O JOVEM CANDIDATO I & II


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“Uma eleição é feita para corrigir o erro da eleição anterior, mesmo que o agrave.”
De um lado os poderes do mal: os maus políticos, os traficantes, as drogas e os milhões. Do outro lado os do bem: a polícia, a justiça e a população sem tostões.
Tudo estava virando de cabeça para baixo. A eleição estava chegando.
Havia um candidato jovem, bonitão e rico. As estatísticas (compradas) indicavam que o candidato jovem subia como um foguete.
Dinheiro não faltava e apoiadores nem se fala. Doações caiam na rede como peixe. O partido novo estava vencendo em todas as regiões.
Seguindo a moda a agremiação não começava com a palavra partido. O nome escolhido foi União Renovadora Nacional -URNA. O partido foi registrado com a maior facilidade, um ano antes das eleições.
Não faltavam apoiadores e candidatos mil. A maioria das cidades que tinham tantos candidatos que era necessário fazer uma triagem: eliminavam a metade e só a outra metade poderia concorrer.
As cores estavam espalhadas por todos os morros, centros e bairros. As capitais estavam todas coloridas de verde e branco.
As fotos do candidato estavam dependuradas até em árvores, nas porteiras. Outdoors gigantes espalhados pelos prédios abaixo. Em todos os muros foram desenhados as imagens do partido. Não sobrou espaço para nenhum outro, que estavam encolhidos mediante o gigantismo daquele candidato. Todas as maneiras de propaganda foram utilizadas.
O símbolo era uma mão segurando a outra sobre um fundo verde e branco.
Inventaram milhões de insinuações de que o desenho tinha duas pistolas de cano longo, uma suástica etc. etc.
Milhões de bandeirinhas, bandeiras e bandeirões, bem como faixas de todos os tamanhos circulavam nas mãos de crianças, jovens e velhos.
Muitas mulheres foram arregimentadas para trabalhar como batalhão de frente. Os velhinhos estavam ganhando muito bem distribuindo santinhos por todo lado.
As escolas públicas e privadas, ávidas por algumas verbas a mais, promoviam debates imitando os candidatos e o jovem sempre ganhava de todos.
As grandes empresas estavam todas com aquele candidato apesar de distribuir doações para todos.
Os candidatos a Governadores, Senadores, Deputados Federais e Estaduais daquele partido estavam muito bem colocados. Onde aparecia as cores verde e branco tudo ia de vento em popa, em todos estados.
De Norte a Sul aquele partido ia vencendo a olhos vistos. Não faltavam eleitores, todos muito empolgados.
As urnas eletrônicas passaram por uma revisão. Agora não precisava nem de título eleitoral. Bastava a pessoa colocar o indicador no visor e os seus dados apareciam na tela.
Marcar o candidato ficou mais fácil ainda, por todos os lados tinham as fotos e os números.
Aquela besteira de proibir Showmício acabou. Por todo canto havia um candidato divulgando os seus textos e pensamentos.
Na TV, o prazo da União Renovadora Nacional – URNA era o maior devido as inúmeras coligações.
Os eleitores estavam muito bem tratados. Todos os dias recebiam bolsas, camisas, bonés e até dinheiro devidamente colocado num envelope branco. Sem contar os alimentos, que agora estavam mais baratos. Algumas cestas tinham até carne de primeira e papel higiênico.
Tanto candidato dando as coisas que estava difícil atravessar a rua. Pequenos brindes estavam espalhados em cada esquina, era só o eleitor apanhar.
Em cada casa tinha uma bandeira, nos prédios os bandeirões. Nas mãos das crianças as bandeirinhas.
Adesivos nos carros, placas nos quintais e nas esquinas, de todos tamanhos e gostos.
O dia 15 de novembro estava chegando, a vitória estava próxima.
Houve alguém que até disse que este candidato seria o “divisor de águas,” nunca ninguém fizera uma campanha eleitoral igual a esta.
Toda a eleição decorreu na maior tranquilidade.
Só aconteceu um caso muito interessante: um pequeno povoado com mil e poucos eleitores teve mais votos que habitantes.
Manoel Amaral
O JOVEM CANDIDATO II
“No meio de um povo geralmente corrupto a liberdade não pode durar muito.”
 Edmund Burke

