OSVANDIR E O BENZEDOR

AGUARDENTE, FEITIÇOS E ENCANTOS
“Naquela noite sombria Osvandir só
tinha como companhia o medo”

Naquele dia parece que tudo ia dar errado. Era mês de agosto. O céu cinzento pela fumaça das queimadas, sem presença de chuvas.

Aquele ar parado, quase nenhum passarinho a cantar, apenas as corujas denunciavam um mau agouro, arriscando um pio noturno.

Alguns urubus percebiam carniça, descendo em voo espiral.

Lá para os lados da Catumbeira o fogo engoliu todo canavial.

No engenho, o carro cheio de cana caiana, com quase uma tonelada de peso, desprendeu-se da orelha do cabeçalho do carro de bois, num movimento brusco da junta de bois, a chaveta foi em cima do dedão do pé do Sr. Antonio e quase o partiu em dois.

Os tanques de garapa azedaram. Nova tentativa e nada! Sem líquido para alambicar, não haveria cachaça para vender.

Alguém lembrou:
__ Só pode ser feitiço!
__ Deixa de bobagem, gente! É pura coincidência, retrucou o tio de Osvandir.

Até a Joana, benzedeira afamada, foi lembrada, pela fama de fazer feitiços e encantamentos.

No meio do azarão que corria por aquelas bandas, até o caçulinha da família sofreu uma queda de um cavalo e acabou quebrando um braço.

Corre daqui, corre dali e alguém citou um conhecido benzedor que morava em outra cidade.

Januário, muito conhecido na região, era procurado por gente de toda parte, para solução de suas doenças, falta de dinheiro e todos tipos de problemas.

Tudo ficou acertado: o Joaquim ou o José, iriam aquela cidade buscar o benzedor.

Um dia se passou na fazenda e os fatos continuavam acontecendo. Um enxame de maribondos grandes e pretos atacou a boiada. O Veludo, o mais famoso boi de touradas da cidade, também foi picado e desceu em disparada rumo ao ribeirão, escorregando no capim mumbeca, indo parar na lagoa, ficando apenas com os dois chifres branquinhos de fora d’água.

O homem da magia branca havia chegado e assim que pôs os pés na entrada da fazenda disse que sentiu um friozinho no corpo.

A primeira medida foi benzer os pastos contra bichos peçonhentos.

Sacou de seu velho embornal um crucifixo diferente, que chamava de Cruz de Caravaca e foi rezando:
__ Milagroso São Bento, fervoroso Servo de Cristo, pelo vosso poder afastai deste caminho todos os animais venenosos e peçonhentos.
__ São Bento, protegei-nos – responderam todos os acompanhantes.

Cada lugar da fazenda foi devidamente investigado.

Atrás do paiol foi encontrado um rolo de cabelo enterrado próximo de um velho pau de aroeira.

No brejo de onde vinha a água para o engenho uma garrafa com um líquido viscoso e verde também foi achada.

As orações continuaram:
__ Glorioso São Sebastião e São Jorge, São Lázaro, São Roque, São Benedito, Santos Cosme e Damião; todos vós bem-aventurados Santos do céu, que curais e aliviais os enfermos, intercedei junto ao Senhor Deus pelo servo Antônio, todos os seus filhos e netos. Vinde gloriosos Santos em meu auxílio. Fechem-se os olhos malignos, emudeçam as bocas maldosas, fujam os maus pensamentos e desejos.
__ Por esta Cruz serão todos defendidos, completou.

E por três vezes riscou uma cruz no chão, terminando com as seguintes palavras:
__ Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

E todos responderam:
__ Para sempre seja louvado.

O Carlinhos, que estava na época de namoro, não queria nada com rezas e benzições, lia na sala da sede da fazenda o livro “Como se fazer Amar”, de C. Anger, pequenos livros populares (livros de bolso), que eram comprados pelo reembolso postal por CR$20,00 cada um.

Entre os livros tinha os de passatempo e diversão de palavras cruzadas, outros de ocultismo e outros mais de mágicas e hipnotismo.

