O COLETOR DE LIXO

O Coletor de Lixo
Zé Prequeté, lixeiro dos bons, trabalhava no morro recolhendo o lixo entre tiros de uma facção e outra.

O Chefão do Tráfico, que já estava com a sua cabeça a prêmio, o conhecia e estava sempre dizendo:

–Zé, passa lá em cima que tenho um lixo para recolher.

E ele ia sem medo nenhum, no meio daquele tiroteio diário.

Trabalhava de sol a sol e dava para tirar um dinheirinho para as despesas da casa.

Era solteiro, morava numa cabana, bem escondidinho aonde ia juntando tudo que poderia render-lhe algum dinheiro.

Também prestava serviços à população, quais sejam carregar uma sacola da D. Maria nas escadarias todas por uns trocados, ou levar algumas malas até a parte baixa.

Aquela manhã estava feia, o tiroteio aumentou, a ordem era não sair de casa.
Nos postes uns cartazes com foto do Chefão e embaixo uma palavra escrita com letras grandes: PROCURADO. E o valor era alto: R$50.000,00. Tudo em polvorosa, não sabia o que fazer, ficar em casa é que não podia.

Pegou o seu velho carrinho, subiu a ladeira, desceu o morro e foi parar num local onde nunca tinha ido; uma construção esquisita. Parecia uma torre, com várias janelas redondas de concreto puro, no meio daquelas casinhas pobres, algumas até feitas de papelão.

Zé entrou, pé-ante-pé, bateu numa caixa velha e ninguém respondeu. Pensou: –Não deve ter ninguém por aqui.

Olha daqui, pesquisa acolá e descobriu uma escada em espiral e no centro um cano grosso, igual aquelas de bombeiros. Resolveu descer pelo cano abaixo praticando uma travessura que sempre quis fazer.

Lá no andar de baixo não tinha móveis nem nada. Mas ao encostar-se numa parede ela moveu-se e o Zé assustou-se. Quando percebeu estava do outro lado, num quarto bem escuro. Olhou a fiação elétrica, não tinha. Ainda bem que nunca esquecia a sua velha lanterna. Focou nas paredes: nada e nem no teto. No piso umas Saliências esquisitas lá num cantinho.

Antes de tomar qualquer decisão pensou bastante. Foi até lá e viu que eram de metal. Passou a mão na testa, limpou o suor e foi em frente: apertou o primeiro botão. Um buraco apareceu e alguma coisa brilhou lá no fundo.

Zé Prequeté sentiu o coração bater fraco, sua pressão estava baixa. 

Sentiu uma tontura e dor de cabeça. A vista escureceu, pensou que ia desmaiar, sentiu um cansaço, visão embaçada e ficou com vontade de vomitar; pegou uma balinha no bolso e deitou-se no chão por alguns minutos. Quando melhorou foi ver o que tinha encontrado.

Pegou uma corda que sempre trazia enrolada na cintura, amarrou numa viga de aço e desceu com a lanterna em punho.

Cerca de três metros, para baixo, deparou com sacos e mais sacos plásticos, com notas de cem e cinquenta reais. Moedas desconhecidas e pareciam de ouro. Pegou um pacotinho de notas de cinquenta reais e umas cinco moedas.

Antes de voltar para sua cabana, fez questão de deixar  tudo igual como encontrara.

Pegou uma nota de cinquenta reais,  comprou alguns pães e pediu ao caixa da padaria que trocasse por notas menores.

Levou a moeda que brilhava, lá embaixo, onde tinha um joalheiro seu amigo e perguntou o que achava.

–Olha Zé, esta é uma moeda muito valiosa e não deve ficar andando com ela por aí.

–Quem sabe o Senhor poderia guardá-la para mim?

–Posso e te passo um recibo para sua segurança.

Capítulo II
O CASTELO

Zé subiu novamente o morro, desceu a escarpa e foi para aquele lugar secreto. Desta vez levou uns sanduíches e água.

Pegou as cordas amarrou na viga de aço e desceu até o fundo do buraco.
Amarrou todos os pacotes de dinheiro, que nem sabia quanto seria e puxou tudo para cima. Colocou um-a-um todos os pacotes no seu carrinho e cobriu com umas caixas velhas.

As moedas colocou-as num saco plástico reforçado.

Ainda ficaram vários sacos que levaria na segunda viagem.

Viu armas e muita munição, não quis pegar nada. Na favela quem está armado a polícia prende.

Desceu até a sua cabana, colocou tudo numa caixa de papelão e várias caixas por cima.

Visitou a parte baixa, fez barba e cabelo com o seu amigo.

