OSVANDIR E A SENHORA DE CRISTAL IV & V

Capítulo IV
O MESSIAS
“E aquela voz foi ouvida, por sobre morros e vales.
Ante ao messias de fato, que jamais quis ser adorado.”
(Raul Seixas)

A internet disponibilizou alguns vídeos que chamaram a atenção do mundo inteiro e aquilo se transformou numa incrível fonte de renda e um verdadeiro inferno para o sistema de segurança da cidade.

Vinha gente da Inglaterra, tentando tirar algum proveito, alemães curiosos, japoneses querendo investir, chineses trazendo novas tecnologias e até do Canadá querendo vender alguns aviões.

Muitos recebiam o visto de entrada, outros nem chegavam à sala do Diretor do Departamento dos Imigrantes.

A União, o Estado e outros Municípios não resistiram aquele movimento de independência.

Diziam que havia muito ouro estocado na gruta, milhões de Reais, dólares e Euros.

Foi nesta época que surgiu um Messias, conquistando todo mundo. Tinha algumas chagas nas mãos e nos pés. Curava enfermos e a sua igreja progrediu, em cinco anos tornou-se conhecida nas redondezas, no país e até no exterior.

O fluxo de pessoas que entravam e saiam dificilmente era controlado, apesar do bom sistema de segurança. O Estado já tinha vários espiões de confiança atuando no centro da cidade.

Vários satélites já direcionavam seus equipamentos fotográficos para aquela cidade.

Fotos minuciosas foram feitas e digitalizadas pelo Google.
Todos, na internet, conheciam os pontos fracos da cidade, só eles não percebiam, até as saídas secretas.

Continuavam naquela luta inglória. Onde existia um indivíduo daquela terra, ele estava disposto a lutar com as suas próprias armas e a sua coragem.

Capítulo V

A Muralha Caiu

As muralhas não te protegem, te isolam.
(Richard Bach)

Vários destacamentos militares foram enviados para destruí-los. A nova ordem não podia aceitar que uma cidade do interior desafi-asse a União.

Grandes somas foram gastas para infiltração e colocação de bombas no entorno da muralha.

A um sinal tudo foi para os ares, não sobrou pedra sobre pedra. Aquela que era a grande muralha, tão cantada nas noites de lua cheia, virou um monte de pedras.

O boato, como sempre, espalhado pelos próprios militares que ocupava a terra era de que todos estavam fortemente armados.

Porém o que se via, era uma população completamente indefesa.

O Messias apareceu no centro da cidade, mas foi brutalmente as-sassinado por um agente infiltrado e ainda jogou toda culpa num pobre coitado que foi terrivelmente trucidado pela população.

MANOEL AMARAL

OSVANDIR E A SENHORA DE CRISTAL III

Capítulo III

OS GUARDIÕES DA TERRA

“Em matéria de religião, não deve o sábio ser
nem supersticioso, nem ímpio.”
(Antoine Rivarol)

Começaram a surgir naquele local muitas seitas, religiões, sociedades secretas e uma infinidade de enganações.

Uma delas adorava os cristais. Nunca foi proibida de exercer o seu culto, desde que não prejudicasse a população. Lançou até uma manifesto a população:

“Nova Era
Nova época se aproxima, aqui em Senhora do Cristal. Uma grande onda energética está se aproximando. Uma essência de luz vinda do espaço, passando por nossos cristais se tornará benigna para todos. É o Senhor de todas as galáxias que quer comunicar-se conosco. Vamos juntar nossos pensamentos em direção a Júpiter para receber melhor os sinais. Uma nova primavera está chegando e com ela as flores cristalinas. Cidadãos, uni-vos em torno de nossa casa para receberem estes benefícios vindos do espaço.
Ashathan Sheran”

As Igrejas Cristãs também lançaram os seus boletins apelando por todos os apóstolos da cristandade.

As Sociedades Secretas, cada uma mais secreta que a outra, escolhiam seu membros no mais rigoroso sistema. Só podiam participar quem fosse realmente honesto, trabalhador e sábio. Como homens sábios estavam rareando, mandaram buscar em todas as partes do país, os mais inteligentes, para participarem de seu núcleo. Eles seriam os Guardiões da Terra dos Cristais.

Ladrões, assassinos, traficantes e usuário de drogas, por ali era difícil encontrar. Ninguém se habilitava, pois eram deportados para outras cidades e nunca mais entravam no Povoado. Pequenos roubos aconteciam e os autores eram severamente punidos com trabalhos sociais, naquela terra não tinha cadeia e sim muitas escolas.

O Povoado de Senhora do Cristal estava crescendo exagerada-mente, até que um dia começaram a fazer uma grande muralha em torno da povoação. Foi a única maneira que encontraram de solucionar o problema do crescimento e as mazelas de cidades maiores.

Tinha deixado quatro portões, dois para rodovias federais e dois para estaduais. Sem contar três saídas secretas, menores, cujo local só os dirigentes conheciam.

Num certo tempo foi necessário solicitar ao Estado o desligamento do povoado da cidade. Para o povo da cidade foi uma tristeza. Vários benefícios foram perdidos. Os políticos não queriam conceder esta dádiva ao povo, mas com muita luta, veio a emancipação.

Exatamente em primeiro de janeiro, data da descoberta da Senhora de Cristal é que saiu o Decreto nº 666, transformando o Povoado em Cidade. O nome ficou o mesmo, cidade da Senhora de Cristal.

Uma enorme festa foi organizada para o povo, com foguetes, brinquedos para as crianças, banda de música e o Prefeito nomeado, falando para todos, na praça central.

Agora precisava fazer uma eleição para escolher quem o povo indicaria para Vereadores, Prefeito e Vice.

O sistema de votação escolhido não era por urna eletrônica. Cada bairro escolhia o seu candidato a Vereador e os partidos os candidatos a Prefeito.

Os Vereadores vencedores seriam os que obtivessem maior nu-mero de votos. O Partido Senhora de Cristal – PSC estava levando vantagem. Os seus candidatos estavam bem cotados, no entanto, através de estratagemas não muito convencionais, alguns partidos nanicos conseguiram fazer alguns Vereadores.

Cada vez mais aquele núcleo de população afastava dos sistemas do Governo Estadual e Federal. Tinha leis próprias, como se fosse um país, dentro do país.

A tributação também era diferente. Os produtos que saiam tinham uma alíquota baixa e os que entravam eram altamente taxados. Pagamento no ato da retirada da Nota Fiscal Eletrônica.

O dinheiro caía aos borbotões nos cofres da Prefeitura, por isso a cidade era muito bem administrada. Não tinham políticos deso-nestos, porque eram expulsos dos partidos pelos eleitores.

As ruas e os sistemas de abastecimentos eram muito bem orga-nizados.

Uma feira foi organizada para exposição dos produtos locais, toda semana. O que sobrava era distribuído gratuitamente entre os mais pobres.

Outra feira anual de grande sucesso era a das pedras preciosas, conhecida mundialmente.

Todos ali dentro daquelas muralhas tinham o seu trabalho. Nin-guém saía, a não ser em casos de extrema necessidade.

Manoel Amaral
(Continua…)