TRANSFORMAÇÃO DE ÁGUA EM GUARANÁ

TRANSFORMAÇÃO DE ÁGUA EM GUARANÁ
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Num destes domingos de canseira, muita festa no sábado, Osvandir foi assistir missa às sete horas da manhã.
Cochila aqui, tropeça acolá, até chegar à igreja. Depois de uma demora de meia hora teve início a missa do domingo.
Passou a primeira leitura, na segunda voltou o cochilo, e o sono chegou de vez.
Começou a sonhar que estava numa festa de aniversário na cidade de Canaã, perto de São Miguel do Anta, neste nosso estado de Minas Gerais.
A criançada corria por todos os cantos, pedindo guaraná. De repente aquele líquido tão doce e agradável àquelas crianças, acabou. Não sobrou nenhuma garrafinha.
Ouve um zum-zum, Osvandir foi chamado pelo dono da casa:  — Não temos mais guaraná, como é que há de ser. O supermercado só abre amanhã e não tem nenhum comércio aberto, todos emendaram o feriado de ontem e foram para zona rural. Como vamos fazer? – disse o dono da casa angustiado.
— Osvandir, você não pode fazer alguma coisa, — gritou uma senhora já de idade.
— Eu? Ainda não é chegado à minha hora, tenho apenas 33 anos, mas vou tentar.
Aquela mulher virando-se para os garçons disse:
— Façam tudo que ele pedir.
Osvandir pediu que trouxessem três jarras de dois litros cada uma, com água e gelo. Foi até a sua bolsa, pegou uns envelopes, rasgou-os sobre cada litro e de repente aquilo tudo virou guaraná.
— Milagre! Milagre! – gritaram as mulheres.

Com um cutucão de um amigo Osvandir acordou e o Padre acabava de ler o Evangelho de João, aquele do primeiro milagre de Cristo, a transformação da água em vinho.
Manoel Amaral

OSVANDIR E A TERCEIRA (RODO)VIA

“A solidão é companheira quase inseparável do caminhoneiro”.
(João, motorista de carreta)

“O homem me deu vários tiros, felizmente, só um acertou-me.
Hoje era para estar morta, mais uma vítima do destino.”
(Patrícia, Garota de Programa)

João, motorista, que não largava nunca seu caminhão, nem para refeição. Comia ali mesmo, na boleia, nem descia para tomar banho e para as suas necessidades fisiológicas. Mandara instalar um banheiro completo na cabine dupla.

No meio do trânsito, contava história para o acompanhante, repórter de um jornal argentino, que pesquisava o uso e tráfico de drogas, naquela região.

Dificilmente levava caronista. Já sofrera com uma linda mulher que foi plantada no seu caminhão como “isca”, lá no meio do cerrado, longe do mundo, foi assaltado, só não levaram o caminhão. Todo o dinheiro evaporou-se, num piscar de olhos.

Não descia, o João, daquela cabine já velha. No posto de abastecimento de combustível comprava o que precisava.

O pessoal já conhecia o “João Sentado”, apelido que recebera naquela região, por estar sempre no caminhão.

Ele rodara o Brasil inteiro, de norte a sul, por estradas asfaltadas e de terra. Terras perigosas e terras de fartura. Lugares de muita chuva e outros de puro deserto. Beira-mar e até mato-a-dentro, subia e descia morro, por entre buracos e areia.

Nunca desgrudara daquele volante, a não ser num desastre que ficou conhecido nacionalmente, onde o motorista não quis sair da cabine.

Viu naquelas estradas muita amargura: assaltos, roubos de carga, matanças.

Já estava ficando velho naquele volante. Com 65 anos, não animava mais a ir muito longe, mas ficava na sua região rodando de empresa em empresa para pegar o seu serviço. Levava milho para um lado e transportava feijão para outro.

Aquele carregamento de açúcar foi o mais pesado que já pusera na carroceria de seu caminhão. Partira de Mato Grosso do Sul e seguiria para o grande Porto de Santos.
Tudo traçado, dinheiro do carreto já na mão, era só ganhar a estrada.

Acontece que começou a chover muito no estado de São Paulo, principalmente no litoral. Várias cidade estavam debaixo d’água. O povo sofrendo horrores. Muita gente perdera tudo que tinha conseguido juntar até aquele dia.

Para proteger a sua carga, ficara vários dias num posto de gasolina.

Muitos motoristas achavam engraçado ver o João ali na cabine sem descer nunca. Almoçava, jantava, dormia e nada de sair do seu caminhão.

O tempo melhorou, seguiu viagem, parou em vários pontos que já conhecia e outros pela primeira vez. As cidades cresceram muito naquela região.

Estava até entusiasmado, num posto de combustível, alguém conferira os pneus e dissera:
— Tudo OK!

Faltando 50 km para o destino final, a chuva começou, parou no acostamento, mas ela continuou pelo dia inteiro.

Recebeu notícia, pelo rádio, que uma ponte havia caído, mas não ficou sabendo em que região.

Olhou aquele mundão de água pela estrada. Seguiu em frente.

Num rio, já bem escuro, pensou em parar, mas pisou no acelerador e cortou aquelas águas.

Sentiu uma friagem por todo corpo. O caminhão afundou e foi levado por aquelas águas barrentas.

Os dias se passaram e nada de encontrarem aquele caminhão.

Um sitiante, procurando o seu gado, encontrou o caminhão, com o João grudado no volante.

Se algum dia, ouvir o barulho de um velho caminhão, mas não ver nada na rodovia, pode ter certeza que é o João Sentado, viajando por estas estradas de nosso país.

MANOEL AMARAL