D. CAIXOTE SEM MANCHA E SANTO PRANCHA II

Capítulo II
O Resgate dos Escravos

Seguindo por aquelas regiões planas encontraram grandes plantações de um tipo de feijãozinho amarelo e redondinho, que diziam produzir um excelente óleo.

Dom Caixote queria mesmo era cozinhá-lo. Pegou uma de suas panelas e mandou o servo Prancha colocar água no feijão. Aquilo ficou ali por mais de duas horas e nada de amolecer. Desistiram da empreitada e comeram paçoca e um pedaço de queijo com um café ralo.

Na próxima fazenda encontraram um proprietário muito mau que explorava os empregados, que não tinham nem o que comer.

Os dois andantes tomaram conhecimento de tudo e convidaram todos para viajar com eles.

Uma estrada asfaltada, caminhões voando, acidentes na curva, mulheres chorando. Dom Caixote muito comovido aproxima-se, desce do pangaré e cumprimenta a todos, mas os guardas rodoviários não deixam ninguém aproximar-se dos feridos.

Um reboque suspende a sucata que sobrou do veículo acidentado. Pelo acostamento seguem os dois, até que um caminhão de transporte de animais, para, e o motorista pergunta:
― Para onde vocês dois vão?

Prancha se adiantou e informou que estavam a procura de uns cortadores de cana e algumas mulheres.
― Cortadores de Cana? Só do outro lado do rio. ― Aí o motorista desceu e ajudou Dom Caixote a colocar os dois animais na carroceria.
O Mestre entrou na cabine e mandou o servo subir e ficar junto com os cavalos.

Em cada curva tudo balançava lá em cima, para completar a situação, uma chuva de granizo caiu, devastando a região e espantando os pobres animais. Quanto ao homem, encolhia-se a cada pedrada e gritava que nem criancinha.

Chegaram ao destino, uma destilaria de álcool combustível, agora chamado de Etanol. Trabalhadores por todos os lados.

O caminhoneiro providenciou a descida do pangaré chamado “Alucinante” e o burrinho. Prancha havia sujado toda a roupa no meio daqueles excrementos.

O transportador seguiu o seu caminho. Já os dois caronistas foram arranjar encrenca. Entraram na primeira casa pedindo um pouco de alimentação e o que ganharam foram alguns sopapos dos donos, que ainda riram dos dois.
― Aqui não aceitamos vagabundos, podem pegar a estrada.

Dom Caixote tentou argumentar que estava a procura de sua amada que fora sequestrado por bandidos mascarados, mas não adiantou, o chefe dos trabalhadores os expulsou dali.

Pegaram suas mochilas, os animais e saíram. Logo, não longe da usina e dos canaviais, encontraram uma boa alma que os acolheu. Bem alimentados, recolheram-se aos quartos e dormiram tranquilamente.

Na manhã seguinte Dom Caixote deu ao dono da casa, Senhor Joaquim, um belo livro de aventuras. Ele fez que gostou, mas nem sabia ler.

Seguiram viagem, e na primeira mata, saiu de trás de um cupim dois assaltantes que vasculharam suas mochilas e pegaram o que lhes interessavam; procuravam dinheiro, mas não encontraram. Amarraram os dois numa árvore cascuda, própria dos cerrados e ainda levaram os animais.

Várias horas se passaram e os dois ali sem poder beber e comer, no meio daquele mato. Prancha gritava para ver se aparecia alguém. Duas mulheres que colhiam gravetos por ali, ouviram o barulho e encontraram os dois. Com medo, ficaram à distância.

Dom Caixote olhou, olhou e se encantou. Imaginava que poderia ser a sua doce Teteia, que havia sido sequestrada. Prancha apressou em solicitar que desamarrassem as cordas, ―não precisam ter medo, dizia, ― somos dois velhos com fome e sede.

― Foi exatamente um velho que atacou uma menina aqui no mês passado, ― falou uma das mocinhas.

A mais velha, pegou o longo facão e…
― Tenha piedade, minha senhora, não fizemos nada, ― gritou rápido o medroso Prancha.
― Vou apenas cortar as cordas.

