram preparados por feiticeiros, que além da oração, poderiam conter muitas outras coisas.

Um raminho de alecrim, outro de arruda, algumas pedrinhas de sal grosso, figas de guiné, estrelas de Salomão, Cruz de Caravaca (oração) e uma imagem ou medalha do santo da devoção do usuário.

Seria como se fosse os atuais escapulários, muito difundidos no meio católico.
A oração da Cruz de Caravaca é a seguinte: “Em nome do Pai, do Filho, do Espírito Santo. O espírito de Jesus Cristo é vencedor. Cristo reina, Cristo governa. Pelo Santo Lenho em que foi pregado, Cristo pode nos salvar. Se, por qualquer arte mágica, Satanás pretende escravizar-me, nosso Senhor Jesus Cristo, por sua misericórdia infinita, não consentirá e me restituirá a liberdade e a posse da sua divina graça. Senhor meu Jesus Cristo, filho de Deus, eterno e omnipotente, que vos encarnastes no ventre da Santíssima Virgem Maria, para salvação dos pecadores e redenção da humanidade, rogo-vos, Senhor, livrai-me dos maus espíritos. Satanás e todos os espíritos do mal, que pretendeis aprisionar-me e torturar-me, afastai-vos de mim, pelo poder da Cruz do meu Salvador. Amém.”

E o nosso herói, (eu disse herói?), não, ele era um matador profissional e não fazia serviços pequenos. Só trabalhava com ricos fazendeiros, empresários, Deputados, Senadores e outras pessoas importantes.

Após o seu trabalho, entrava numa igreja mais próxima e pedia a Deus, perdão por seus pecados, rezava alguns Pais Nossos e outras tantas Ave Marias e saía dali com a alma mais limpa.

Os seus trabalhos eram garantidos, por isso  era muito disputado pelos “grandes”.

Ele estava ali naquela pequenina cidade, numa sexta-feira, não para matar, mas para redimir de seus pecados.

A bala que não conseguiu penetrar no seu corpo foi apanhada no ar como uma demonstração de poder.

Morreu de outros males; de tiros, facadas, lançadas, flechadas e outros tantos meios de matar ele estava protegido.

Gemiro morreu de ataque cardíaco, um mal que a oração não protegia.

Manoel Amaral

CORPO FECHADO – I

CORPO FECHADO


Signum Crucis.. In nómine Patris et Filii et Spíritus Sancii. Amen.                                            (Sinal da Cruz em Latim)

Acostumado que estava de andar sempre a cavalo, sentia-se meio desajeitado ao lado daquela linda mulher loura, naquele carro novo, uma BMW preta, que comprara só para aplicar o dinheiro que vinha recebendo.

Deu umas voltas pelas ruas, chamou a atenção de todos, estava querendo mesmo se exibir, coisa que não fizera em toda a sua vida.

Queria enfrentar o Sistema, ser maior que o Chefe de Estado.

O Governador estaria naquela pequena cidade para um rápido discurso. O sistema de segurança era muito grande. Do palanque até a igreja tinha uma batalhão de soldados e outros tantos disfarçados de civis.

No alto do principal prédio da praça três atiradores de elite verificavam as ruas, bares, carros e tudo que girava em torno daquele espaço delimitado pela passagem do político famoso e odiado.

Um rumor surgiu no meio dos homens da segurança: ele está aqui na cidade. Os homens concentraram-se em torno da grande figura.

Prefeito recebendo palmas pelo grande feito de levar o governador até aquele rincão.

Era sexta-feira da paixão, dia 2, um ar de tragédia estava pairando sobre aquelas cabeças.

O povo em festa, nem prestava atenção aos fatos que já começavam a desenrolar.

Um carro desceu mais rápido, um pneu estourou, os homens entenderam que era um tiro, o sinal para começar o tiroteio.

A BMW, com o teto solar aberto, descia e contornava a praça da igreja.
Um dos seguranças gritou:
— É ele! É ele!
Lá de cima do prédio três tiros foram ouvidos, cá em baixo uma confusão foi estabelecida. Ninguém estava entendendo nada.

O Governador já estava no palanque falando das verbas que liberara para aquele município. Um guarda pulara sobre ele e esconderam-se por trás da mesa. E foi retirado em segurança, para outro local.

Do carro desceu Gemiro, o temido pistoleiro, subiu as escadarias da igreja e caiu logo na entrada.

Algumas mulheres conhecendo a figura saíram em disparada pela rua abaixo.
De bruços e com a mão direita fechada, sem nenhum sangue derramado, serviu de curiosidade para muitos, que foram chegando de mansinho.

O médico foi chamado e foi constatado: ele morrera de ataque cardíaco.
Quanto ao seu carro sumira dali. Ninguém mais viu o veículo.

Parecia coisa do outro mundo. Gemiro morto, corpo estendido dentro da igreja.

Uma missa ia ser celebrada, agora com corpo presente. O caixão, as flores e toda arrumação já estavam pagas há um mês.

Na igreja o sacristão verificou que havia trinta missas pagas por uma única pessoa: Gemiro.

O corpo foi preparado ali mesmo na entrada e o caixão colocado entre os bancos.

O povo começou a chegar e o Governador não pode esperar, partiu para outros compromissos.

Mariazinha, muito devota, começou logo um terço que não tinha fim.

Alguns passavam, olhavam, estremeciam e sentavam-se bem longe.

A missa terminou e o velório continuou mesmo ali, ninguém quis ou não teve coragem de removê-lo para outro lugar.

Na manhã seguinte o féretro iniciou-se, o cemitério era ali por perto.

Estranhamente uma cova já estava aberta, encomendada por um desconhecido, na noite anterior.

O Coveiro, antes de descer o corpo, quis saber o que tinha na mão fechada: abriu-a e assustou-se.

Na sua mão direita, queimada pela pólvora, uma bala disparada por qualquer um daqueles hábeis seguranças.

Manoel Amaral