Visitou a joalheria onde deixara a sua moeda valiosa e teve uma notícia não muito agradável: Ela fora assaltada na noite anterior e os ladrões mataram o proprietário.

Sobre a sua moeda o filho não soube informar nada.

O jovem não quis continuar o negócio do pai e mudou-se.

José, que não era bobo nem nada, tratou de mudar-se daquele local, procurando um apartamentinho lá embaixo. Pagou três meses adiantados, conforme norma da casa.

Comprou roupas novas e duas malas grandes, pensando no futuro.
Alguns meses depois viu uma reportagem sobre terras no Estado de Goiás. Resolveu que deveria ir para aquele estado tentar nova vida.
Informou sobre o preço da passagem aérea, achou um absurdo, mas comprou uma para o fim de semana.

Ele que nunca havia saído do morro, agora estava voando para outro estado e com as duas malas recheadas.

Procurou os jornais e anúncios de venda das fazendas. Ligou para alguns proprietários, foi anotando os preços e comparando.

Achou uma que lhe servia: foi ver o preço, quase caiu de costas. Conferiu com outras imobiliárias e o preço era aquele mesmo.

Contou um pacote de dinheiro: tinha R$5.500.000,00, perguntou ao advogado da empresa com aquele preço o que poderia comprar. Não queria coisa grande e sim conforto e próximo à cidade. O gado iria comprando aos poucos, nada que houvesse suspeita.

Visitou vários locais e viu um que poderia dar negócio, o problema era que a proprietária era muito bonita e ele não gostava de fazer negócio com mulher.

Mandou prepararem a documentação e marcou o dia para o pagamento. Informou que seria à vista, dinheiro vivo.

O corretor de olho no gordo dinheirinho da corretagem arrumou tudo direitinho marcando daí 15 dias, para assinaturas.

Zé que agora era Senhor José Dias mudou para aquele local e foi aprendendo como lidar com gado, como comprar e vender.

Conversou muito com vizinhos interessados na sua grana.

Lá no fundo da casa tinha uns tanques repletos de peixes já em ponto de comer, muitas tilápias e outros peixes.

Um dos tanques tinha só traíras, pois elas comem os outros peixes.

Zé resolveu até fazer um churrasco num sábado e convidou os vizinhos. 

Foi fazendo amizades, nisso ele era perito.

Quanto ao dinheiro estava bem guardado.

Viu e ouviu pela TV que a polícia havia invadido o morro e encontrado várias armas e aquele prédio ela conhecia bem…

Ficou bem caladinho e até arranjou uma namorada que lhe foi apresentada num churrasco.

Seu pai havia falecido e deixado um enorme herança e precisava de alguém para administrar os seus bens.

José Dias, rico, ficou mais rico ainda, acabou casando-se com a mulher que lhe apresentaram. 

Os filhos foram aparecendo e uma ilustre figura que por ali apareceu até veio lhe pedir o seu apoio, queria candidatar–se a Senador.

Na realidade ele queria era algum dinheiro para campanha. José pediu que ele passasse no escritório da cidade, no outro dia.

Assim foi formando um mito sobre este misterioso fazendeiro do Estado de Goiás. Histórias e piadas foram criadas e seu nome correu todo o estado.

Manoel Amaral

OSVANDIR E AGOSTINHO NO RIO

OSVANDIR E AGOSTINHO NO RIO I
Imagem Globo
Capítulo I

COPACABANA PALACE
“Fica sempre a dúvida: essa guerra ali, essa guerra acolá, porque há guerras em todos os lugares, é realmente uma guerra por problemas ou é uma guerra comercial para vender essas armas no comércio ilegal?”
(Papa Francisco)
Osvandir estava rememorando as aventuras por que passou no meio da Floresta Amazonas, algumas palavras mais pronunciadas naquela região, veio-lhe a mente a linda imagem de Caá-Potyra, a “Flor do Mato”, morena de olhos azuis, com aquela meiguice de índia ainda não aculturada.
O avião moveu-se para cima e depois para baixo, qualquer coisa não ia bem. Uma fumaça saía de um lado da asa direita. Passageiros em polvorosa. As máscaras de gazes caíram, dando a impressão que a coisa era mesmo grava. Mas já estávamos próximo ao Aeroporto Santos Dumont, no centro do Rio de Janeiro.

Naquela segunda-feira, uma névoa intensa cobria a região, não se avistava ninguém, nem nada, a partir de uns 50 metros de distância.