A coleção de Manuais Práticos traziam aquelas enrolações como: Fórmulas para Ganhar Dinheiro, Regras para Vencer na Vida e outras bobagens como 1001 Informações Úteis.

Na coleção de ocultismo tinha um livro que interessou ao benzedor Januário, era “O Verdadeiro Livro de São Cipriano”. Tínhamos alguns livros de poesia de J.G. de Araújo Jorge, que fazia sucesso na época e outro de Modelos de Cartas de Amor.

Mas o homem do surrado chapéu de lebre, nariz aquilino e terno de brim, continuava benzendo aqui e acolá. Quando se aproximava das 18 horas mandou acender sete velas e colocou para queimar folhas secas de palmeira ou coqueiro que foram bentas na última Semana Santa, no Domingo de Ramos.

No outro dia tudo foi preparado conforme orientação do homem que tentava desfazer os possíveis malefícios.

Os tanques de garapa, foram lavados com sabão de coco e caldo de limão capeta. As canaletas de madeira e metal que iam das moendas do engenho até aos tanques foram varridas das sujeiras e também lavadas.

Alguns litros de pinga contaminados também foram eliminados. Os barris foram limpos por dentro e por fora.

O primeiro teste foi um sucesso! Logo que a garapa desceu para os tanques, com 24 horas de descanso para a fermentação, tudo voltou ao normal.

O Joaquim ficou satisfeito ao ver as espumas nos tanques de fermentação, era sinal que o material para alambicação estava muito bom. Quando viu aquele líquido branquinho descer da serpentina, deu pulos de alegria. Daí a alguns momentos a nova pinga “Palmeira”, a preferida de todos, aparecia no fino cano de cobre, pronta para engarrafamento. A primeira, da cabeça, deu 21º (vinte e um graus), estava com ótimo cheiro e gosto.

Vários litros foram alambicados naquele dia, a título de experiência.

O Senhor Januário ficou em São Gonçalo por alguns dias, visitando amigos e parentes. Recebeu notícia que tudo voltara ao normal na Fazenda do Fumal.

Antes de seguir para sua cidade, o Benzedor foi consultado e procurado por muitas pessoas.

Benzeu gado à distância com uma velha oração, para preservar o gado ou rebanhos de pestes ou pragas.

Um negro velho queria oração para fechar o corpo, ele indicou a de São Jorge, contra inimigos, adversários e desafetos.

Numa parte desta oração dizia o seguinte: “Eu andarei vestido e armado com as armas de São Jorge, para que meus inimigos, tendo pés não me alcancem, tendo mãos não me peguem, tendo olhos não me enxerguem e nem pensamentos eles possam ter para me faze mal. Armas de fogo ao meu corpo não alcançaram, facas e lanças se quebrarão, sem meu corpo chegar, cordas e correntes se arrebentarão, sem meu corpo amarrar. Estenda-me o seu escudo e as poderosas armas, defendendo-me com sua força e com a sua grandeza de poder dos meus inimigos carnais e espirituais…”

Uma mulher se dizia vítima de bruxaria e feitiçaria; o nosso solicitado mago disse para ela rezar a oração a São Cipriano:
__ Bem aventurado São Cipriano confio em sua sabedoria e bondade, venho implorar a vossa proteção contra quaisquer malefícios, bruxedos, invocações, necromancias, que os magos negros, feiticeiros ou feiticeiras, bruxos ou bruxas e adivinhos, homens e mulheres…

A partir daí não pudemos ouvir mais nada pois o José e o Joaquim gritavam lá na rua que era hora de voltar para a fazenda.

MANOEL MARAL

OSVANDIR & HORRY POTTER NO BRASIL

Capítulo IX
A DESPEDIDA
Todos temos luz e trevas dentro de nós.
O que nos define é o lado com o qual escolhemos agir.
Harry Potter e a Ordem da Fênix

Com a mala na mão, de novo perdidos no meio do mato, procuraram uma estrada, naquele local que tinha muita água. Deram sorte, avistaram uma rodovia asfaltada.