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Não precisava nem contar os votos, todos sabiam que aquele candidato ia ganhar mesmo, a chuva de votos foi tão grande que ninguém acreditou. Ele foi eleito com mais de 80% dos votos. Os outros candidatos pegaram uns 15% e 5% para os votos nulos ou brancos.
A oposição não conseguiu fazer quase nenhum candidato.
Eleito e tomado posse, o jovem presidente foi logo tomando as providências para fazer um bom governo.
Primeiro diminuiu o número de Ministros. Convidou só homens gabaritados para os cargos e não esqueceu os pequenos partidos.
A primeira medida que tomou foi um alvoroço total: foram abolidos todos os incentivos fiscais e bolsas.
Agora as empresas deveriam competir com os produtos internacionais.
Os bolsistas deveriam fazer o mesmo, arranjar um emprego para pagar os estudos.
Outros benefícios de qualquer espécie foram acabando. Os que vivam na mamata, sugando os cofres da nação, foram ficando preocupados.
As ONGs receberam uma comunicação que para receber novas verbas federais deveriam comprovar o uso das anteriores.
A metade fechou, espontaneamente, as portas. Não tinham meios de comprovar todas as despesas. O dinheiro público tinha ido para o ralo.
Era tudo tão prático que diminuiu as saídas e aumentou as entradas de dinheiro.
Alguns impostos foram abolidos e outros tiveram as alíquotas rebaixadas, isto seria o novo incentivo para todos, não para determinados grupos.
O maior problema foi quando ele resolveu fiscalizar as obras das grandes empreiteiras, negar alguns empréstimos para grandes empresas e fiscalizar as licitações marcadas.
As empreiteiras, os canais de TV, as grandes revistas, os grupos sugadores trabalharam em surdina e começaram a montar um esquema para derrubar o jovem Presidente.
Pegaram um motorista que trabalhava no grupo presidencial, uma faxineira, montaram um falso filme sobre sexo e suborno.
Coitado do político, as manchetes das revistas e jornais só publicavam aquilo.
O povo é ingrato, é como folha de bananeira, vira de acordo com o vento. Não esperaram o resultado, o condenaram antes de o processo terminar. Foram todos contra ele.
Foi retirado do governo através de Impeachment. 
Grandes cartazes foram espalhados por todo lado: “O povo coloca o povo tira.”  
Os canais de TV filmavam uns dez manifestantes e replicavam transformando-os em mil, dez mil, fazendo crer que aquilo era no país inteiro.
O povo como sempre, foi manobrado e enganado, em favor de grupos.
Caiu o jovem Presidente da URNA – União Renovadora Nacional, outros bandidos tomaram conta do poder e tudo continuou com antes naquela republiqueta.
Manoel Amaral

OSVANDIR E AS ELEIÇÕES

BILA & NICO
Ninguém gosta de votar em candidato que vai perder.”
(Osair, tia do Osvandir)

Tudo aconteceu naquela cidadezinha do interior, mais precisamente no norte de Minas, de aproximadamente 5.000 habitantes.

Vida difícil, sem emprego, sem saúde, sem esgoto, sem nada. Os cidadão mais velhos ficavam ali na pracinha sem nada para fazer, discutindo capítulo anterior da novela da Lobo (erro proposital).

Estava aproximando-se as épocas de eleições, quase ninguém queria ser candidato. O senhor NICO foi escolhido na marra, indicado por unanimidade pelo partido do Prefeito, Partido que era o maior da cidade, em eleitores.

Do outro lado tinha o José, que todos conheciam por BILA, ninguém sabia por que. Ele fora indicado a concorrer como candidato da oposição, mas já considerava caso perdido, pois o Prefeito deixou para entregar todas as obras neste ano de eleições.

Ponte para inaugurar, escola para reformar, estradas rurais para melhorar, asfalto de algumas ruas para completar e estava tudo em andamento. Um movimento muito grande na Prefeitura daquela cidadezinha até charmosa.

O Prefeito estava apostando todas as suas fichas naquela eleição. Andou desviando algumas poucas verbas para atender aos gastos da campanha.

Encomendou camisas, santinhos, cartazes, faixas e tudo que os assessores pediram. Alguns itens faltaram, porque as gráficas não estavam em condições de atender a todos, no momento.

Até um pequeno livro, com nome da cidade, estava sendo distribuído, gratuitamente, fazendo uma propaganda disfarçada do candidato maioral.

BILA, o candidato da oposição, reuniu alguns poucos reais e encomendou 2.500 camisas. Recebeu um telefonema da empresa que estava faltando camisas brancas no mercado. Perguntaram se não havia problemas utilizar algumas que já tinham desenhos. Era só imprimir em cima ou em baixo deles, a propaganda do candidato.

Na falta deste material, absorvido pelas grandes cidades, resolveu aceitar a oferta, disseram que poderiam fazer até um preço melhor. Deu a ordem para fazer mais rápido possível o serviço.

Todos naquela apreensão, a espera do material de propaganda para distribuir aos minguados eleitores. Pequenos brindes como lápis, réguas, cadernos, lixa de unhas e outras besteiras como bonés de plástico, já estavam sendo entregues nas casas pelo candidato NICO. Tudo com o nome do candidato bem visível e de seu vice, tudo pago com dinheiro da Prefeitura.

Os vereadores não perdiam tempo, passavam a mão naquele material, carimbavam o seu nome embaixo e distribuíam para todos os eleitores.

Tinha uns apelidos muito esquisitos para candidatos a vereadores: Formigão, Mosquito, Grilo, Tomate, Bolão, Baiano, Brazuca, Franzino, Tonhão, Baixinho, Carruncho, Bozó, Meínha, do lado do candidato do Prefeito.

E do outro lado continuava o festival de apelidos horrorosos: Gordo, Pateta, Bola Murcha, