OSVANDIR E A VIAGEM DE SEUS SONHOS

OSVANDIR E A VIAGEM DE SEUS SONHOS

Osvandir procurou a Agência CBB, os preços estavam ótimos, cerca de 50% de desconto, contratou uma viagem marítima entre Santos-SP e Salvador-BA, com partida no sábado do Porto de Santos, no domingo estaria no Rio de Janeiro, na segunda um passeio pelos pontos turísticos e na terça estariam em Salvador num fantástico roteiro como anunciava o próprio panfleto da empresa.

Mas o que aconteceu não foi nada agradável. Tudo deu errado. Um vírus do tipo B da Influenza atacou os passageiros logo na chegada ao Rio de Janeiro. O navio Imperador Peruano, o maior da frota da empresa, robusto, moderno e suntuoso e em todos os seus ambientes, mas quis o destino que alguns passageiros não passassem daquele local, morreram ali mesmo. Nem chegaram a ser levados até a um hospital.

Os outros passageiros saíram do navio e ficaram pelas ruas do Rio de Janeiro, vendo o desfile carnavalesco, mas muito tristes com os acontecimentos.

De volta ao grande navio que com todas as Luxuosas acomodações, amplas áreas sociais e muitas atividades nas áreas de lazer e entretenimento, é o que espera por você a bordo deste fabuloso navio. Alegria, descontração e muita diversão são os itens que agregam ao fantástico roteiro, visitando Rio de Janeiro, Salvador e Búzios. Todo este conforto fica muito mais saboroso, com o exclusivo sistema de “tudo incluído”, com todas as refeições, bebidas, shows e entretenimento a bordo.” conforme dizia o impresso distribuído na agência de viagens, não era mais o mesmo. Tudo estava sombrio.

Seguiram para Salvador, outra complicação se apresentava para o Comandante: rajadas de 100 km/h de vento, vindos do Sul, especialmente em regiões elevadas, estavam atingindo o navio.
Ele balançava de um lado para o outro. Algumas alertas foram dadas aos navegantes. Algo não ia bem naquele elefante marinho. Ele estava beirando demais o continente, parece que estava fora da rota.
Algumas ilhas já estavam à vista nos visores das cabines.
Um barulho se fez ouvir, parecia um grande esbarrão com material mais resistente que o fundo do navio.
Ele foi tombando de mansinho, como uma criancinha caindo da escada. Ninguém pode fazer nada.
Um enorme buraco foi encontrado, por um ajudante da casa de máquinas, naquele casco que era de aço puro.
Alguém até disse, parodiando o acidente com o Titanic:
–Só Deus poderia interromper esta viagem!
E a viagem estava interrompida. Vários salva-vidas foram distribuídos aos passageiros. Barcos foram içados ao mar, cheio de pessoas. Primeiro os velhos, crianças e mulheres.
Muitos homens ajudando, como se fossem da tripulação.
Procuraram o comandante, ele não foi encontrado. Havia abandonado o navio havia meia hora antes. Todo o barco estava inclinado. Parece que queria virar de cabeça para baixo.
O sonho do Osvandir foi por água abaixo. Nem Rio de Janeiro, nem Salvador. A Marinha foi comunicada. Um Comandante em terra estava nervosíssimo, pedia ao Comandante do navio que retornasse ao seu posto.
Nada do homem voltar a sua posição de direção. Os funcionários é que estavam salvando o povo.
Já pensaram? Duas mil pessoas, todas tentando sair daquele monstro marinho? Era um barulho ensurdecedor. E a cada momento ele afundava mais um pouco. Chegou numa posição constrangedora para todos. Os aposentos todos cobertos pelas águas. Tudo perdido.
Osvandir conseguiu salvar só os seus documentos pessoais e um binóculo que trazia ao pescoço.
Tudo perdido, alguns nadando direto para umas pequenas ilhas ali por perto, nem esperaram os barcos que não davam para todos.
Só morreu um casal de velhinhos, que não conseguiu sair dos aposentos.
O vírus tirou a alegria de todos no início e a gora no fim da tarde de terça-feira estava tudo acabado.
Vários ônibus foram alugados pela empresa e seguiram direto para o aeroporto. Cada um foi para sua casa, sem passeio, só tristeza. Foi um duro golpe para todos.
Manoel Amaral
http:Osvandir.blogspot.com

OSVANDIR & O DIA EM QUE A INTERNET ACABOU

Capítulo I

O RAIO AZUL

Um lindo raio azul cobriu aquele céu cheio de nuvens brancas. Tudo parou de funcionar. Os aviões pousaram em locais improvisados, apenas os pássaros permaneceram no espaço. A energia elétrica desapareceu.

As águas do mar ficaram revoltas, alguns vulcões voltaram a jorrar aquela lava, derretendo tudo a sua frente. Algumas ilhas afundaram, outras apareceram, mudando o Mapa do Mundo.

Novas Ordens foram criadas, maneiras antigas ressuscitadas. Gostos e desgostos em discussão. As cidades ficaram quase vazias. Não tinham o que fazer por ali, sem energia elétrica. Os bancos voltaram a utilizar aquelas velhas máquinas Facit de calcular, resgatadas dos museus e porões.

As máquinas de escrever Ollivetti ou Halda ficaram valorizadas. Os papéis diminuíram e muito caros. Todos os rascunhos foram aproveitados. Papel carbono, para cópias, era raro no mercado. No comércio em geral, passaram a utilizar o jornal velho para embrulhar as coisas.

As feiras de verduras se tornaram grandes feiras de troca. Tinha de tudo, até relógio de pulso movido a corda.

Os celulares eram abandonados nas mesas dos bares e serviam de brinquedos para crianças. Tinha até um jogo premiava quem atirasse o seu mais longe, no meio do brejo. Um artista plástico criou uma casa só destes aparelhos e gabinetes de computadores.

As bebidas fortes como cachaça, que não dependia da energia elétrica para a fabricação, voltaram ao mercado. O açúcar saiu da praça e entrou a rapadura no lugar. O café até ficara mais gostoso. Saíram os pães, roscas; as padarias estavam vendendo apenas biscoitos de polvilho e bolos de fubá do legítimo moinho d’água.

Aos poucos, os carros foram parando, quando acabava a gasolina.
Aqueles mais modernos, nem chegaram a funcionar, por causa dos circuitos elétricos. Estava até engraçado, os carros antigos valiam mais que os novos. Os Jipes ficaram, muito raros e caros, só os grandes fazendeiros os possuíam. Os antigos “Ferros Velhos” transformaram-se em “Ferros Novos”.

Criaram um óleo de mamona que fazia os veículos a diesel funcionarem perfeitamente, até os tratores.

Os jovens, agora sem internet, sem nada para fazer, sem shopping para visitar, foram plantar horta nos lotes vagos e acharam até divertido a nova distração. Os campos de futebol viraram currais para criação de ovelhas ou cabritos. Voltou o futebol de campinho de várzea.

Os astrônomos, ufólogos, jornalistas e outros correlatos foram plantar batatas ou fazer coisa melhor para sobreviver. Sobraram poucos cientistas, as profissões perderam o valor. Os professores estavam muito requisitados, mas o ensino era bem diferente.

(Continua, se eu sobreviver…)

Manoel Amaral

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