O ABRAÇO DA VELHINHA

O ABRAÇO DA VELHINHA

“Os aduladores são como as plantas parasitas que abraçam o tronco e
ramos de uma árvore para melhor a aproveitar e consumir
.” (Marquês de Maricá)

“Cuidado com abraço no meio da rua você pode perder alguma coisa,” sempre diziam aqueles policiais naquela esquina.

Mas era final de ano, cidade cheia de turistas, todos ávidos para comprar alguma coisa para os parentes.

O povo não queria prestar atenção a essas recomendações. Uma conversa aqui, outra acolá.
Lojas sempre cheias, pessoas com os bolsos cheios de dinheiro para gastar naqueles dias.

O Governo Federal e o Estadual já haviam recheado as contas dos Funcionários com o 13º e o 14º. Os Municípios já depositaram a primeira parcela e só iriam efetuar a segunda depois do Natal.

Todas as pessoas estavam alegres e caridosas naqueles dias, ao invés de darem moedinhas para os mendigos, abriam seus corações e tiravam dos bolsos as notas de dois reais.

Naquela esquina mais movimentada da avenida uma velhinha de cabelos brancos estendia a mão e dava um forte abraço nos passantes. Escolhia as pessoas mais velhas.

Estava sempre mudando de esquina, começou lá no alto da rua comercial da cidade. O movimento de gente era muito grande, quase ninguém reparou que ela carregava uma grande bolsa vermelha e grande.

Um senhor de bigode branco e mancando de uma perna, até gritou que havia perdido a sua carteira, mas que não prestara atenção onde isso ocorrera. Ele vinha descendo a rua principal a procura de umas cuecas e brinquedos para seus netos. De nada adiantou as suas lamentações para os guardas; procurar a quem?

E aquela velhinha continuava abraçando as pessoas e com aquela bolsa vermelha de lado. Fez apenas uma pausa para tomar um cafezinho e comer um salgadinho. Quando foi efetuar o pagamento, sacou da bolsa uma carteira preta cheia de notas de cem reais. Tirou uma de vinte e foi pagar, o balconista disse que não tinha troco, ela mandou guardar o resto, estava com pressa. Ele estranhou, mas guardou.

No outro dia, agora véspera de Natal, a velhinha lá estava na rua de cima começando a abraçar as pessoas.

Uma velhinha recebeu o abraço forte da outra velhinha e não acreditou muito na sinceridade do seu sorriso amarelo.

Até um rapaz ficou meio desconfiado, mas depois abraçou-a fortemente. Havia rendido aos apelos de terceira idade.

Aquele velhinho do bigode branco que mancava de uma perna voltou em cena e foi fazer compras na mesma rua e no mesmo local em que achava ter perdido a carteira. Não encontrou nada, só aquela velha de cabelos grisalhos que continuava abraçando todo mundo.

Chegou perto dela e abriu também os braços, num forte abraço. Quando notou que duas mãos estranhas saqueavam os seus bolsos, segurou imediatamente a bolsa vermelha da velha e gritou:
– Pega ladra! Pega ladra!

Ela saiu correndo, mas não conseguiu levar a bolsa que soltou-se de suas mãos, voando no espaço indo parar num galho de uma árvore.

Quando a polícia chegou, ninguém viu mais aquela velhinha do abraço e da bolsa vermelha. O velhinho de bigode branco e manco prestou o seu depoimento ali mesmo no meio da rua e mostrou a bolsa vermelha dependurada num galho da velha flamboyant, que nem é árvore própria para se plantar nas calçadas.

Com um bambu o jovem policial retirou a pesada bolsa do galho seco.

Dentro da bolsa vermelha havia carteiras pretas, com identidade de outras pessoas e muito dinheiro.

O esperto velhinho do bigode branco e manco é o mais velho dos quatro tios do Osvandir
Caso resolvido. E a polícia continuava avisando:
– Tome muito cuidado com seu dinheiro, a cidade está cheia de punguistas, os batedores de carteiras.

