MENOR MATA, TOMA UMA PINGA DEPOIS VAI DORMIR

MENOR MATA, BEBE PINGA E DEPOIS VAI DORMIR
A vida não está valendo mesmo nada! Por qualquer coisa, até mesmo um par de tênis, uma pessoa está sendo morta.
Foi o que aconteceu esta semana numa cidade aqui do Centro-oeste de Minas. Um homem de 26 anos e um menor atacaram um senhor de 40 anos, a pauladas,  num bairro, roubaram o seu dinheiro.
Não contentes com o ocorrido e com medo da vítima denunciá-los, voltaram ao local e ainda o encontraram corpo estirado no chão. De posse de uma faca deram vários golpes no pescoço e no coração, conforme declaração do menor apreendido.
Para despistar a polícia queimaram o seu tênis e jogaram o seu relógio num terreno baldio.
O crime foi cometido com requintes de brutalidade, sorrindo o menor confessou que não guarda nenhum ressentimento ou arrependimento pelo que fizeram.
— À noite, – continuou contando o menor, – nóis tomamos um pinga e fomos dormir.

CORPO FECHADO II

CORPO FECHADO II



“Ave Maria, gratia plena, Dominus tecum:
benedicta tu in mulieribus et benedictus fructus ventris tui Iesu.
Sancta Maria, Mater Dei, ora pro nobis
peccatoribus, nunc et in hora mortis nostrae.”

Na sua mão direita, queimada pela pólvora, uma bala disparada pela segurança do Governador.

Quase ninguém entendeu o porquê daquela bala estar alojada ali na mão do matador profissional.

Todos os dias quando levantava para o trabalho, rezava a oração de São Jorge:

Eu andarei vestido e armado com as armas de São Jorge para que meus inimigos tendo pés, não me alcancem; tendo mãos, não me peguem; tendo olhos não me vejam e nem em pensamentos eles possam me fazer mal. Armas de fogo o meu corpo não me alcançarão, facas e lanças se quebrarão sem o meu corpo tocar, cordas e correntes se arrebentem sem o meu corpo amarrar. “
“Jesus Cristo me proteja e me defenda com o poder de sua santa e divina graça, Virgem de Nazaré me cubra com o seu manto sagrado e divino, protegendo-me em todas as minhas dores e aflições, e Deus com sua Divina Misericórdia e grande poder seja meu defensor contra as maldades e perseguições dos meus inimigos. Glorioso São Jorge, em nome de Deus, estenda-me o seu escudo e as suas poderosas armas, defendendo-me com a sua força e com a sua grandeza, e que debaixo das patas de seu fiel cavalo meus inimigos fiquem humildes e submissos a vós. “
“Assim seja com o poder de Deus, de Jesus e da falange do Divino Espírito Santo.”

Além da oração, o profissional levava um patuá junto ao corpo. Uma espécie de “breve”, dobrada e costurada, amarrada a um fino fio de couro.
Estes encantos eram preparados por feiticeiros, que além da oração, poderiam conter muitas outras coisas.

Um raminho de alecrim, outro de arruda, algumas pedrinhas de sal grosso, figas de guiné, estrelas de Salomão, Cruz de Caravaca (oração) e uma imagem ou medalha do santo da devoção do usuário.

Seria como se fosse os atuais escapulários, muito difundidos no meio católico.
A oração da Cruz de Caravaca é a seguinte: “Em nome do Pai, do Filho, do Espírito Santo. O espírito de Jesus Cristo é vencedor. Cristo reina, Cristo governa. Pelo Santo Lenho em que foi pregado, Cristo pode nos salvar. Se, por qualquer arte mágica, Satanás pretende escravizar-me, nosso Senhor Jesus Cristo, por sua misericórdia infinita, não consentirá e me restituirá a liberdade e a posse da sua divina graça. Senhor meu Jesus Cristo, filho de Deus, eterno e omnipotente, que vos encarnastes no ventre da Santíssima Virgem Maria, para salvação dos pecadores e redenção da humanidade, rogo-vos, Senhor, livrai-me dos maus espíritos. Satanás e todos os espíritos do mal, que pretendeis aprisionar-me e torturar-me, afastai-vos de mim, pelo poder da Cruz do meu Salvador. Amém.”

E o nosso herói, (eu disse herói?), não, ele era um matador profissional e não fazia serviços pequenos. Só trabalhava com ricos fazendeiros, empresários, Deputados, Senadores e outras pessoas importantes.

Após o seu trabalho, entrava numa igreja mais próxima e pedia a Deus, perdão por seus pecados, rezava alguns Pais Nossos e outras tantas Ave Marias e saía dali com a alma mais limpa.

Os seus trabalhos eram garantidos, por isso  era muito disputado pelos “grandes”.

Ele estava ali naquela pequenina cidade, numa sexta-feira, não para matar, mas para redimir de seus pecados.

A bala que não conseguiu penetrar no seu corpo foi apanhada no ar como uma demonstração de poder.

Morreu de outros males; de tiros, facadas, lançadas, flechadas e outros tantos meios de matar ele estava protegido.

Gemiro morreu de ataque cardíaco, um mal que a oração não protegia.

Manoel Amaral

OSVANDIR, A FACA E O PORCO

“Porco gordo e sogra rica só dão lucro quando morrem.”
(Jesuir, Avô do Osvandir)

Naqueles tempos não era como hoje, que é só a gente ir ao açougue e comprar o que quiser: linguiça, filé, lombo, picanha, alcatra, patinho traseiro e dianteiro, ou qualquer carne de segunda, bem moidinha, para fazer bolinhas ou para colocar nos pastéis.

Tinha que suar o dia inteiro, almoçar ali mesmo no mato, bem cedo, cerca de dez horas da manhã e ao chegar em casa já tinha jantar pronto.

A noite um sono direto, depois pegar no serviço bem cedinho para cortar cana, jogar espiga de milho para os porcos e sal para os bois, plantar milho, feijão ou arroz. Era a lida diária daquela fazenda.

Em época de colheita a movimentação na fazenda era maior: tinha a moagem da cana para fabricação de rapadura. Arrancar os pés de feijão, por para secar. Cortar molhos de arroz, juntando os feixes maiores para depois bater no jirau. Bater vara no feijão dava uma dor terrível nas costas. Capinar cana nova cortava os braços e com o suor, aquilo ardia muito.

Dona Maria avisou:
__ Osmair, a carne acabou.
__ Pode deixar Maria, amanhã a gente mata um leitão.

Levantaram cinco horas para matar o porco. O tio do Osvandir usava uma faca própria, cumprida e fina.

Correram, correram, sujaram de barro, pularam cercas, caíram em buracos, sofreram com espinhos, galhos, mas finalmente pegaram o bicho.

Era um porco novo, magro, bom para tirar mais carne, mas muito esperto.

O tio pegou o porco, segurou suas pernas da frente, mandou o Osvandir segurar as traseiras. Levantou uma de suas patas e cravou a faca por baixo. O sangue jorrou, a faca ficou lá.

Deixaram o animal imóvel no curral e foram buscar os bagaços de cana, palhas de milho e as folhas de bananeira para queimar os pelos do porco.

Qual não foi a nossa surpresa quando chegaram ao local, cadê o porco? Nada. Nadinha de nada havia ali. O porco escafedeu-se, Osvandir até pensou que o dito, havia ressuscitado como diz na bíblia.

O pior que ele sumiu com a preciosa faca do tio Osmair.

No dia seguinte ele apareceu, sem a faca, comendo no cocho junto com os outros, como se nada tivesse acontecido.

MANOEL AMARAL

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