VENENOSA

VENENOSA
Imagem Google

Há uns tempos não combinava mais com o marido. Viviam brigando.
Tudo era motivo para discussão. Senhor Toninho já não aguentava mais, estava cansado de tanta confusão.
Não podia nem sair e tinha que dar explicações para onde ia e que horário voltaria.
Aquilo se foi tornando crônico, até para ir a farmácia comprar os seus remédios e os dela, havia uma longa conversa.
Se chegasse atrasado do banco, do supermercado, por conta das filas, o xingatório era certo.
E ali entrava tudo sobre o relacionamento dos dois. Ciúmes, ciúmes e mais ciúmes. Ela estava transtornada. Seria por causa dos remédios?
Ela dizia que era por causa da mocinha do caixa dois do supermercado. Uma loirinha muito atenciosa com os idosos, nada de mais.
Até para dormir, devido a sua agitação, tinha que tomar um medicamento em cápsulas.
E ela morreu misteriosamente, para a polícia foi morte natural. Sofria de diabetes.
Osvandir resolveu investigar aquele caso. Solicitou uma autópsia do corpo e ficou constatado morte por envenenamento por cianureto.
Aquele veneno causa parada respiratória e debilita o sistema nervoso central.
Agora era saber como foi que tudo aconteceu.
Pega um documento aqui, outro dali e achou um texto marcado,
no quarto, de uma revista que dizia o seguinte:
A Mandioca Mansa e a Mandioca Brava
“Melhor, se arrepare: pois num chão, e com igual formato de ramos e folhas, não dá mandioca mansa, que se come comum, e a mandioca-brava, que mata? Agora, o senhor já viu uma estranhez? A mandioca doce pode de repente virar azangada – motivos não sei; às vezes se diz que é por replantada no terreno sempre, com mudas seguidas, de manaíbas – vai em amargando, de tanto em tanto, de si mesma toma peçonhas. E, ora veja: a outra, a mandioca-brava, também é que às vezes pode ficar mansa, a esmo, de se comer sem nenhum mal. (…) Arre, ele (o demo) está misturado em tudo (2001, p.27)
(Grande Sertão: Veredas- Guimarães Rosa)”
Pesquisando mais um pouco Osvandir ficou sabendo que o Cianureto pode ser conseguido das folhas da mandioca.
Na gaveta do quarto ainda encontrou quatro cápsulas do remédio onde foram colocado cianureto em pó.
Encerrada as investigações tudo foi ficando mais claro. O velho já não aguentava mais aquela velha.
A Polícia prendeu o marido como principal suspeito.

Manoel Amaral

OSVANDIR E A DOENÇA MISTERIOSA

OSVANDIR E A DOENÇA MISTERIOSA

“Essa doença incapacita e mata”
(Dr. Osmandir, Tio do Osvandir)

O Tio do Osvandir havia muito tempo precisava fazer um check up. É que ele estava levantando a noite para urinar, bebendo muita água e ficava sempre com muita fome, fora do horário das refeições.

Fora isso tudo ainda perdera alguns quilos e ficava num cansaço, que imaginava ser dengue. Algumas feridinhas de seu braço estavam demorando muito a cicatrizar.No mês passado teve uma infecção urinária que foi difícil controlar, só terminou a custa de muito antibiótico e anti-inflamatório.

Quando estava escrevendo seus textos no computador, sentia uma dormência nas mãos e pés, visão embaçada. Era como se fosse um formigamento.

Pensou com ele mesmo: — deve ser a posição, a postura na cadeira. Foi até a loja mais próxima e comprou uma boa cadeira para uso na sala de computação. Qual o quê, tudo continuou na mesma!

Não tinha escapatória, ligou para seu médico, clínico geral e marcou consulta para o fim de semana.

Os dias se passaram rapidamente e na sexta-feira a secretária ligou informando que havia um horário vago mais cedo, perguntou se havia interesse em fazer a consulta na parte da manhã. Meu Tio que sempre gostou de se livrar do médico o mais rápido possível, confirmou o horário.