Na esquina do final da rua uma velhinha abraçava a todos com sua grande bolsa amarela…

Manoel Amaral
http://osvandir.blogspot.com

AS TRÊS CEIAS DE NATAL

Que o espírito natalino traga aos nossos corações a fé inabalável
dos que acreditam em um novo tempo de paz e amor.
Boas Festas.
(Fernando Waki)

Ele não queria escrever sobre o assunto, neste fim de ano, tentou por várias vezes se livrar da ideia. Muita gente já tinha falado sobre o assunto. Mas aquilo ficou martelando a sua cabeça, sem cessar, teve que escrever.

Eram três casas que Osvandir teria de visitar na noite do Natal: a primeira, num luxo danado. A segunda o pessoal da classe média e a última lá no sítio do Poço Fundo.

Chegou à iluminada mansão do Senhor Josias por volta de nove horas, a mesa estava posta, com frutas, castanhas, vinhos das mais variadas marcas, tudo importado.

Tudo numa arrumação de fazer gosto, trabalhado por experts no assunto, especialmente contratados para aquela noite. Garçons refinadíssimos servindo a todos com muito préstimo.
Mulheres desfilando nos seus últimos modelos, vindos de Paris. Fotos e mais fotos nas mais modernas câmaras digitais.

Não ouviram nenhuma Ave Maria, assunto só eram política, futebol e festas.
Na segunda ceia, do Senhor Quinzinho, casa mais modesta, um pequeno presépio num canto, mal iluminado e a mesa bem no centro da sala principal.

Ali viram muita coisa importada, ainda, devido à baixa do dólar.
E todo mundo comendo, comendo e bebendo. Assuntos principais: futebol e últimos crimes. Não esqueceram de comentar aquele caso do estado do Pará, em Belém, do menino, recém nascido, que foi atirado pela mãe, no quintal do vizinho. Estava passando a reportagem naquele momento na TV.

Osvandir saiu dali, despedindo de todos e foi para a última ceia, na zona rural.
Antes de chegar ao local, já avistara uma criança encarregada de abrir a porteira para as visitas e indicar onde poderiam estacionar os seus carros. Casinha simples, branca com portas e janelas em azul forte.

Ao adentrar ali, a primeira coisa que viram foi o imenso presépio, muito bem montado, tudo com coisas da região. Cristo estava acomodado numa casca de palmeira. Frutinhas e flores do mato estavam espalhadas por todo canto. As figuras representativas eram feitas de saco de aniagem e cabaças. Várias pedras coloridas naturalmente. Uma pequena cachoeira foi montada, com a entrada da água sutilmente escondida, trabalho de mestre.

A mesa bem montada, com frutos da região: banana, abacaxi, laranja, alguns colhidos no mato. Mas uma chamou a atenção do Osvandir e perguntou para o Senhor Arthur, dono da casa:
— É fruta importada?
— Não, é de um pé que plantei no quintal. Uma muda que recebi de presente. Vamos lá para você ver como está bonita.

Chegando ao local depararam com uma enorme árvore cheia de frutos de cor arroxeada. Era a lichia, originária da China, se deu muito bem em terras brasileiras.

O interior do fruto é muito parecido com bacupari, fruto de cor alaranjada quando maduro e muito apreciado pelas crianças na zona rural. Com vários nomes em cada estado, tem também um cipó com este nome.

Dona Maria convidou a todos para orar e depois servir a ceia.
Uma leitoa estava estirada sobre a mesa, saída do forno naquela hora. Carne de porco, de boi, alguns frangos caipiras, farofa feita com farinha de mandioca, doces de todos os tipos, feitos em casa.

Cada visitante trazia um pratinho com alguma coisinha para completar a mesa.
Naquela confraternização, todos se abraçando, conversando e dando boas risadas.
E aí caros leitores, perguntamos para você: Em qual das casas ouve o verdadeiro Espírito do Natal?

Manoel Amaral