Manoel Amaral

www.afadinha.com.br

Leia os outros capítulos:
Dom Caixote sem Mancha I – O Pangaré

Dom Caixote sem Mancha II – O Resgate dos Escravos

http://osvandir.blogspot.com.br/2011/03/d-caixote-sem-mancha-e-santo-prancha.html

DOM CAIXOTE SEM MACHA E SANTO PRANCHA – I

“Não há livro tão mau que não tenha algo de bom.”
“Quem ama o perigo, nele perece.”
Miguel Cervantes (*)

Capítulo I
O Pangaré

Era um morador de rua, já velho e ruim da cabeça, enlouqueceu vendo novelas da TV. Vivia em uma praça qualquer, de uma cidade do interior, trepado num velho caixote falando para as pessoas, daí o apelido de Dom Caixote, como era muito ingênuo, puro, diziam que ele era sem Mancha, mas seu nome era Miguel. Abandonado há tempos pela família.

Foi numa de suas andanças pelas terras do Sul que ficou conhecendo o Santo Prancha, um lavrador, plantador de repolhos, que viu naquele homem um sábio. Resolveu acompanhá-lo.

Na primeira aventura juntos, o cavaleiro andante conseguiu num museu, uma velha armadura enferrujada e um capacete de moto, sem viseira.

Viajando pelas redondezas, à beira de um grande lago, viram uma enorme barragem, turbinas, e muita água descendo, num maravilhoso espetáculo. Prancha quis até tomar um banho, mas o seu Mestre não deixou, alegando que estavam atrasados para o compromisso de resgatar a sua doce amada “Teteia” das mãos dos bandidos mascarados.

― Olhe Prancha, lá na frente, os enormes dragões que soltam fogo pelas ventas.
― Não são dragões Mestre, são torres de transmissão de energia.
― É o que nos fazem parecer, mas não é, conheço bem estes dragões, eles se transformam em tudo para atacar a gente.

Aproximou das torres imaginando ser gigantes dragões e tenta lutar contra elas(es) cujo choque elétrico, lança o cavaleiro para longe.

Dom Caixote sem Mancha e seu criado iam a pé, por entre aqueles pastos e acabaram chegando numa grande fazenda só de criação de cavalos puro sangue. O local era lindo, uma planície sem fim, um lago, floresta, plantações de milho, capim e uma sede maravilhosa. Tudo ali estava fora dos padrões da mente do Mestre Dom Caixote.

Foi vendo aquilo tudo e logo dizendo:
― Meu Deus! Que castelo maravilhoso! Vamos adentrar para encontrar o Príncipe.
― Mestre, isso aqui é uma fazenda com o nome de “Haras Boa Vista”, o Senhor não viu a placa?
― Não leio estas coisas, leio livros e muitos.

Assim que aproximaram, dois cães pastores alemães, vieram já em prontidão de ataque, mas Dom Caixote, sempre muito amável com animais, passou a mão direita na cabeça de cada um e os tornou dois dóceis animaizinhos. Prancha, a estas alturas, já tinha corrido mais de meio quilômetro.
― Volte aqui, servo medroso, estes cães são muito bons, é preciso saber lidar com eles.

O fazendeiro, um velho senhor de chapéu Panamá, saiu da casa e cumprimentou os visitantes.
― Vamos chegando, quem se dá bem com meus cães, merece respeito. Mas o que é isso? Uma armadura medieval? Uma espada enferrujada? Estão lutando contra alguém desta região? Ou vão fazer algum filme ou documentário?

O Servo adiantou-se em explicar ao rico proprietário que aquilo era loucura de seu Amo. Estavam a procura de uns bandidos que raptaram a amada de Dom Caixote.

Almoçaram, tomaram um bom café. Tiraram uma soneca. Acordaram com disposição, mas antes de seguir caminho viram os cavalos no curral. D. Caixote agradou de um, em especial, que tinha uma mancha preta nos dorso e o resto do corpo branco. Perguntou o preço ao dono da fazenda e este entendeu que era melhor doar dois animais para eles.

Prancha escolheu um burrinho pesteado, que pastava ao lado dos garanhões. O Mestre levou aquele pangaré que achou interessante.

Manoel Amaral

www.afadinha.com.br

Leia os outros capítulos:
Dom Caixote sem Mancha I – O Pangaré

Dom Caixote sem Mancha II – O Resgate dos Escravos

http://osvandir.blogspot.com.br/2011/03/d-caixote-sem-mancha-e-santo-prancha.html

(*) Miguel Cervantes
Miguel de Cervantes Saavedra de Alcala Henares (1547 – 1616), Célebre Poeta espanhol, autor do igualmente célebre romance satírico “El Ingenioso Don Quijote de la Mancha”, o segundo livro mais lido pela humanidade depois da Bíblia.