Às dez horas pegou o carro na garagem, ao abrir a porta do veículo sentiu uma dor aguda do lado esquerdo do peito. Apressou a saída, desceu a rua de sua residência, pegou a via principal e foi para o centro.Na clínica várias pessoas conversando sobre doenças.

Até que uma velhinha falou sobre o seu marido:
— Ele andava meio triste, emagreceu muito, com a boca seca, visão embaçada e ia ao banheiro toda hora.

O meu Tio ficou ali escutando e conferindo com os seus sintomas. Começou a ficar preocupado.
E a anciã continuava:
— Zezito, foi ao médico e ficou constatado…

Neste momento a secretária chamou-o para consulta, de maneira que não ficou sabendo o final da conversa das duas comadres.

Antes de sentar-se naquela cadeira macia e confortável da sala, o médico cumprimentou-o e perguntou-lhe como estava passando: — Como vai o Senhor?
— Vou vivendo…
— Então vamos aos exames, o que está sentindo ultimamente?
— Estou muito sonolento, boca seca, bebo muita água, dor nas mãos e pés, quero comer a toda hora e a noite levanto para urinar várias vezes.
— Meu amigo, nem precisa falar mais, vou solicitar alguns exames e cuide de voltar o quanto antes ao meu consultório.
— Sim doutor, vou voltar o mais rápido possível.

Osmandir, o tio do Osvandir, saiu dali com várias interrogações na cabeça. Foi para casa e nem quis trabalhar mais naquele dia. Ficou remoendo as macacoas.

No outro dia foi logo levantando bem cedinho e se dirigindo ao laboratório de análises mais próximo de sua casa.

Muito bem acolhido na chegada, mas esquecera de recolher a urina em casa. Deveria entregar outro dia.
A gentil secretária informou que poderia buscar os resultados na sexta-feira de manhã. Assim sendo aproveitou para marcar com o Dr. Salomão, naquele dia mesmo.

Passou a semana toda observando a si mesmo e aqueles sintomas eram reais. Estava mesmo perdendo peso, comendo muito, boca seca e querendo água. Mãos e pés então? Pioraram, estavam mais inchados.

Chegando à sexta-feira, foi ao centro da cidade três vezes, para o tempo passar mais depressa. Encontrou seus velhos amigos, mas com o mesmo papo de sempre: falando mal das eleições, da aposentadoria e do governo federal.

Chegou a sexta-feira, sol brilhante no céu, de repente uma chuvinha fraquinha só para apagar a poeira do asfalto. Almoçou menos, viu as notícias na TV e seguiu para o consultório.

As mesmas velhinhas faladeiras estavam lá. Não deu muito ouvido, ficou do lado de fora observando o grande movimento de veículos nas ruas. Perguntou a alguém a razão daquilo e foi informado que naquele dia haveria uma grande festa na cidade.
Chegou o momento de seu encontro com o médico. Estava tremendo, parecendo que ia receber uma péssima notícia.

Com os resultados de exame na mão entrou na sala.
— E aí “Seo” Osmandir? Deu tudo certo?
— Foi fácil, consegui os resultados para hoje e aqui estou.
— Vamos ver… É amigo, a glicose está alta, também o colesterol.
— Mas doutor, isso é coisa grave?
— “Se não houver controle pode levar a pessoa a um processo de envelhecimento rápido, com falência de órgãos importantes como os rins, olhos, cérebro. O excesso de glicose na circulação provoca lesão de pequenos vasos sanguíneos que pode ocorrer em qualquer órgão do corpo.”
— Como vou fazer para controlar isso tudo?
— Tomando a medicação correta, fazendo a dieta que vou passar-lhe, não coma açúcares, doces. Consuma bastante verduras, legumes, saladas, cereais, alimentos integrais e faça, todos os dias, uma caminhada, de preferência à tarde.
— Mas que doença é essa doutor?

— Você tem diabetes.
Manoel Amaral