Ao apanhar as malas notou um motorista de táxi de bigode fino, olhos castanhos, magro, de uns 30 anos, nem bonito nem feio, aquele tipo de pessoa que qualquer um pode reconhecer na rua. Ali estava AGOSTINHO, motorista de táxi, típico carioca, com aquele linguajar característico, soltando o “s”, contador de histórias.
― Olha só quem eu encontro no Rio, falou Osvandir.
― Sim Senhor, para onde vai? Respondeu Agostinho.
― Para Copacabana.
― Vou levar o Senhor para um bom hotel, pode deixar.

No trajeto, Agostinho começou a contar uma história, mas Osvandir estava com sono e não ouvia muita coisa. O motorista aproveitou-se para dar umas voltas, enquanto o velocímetro rodava, rodava e os valores iam subindo. A corrida teve seu preço triplicado.

Ele pegou a Via Perimetral, virou na Av. Presidente Vargas, passou pela Praça da República, virou a esquerda e já estava saindo do centro.

Uma parada acordou Osvandir, um barulho de metralhadora pipocou no ar. Eram as quadrilhas em constante luta pela posição de comando nas favelas. Estávamos atravessando a Favela Dona Marta.
― Já estamos quase chegando doutor, pode ficar tranquilo.

Agora sim, ele contornara uma rua estreita, naquela escuridão e voltara para o local indicado: Copacabana.

Passou pelo túnel André Rebouças seguiu direto beira mar, pegando a Av. Atlântica e algumas quadras depois deixou Osvandir no Copacabana, aquele lindo hotel que os chineses estão tentando construir uma réplica lá em Pequim.
― Agostinho, quando foi inaugurado o Copacabana Palace?


― Em setembro de 1923, considerado o mais suntuoso edifício do gênero que possui a América do Sul e um dos mais lindos do mundo. O hotel tornou-se um ponto de convergência da alta sociedade carioca e turistas do mundo inteiro. Tenho trazido para cá pessoas dos EUA, França, Alemanha, Rússia, são tantas que nem lembro mais.

Ao descer do veículo Osvandir dirigiu-se a portaria do hotel para confirmar sua reserva.

― Apartamento Luxo Clássico, com vista para a praia de Copacabana e sala de estar. Falou o atendente.
― “Rio, Cidade Maravilhosa”. Temos atrações incríveis como museus, igrejas e prédios históricos e com suas belezas naturais como o Pão de Açúcar, o Corcovado, o Jardim Botânico e o Parque da Lage; o Rio é uma cidade incomparável! O carregador de malas não cansava de explicar.

Osvandir cansado, dirigiu-se ao apartamento para uma soneca.
Uma hora depois desceu para o café da manhã no Restaurante Pérgula, próximo à piscina.

Naquele primeiro dia iria visitar o Cristo Redentor e o Pão de Açúcar, na parte da manhã.


Ligou para o Agostinho, o celular não atendia. Aguardou alguns instantes e tornou a ligar.

― Alô, é o Agostinho? Aqui é o Osvandir, lembra-se, de ontem, quando você levou-me até o Copacabana Palace Hotel.
― Onde você está?
― Estou na portaria do Hotel.

Meia hora depois chegou o motorista de táxi, apavorado, dizendo que tinha sido assaltado pela terceira vez neste mês.

Explicou onde queria ir e seguiram rápido, primeiro para o Cristo Redentor, aquela estátua maravilhosa de onde pode avistar-se grande parte da cidade maravilhosa. Várias pessoas e países diferentes estavam ali aos pés de uma das maravilhas do mundo.

Seguindo para o Pão de Açúcar, uma pequena parada para tomar água de coco e devorar aquele churrasquinho de camarão.

― Osvandir, o bondinho do Pão de Açúcar é considerado um dos mais seguros do mundo. As atuais linhas são dotadas de dispositivos de segurança, com alarme em todos os pontos. O percurso é todo programado e controlado por equipamento eletrônico.


― Sei disso Agostinho, são três estações – a da Praia Vermelha, Morro da Urca e Pão de Açúcar – interligadas por quatro bondinhos.
― Você vai subir comigo?
― Não! Tenho medo de altura!

Enquanto nosso amigo subiu da Urca até o Pão de Açúcar o Agostinho ficou por ali, batendo papo com turista e se metendo em confusão.

Do bondinho podia-se ver a Praia Vermelha e adjacências.

De volta para o hotel, Osvandir resolveu ler os jornais do dia.
Pegou o Estadão e a primeira manchete que viu foi a seguinte:

Globo vai dar continuidade ao programa “A Grande Família”.

A seguir tecia uns comentários sobre a audiência do programa que ia muito bem.

(Continua)

Manoel Amaral

NOTA DO AUTOR: Este texto foi enviado, graciosamente, para Rede Globo para compor algum capítulo da Série “A Grande Família”, em resposta
o autor recebeu o seguinte e-mail: 

Manoel Amaral

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