OSVANDIR E O ACIDENTE

“Rico saka, pobre sakeia, político sakaneia.”

(Para-choque de caminhão)

Naquela manhã de junho, o frio cortando os braços, cinco horas, o motorista dá um golpe no volante e o caminhão baú rodopia no asfalto e vai parar a uns três metros de uma enorme ribanceira.

Assustado o motorista sai da cabine, olha para os lados e vê o povo correndo ao seu encontro e pensa que eles vieram socorrê-lo. Não, eles vieram é saquear a carga de produtos alimentícios.

Pedaços de carne por todo o asfalto e cada um levava o que podia.

João, motorista há de 20 anos devia estar acostumado com isso, mas sempre fica preocupado. A carga estava no seguro. Ele não sofreu nenhum arranhão.

Liga para empresa, um grande frigorífico da região da grande BH e explica a situação. Informa que o local é próximo de uma favela. Muitos morros e pirambeiras, estrada ruim e cheia de buracos. Asfalto molhado e chuva caindo sobre tudo e todos.

― Vimos a reportagem da tevê, pode ficar tranquilo, João. A seguradora pagará o prejuízo. Pegue o que sobrar e venha urgente para nossa empresa. Saia daí o quanto antes.

― Certo, Dr. Roberto, vou acelerar, para que ninguém pegue o que ainda está na carroceria do caminhão. As que caíram eles já levaram.

― Tá bom, pode vir para central. Não se atormente. Não corra neste trânsito louco da capital e cuidado com as obras, não vá despencar por um viaduto em construção.

O motorista seguiu o seu caminho e alguns ainda queriam pegar mais carne e saíram correndo atrás do veículo.

Osvandir, que há muito tempo vem investigando acidente ali naquele local, ficou intrigado de como o caminhão rodopiou na pista, sem nada aparente no asfalto. Seria algum defeito? Alguma coisa que fora atirada? Ou o motorista cochilou?

Começou ficando por ali quase o dia inteiro e viu mais um acidente, desta vez uma camionete cheia de sacos de arroz, 5 quilos cada, tudo esparramou na pista. O povo foi saindo por detrás das moitas, pareciam que estavam esperando pelo evento.

Para a felicidade do proprietário do veículo apenas alguns sacos do produto caíram ao chão; ele, muito esperto, deu uma acelerada e sumiu daquele local, onde o povo vive faminto.

No outro dia Osvandir veio mais cedo e pode presenciar um acidente com um caminhão de frangos. Foi um revoar e penas para todos os lados. Aquelas aves são patetas, caem e ficam paradas. De tanto viver na prisão até a morte, nunca saem para mais nada a não ser comer, comer e comer. No fim nós as comemos.

Alguma coisa chamou a atenção de Osvandir. Ele viu qualquer objeto, parecido com uma pequena pedra surgir no espaço, antes do acidente.

Marcou a direção de onde poderia ter vindo e foi para lá. Quando chegou, alguns garotos saíram correndo serra abaixo e deixaram cair um bodoque (estilingue) de borracha de pneu de bicicleta, bem usado. Na no cabo da forquilha, notou alguns cortes, que na sua linguagem de sinais entendeu serem pássaros abatidos. Eram 15 marcas bem recente. Seriam carros acidentados?

Só uma análise mais apurada poderia resolver esta questão, razão pela qual Osvandir resolveu voltar na manhã seguinte e ficar escondido perto de onde saiam as pedras: um barranco de 5 metros de altura e muito mato na parte superior.

Foi chegando e notou que alguns garotos já estavam no local preparando os seus estilingues. O mais velho mirou um caminhão de transporte de bebidas e no mesmo instante o motorista assustou-se com o barulho da pedra que bateu na lataria.

Aquele momento foi crucial, Osvandir queria ver se o homem era mesmo um bom motorista e se conseguiria dominar o medo.

Houve um ranger de freios, rodas riçando o asfalto molhado e a carga saltando da carroceria.

A um sinal dos garotos, várias pessoas saíram das moitas e começaram a carregar garrafas pet de Coca-Cola, que ficaram espalhadas na rodovia.

Neste momento, o que parecia ser o líder dos garotos, desceu do barranco, pegou um fardo, jogou nas costas e saiu pelo mato a dentro.

Osvandir teve a oportunidade de filmar todas as cenas do crime.

