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O FEIJÃO NOSSO DE CADA DIA

Imagem Google


“Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe…”


Domingo, desci a rua para comprar alguns produtos da feira, que é próxima da minha casa.

Tudo muito mais caro que no Supermercado, que também fica ali pertinho.
Mas é puro prazer de conversar com as pessoas, saber das novidades, tomar um cafezinho.

E os DVDs infestando as barracas, começam vendendo a 6 por R$10,00 e no fim já estão entregando 8 por R$10,00.

De legítimo da região, são poucos, a maioria traz mercadoria do Ceasa/MG.
Mas conseguimos encontrar queijos, linguiça, churrasco e algumas frutas de época: abacaxi, laranja, jabuticaba e um mundo de variedades de legumes e verduras. E vem uns frescos dizendo que isso não é fruta é legume, outra hora dizem o contrário. Para mim é o que é e pronto. Conhecemos assim e assim fica.

Mas consultando a Wikipédia ficamos sabendo que na realidade o abacaxi é uma  inflorescência e trata-se de uma espiga.

Tem até ramos, cascas e plantas da flora da medicina nacional, para acalmar, levantar e dispor de mais saúde.

As pimentas são um caso à parte: tem a malagueta, a preta, a do bode,  a biquinho (que não arde) e a terrível mexicana, todo tipo que você imaginar.

Os vendedores de produtos eletrônicos tem todo um arsenal, vindo da China, via Paraguai ou São Paulo. Agora estão em baixa porque qualquer um pode importar um produto da China (ou qualquer outro país), pela internet.

Mas a gente ia falar era sobre o feijão: na feira tem feijões e feijões. Uns colhidos por aqui, outros pura enganação, vêm de muito longe, assim como a batatinha, a cenoura e a cebola que vêm do Alto Paranaíba, principalmente da região de São Gotardo e Ibiá, todas da Serra da Canastra.

Então, comprei numa da rua, no centro, numa velha mercearia, um feijão roxinho, que só é produzido melhor na região de Araxá, Patos de Minas e por ali.

Pensei com meus botões: –É hoje que tiro a barriga da miséria…
Qual-o-quê, ela continuou na miséria, o feijão era uma merda (desculpe-me as donzelas). Não é que tivesse muitas pedras, como sempre acontece, é que ele estava misturado com feijão de outra safra (velho) e alguns grãos estavam “bichados”, com aqueles furinhos do pulgão, sem contar que não era roxinho, estava mais para rosinha.

Foi uma decepção muito grande porque já estava com a carne preparada para o almoço que foi sem feijão.

Manoel Amaral

OSVANDIR, A FACA E O PORCO

“Porco gordo e sogra rica só dão lucro quando morrem.”
(Jesuir, Avô do Osvandir)

Naqueles tempos não era como hoje, que é só a gente ir ao açougue e comprar o que quiser: linguiça, filé, lombo, picanha, alcatra, patinho traseiro e dianteiro, ou qualquer carne de segunda, bem moidinha, para fazer bolinhas ou para colocar nos pastéis.

Tinha que suar o dia inteiro, almoçar ali mesmo no mato, bem cedo, cerca de dez horas da manhã e ao chegar em casa já tinha jantar pronto.

A noite um sono direto, depois pegar no serviço bem cedinho para cortar cana, jogar espiga de milho para os porcos e sal para os bois, plantar milho, feijão ou arroz. Era a lida diária daquela fazenda.

Em época de colheita a movimentação na fazenda era maior: tinha a moagem da cana para fabricação de rapadura. Arrancar os pés de feijão, por para secar. Cortar molhos de arroz, juntando os feixes maiores para depois bater no jirau. Bater vara no feijão dava uma dor terrível nas costas. Capinar cana nova cortava os braços e com o suor, aquilo ardia muito.

Dona Maria avisou:
__ Osmair, a carne acabou.
__ Pode deixar Maria, amanhã a gente mata um leitão.

Levantaram cinco horas para matar o porco. O tio do Osvandir usava uma faca própria, cumprida e fina.

Correram, correram, sujaram de barro, pularam cercas, caíram em buracos, sofreram com espinhos, galhos, mas finalmente pegaram o bicho.

Era um porco novo, magro, bom para tirar mais carne, mas muito esperto.

O tio pegou o porco, segurou suas pernas da frente, mandou o Osvandir segurar as traseiras. Levantou uma de suas patas e cravou a faca por baixo. O sangue jorrou, a faca ficou lá.

Deixaram o animal imóvel no curral e foram buscar os bagaços de cana, palhas de milho e as folhas de bananeira para queimar os pelos do porco.

Qual não foi a nossa surpresa quando chegaram ao local, cadê o porco? Nada. Nadinha de nada havia ali. O porco escafedeu-se, Osvandir até pensou que o dito, havia ressuscitado como diz na bíblia.

O pior que ele sumiu com a preciosa faca do tio Osmair.

No dia seguinte ele apareceu, sem a faca, comendo no cocho junto com os outros, como se nada tivesse acontecido.

MANOEL AMARAL

Você pode ler outros textos do Osvandir em:

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