O primeiro carro que apareceu Osvandir pediu carona. Era uma linda mulher, que parou o carro no mesmo instante. Desconfiada, pensando ser assaltante, ela arrancou da cintura um 38, apontou para Harry e foi logo perguntando:
__ O que vocês querem?
__ Estamos procurando uma cidade qualquer, ficamos perdidos aqui no meio desta floresta, disse Osvandir.
__ Entrem, mas se tentarem qualquer coisa, podem se dar mal. Sou Delegada de uma cidadezinha aqui por perto e estou indo para Belém.
__ Está bem Doutora Delegada, não vamos tentar nada, só queremos chegar até onde você vai e tudo bem.

Osvandir deu graças à Deus de ter encontrado aquela mulher ali numa estrada de tão pouco movimento.

Acomodados num hotel em Belém, Harry e Osvandir procuraram descansar. Depois de um bom tempo, tomaram banho e desceram para almoçar.

A sugestão do dia era Tacacá, uma comida regional muito diferente, preparada com o tucupi (caldo da mandioca, previamente fervido com alho e chicória), goma (mingau feito com uma massa fina e branca, resultado da lavagem da mandioca ralada) e jambu (planta considerada afrodisíaca). É um prato originário dos índios.

Tinha arroz, feijão de vários tipos, bife a cavalo (com um ovo frito em cima), batata frita, frango ao molho pardo, peixe frito e ao molho. Uma infinidade de comida diferente da que estavam acostumados no dia a dia.

Osvandir preferiu ficar com o tradicional mesmo, comeu alguma salada, depois um pouco de feijão, arroz e peixe frito.

Já Harry, experimentou alguma coisa diferente do que conhecia e até gostou do Tacacá.
Depois do almoço, uma breve passada pelo “Ver-o-Peso” para algumas compras de pequenos presentes, a seguir, uma caminhada pelo centro, a tarde preferiram andar de barco.

No outro dia Harry resolveu não ir para o Pantanal, depois que ficou sabendo por algumas pessoas que lá também tinha muita água.

Arrumou as suas malas e resolveu partir. Ir para sua terra. Como se daria isso não sabiam.
O sinal na sua testa de HP começou a sangrar e o implante atrás da orelha esquerda de Osvandir também começou a incomodar. Um magnetismo forte começou a pairar no ar.
Harry testou a vassoura e não obteve nenhum resultado.

Osvandir procurou pelo Gerente do hotel e perguntou sobre os esportes radicais nas proximidades de Belém e ele informou que um pessoal trabalhava com balões.

Ligaram e marcaram um encontro para um voo livre sobre um determinado local.

Osvandir explicou para Harry o que pretendia fazer: levá-lo até uma certa altura de balão, onde ele poderia desfrutar por alguns minutos da paisagem, depois pela sua vassoura mágica tentaria decolar, levando alguma de sua compras. Se tudo desse certo, ele poderia voltar para casa e Osvandir poderia sentir a emoção de voar e ainda olhar a linda paisagem do local.

Entraram logo no balão e seguiram para o mais alto possível. Parece que o tempo estava ajudando, uns raios fortes estavam descendo sem no entanto atingir o balão. Um rodamoinho começou a formar-se, Osvandir disse:
__ É agora ou nunca!
E ele saiu voando em sua vassoura penetrou nas nuvens escuras e sumiu.

O chefe da equipe do balão ficou impressionado, engoliu um seco ar das alturas e disse:
__ Mas como ele fez isso?
__ Ele é um bruxo, tem poderes mágicos.
__ Só vi isso no cinema! Se contar para meus amigos nunca vão acreditar.

Osvandir desceu do balão voltou para o hotel e de lá foi para o Aeroporto Internacional de Belém, de onde partiu para sua casa.

Passado alguns dias uma linda coruja branca pousou no quintal da casa do Osvandir com alguma coisa nas patinhas.

Era uma mensagem que dizia em código:
“3´ PO551V3L 3NCONTR4R 4 F3L1C1D4D3 M35MO N45 HOR45 M415 SOMBR145, 53 L3MBR4R D3 4C3ND3R 4 LUZ.”H4RRY POTT3R

MANOEL AMARAL