Depois do processo totalmente montado, várias empresas queriam contratar os seus serviços. Ele disse não, saiu e foi-se, deixando com o Delegado a solução dos acidentes na Curva da Morte.

Manoel Amaral

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OSVANDIR INVESTIGA:

QUEM MATOU KEYLA?

Ela estava ali, sobre aquela fria mesa de granito. Um pequeno hematoma na testa, orelha avermelhada, mais nada.

Exames foram feitos em seu corpo, por vários médicos. Nada foi encontrado.

Alguns dos observadores entenderam que ela poderia ter caído e batido a cabeça em algum móvel da casa, razão do sinal na testa.

Um dia antes de seu falecimento algumas pessoas informaram a Osvandir que viram luzes sobre o telhado de sua casa.

— Como eram estas luzes? — perguntou Osvandir.

— Sabe, não eram luzes comuns, elas brilhavam muito e iam do branco ao vermelho, passando por todas as outras cores. Pensamos até que ela estivesse realizando uma festa para recepcionar os amigos, com essas emissões de raios laser, muito comum em cidade grande. Porém não vimos ninguém por lá naquela noite.

Osvandir resolveu visitar a casa de keyla. Ela morava sozinha num casarão bem antigo, do início do século. Um pouco afastado das demais, no fim do quarteirão. Fora construído por um rico comerciante português, segundo história local.

Seus pais sumiram num acidente misterioso. O carro fora encontrado numa estrada, com todos os pertences do casal. O delegado até hoje acredita que se tratou de sequestro.

Osvandir resolveu seguir o roteiro que foi traçado pelo delegado, na época do desaparecimento dos pais de Keyla, em sua investigação.

Analisou documentos do processo que tratava do suposto sequestro. Interessante que os corpos nunca foram encontrados e nem os sequestradores nunca fizeram contato ou exigiram qualquer valor para o resgate.

Já se passaram mais de dois anos e nada ainda resolvido sobre o assunto.

Osvandir seguiu de carro até o local onde foi encontrado o veículo dos pais de Keyla, no dia do incidente. O próprio delegado informou que não ocorreu imperícia, imprudência ou negligência do motorista.

Olhou para os lados, era um lugar alto, viu uma casa na beira de uma estradinha vicinal.

Virou o carro à esquerda e desceu até lá. Interrogou duas pessoas que ali estavam no momento:

— Sou Osvandir, vim investigar um acidente que houve ali em cima, cerca de dois anos atrás, lembram?

— Como poderíamos esquecer, – falou o dono da casa.

— O senhor viu ou ouviu alguma coisa diferente, naquele dia?

— Vimos o carro parar de repente. Olhamos para céu e lá estava um objeto grande, como dois carros um sob o outro, sendo o de baixo com rodas para cima.

— Quantos metros têm daqui até a estrada, — quis saber Osvandir.

— Mais ou menos uns 300 metros.

— O que mais vocês viram?

A mulher que até aquele momento permanecera calada resolveu entrar no assunto:

— Será que convém falar sobre o foco de luz e o que aconteceu, Luis?

— Vimos duas coisas subindo pela luz, pareciam pessoas. Depois tudo escureceu. Fui até a estrada, examinei o carro, não achei sangue, nem nada, tudo estava lá, menos o casal. Segui até a cidade e avisei ao delegado, mas não disse nada do que vimos.

— Obrigado a vocês. Foi melhor mesmo não ter dito nada para o delegado, ele não iria entender.

Osvandir voltou para a cidade e foi direto para a sala de autópsia do hospital.

Quis ver as roupas de Keyla. O responsável pelo caso trouxe uma calça jeans e uma blusa vermelha, de malha. As peças íntimas não quis examinar.

Tirou da maleta de mão, uma lupa, um saquinho plástico, pequeno, com fechamento automático.

Começou passando a lupa de ponta a ponta na calça. Encontrou algumas queimaduras no tecido. Na blusa uma mancha escura na altura dos seios.

O delegado estava apreensivo com as análises de Osvandir.

— E aí, descobriu alguma coisa?

— Veja, delegado, estas roupas sofreram um superaquecimento, algumas partes estão chamuscadas.

— Mas o interessante é que o corpo não tem queimaduras, — disse um dos legistas.

— É muito estranho este fato, — interpelou Osvandir.

— Então quem matou Keyla?

— Senhor delegado, seria o caso de se perguntar: o que matou Keyla? E como?

Manoel Amaral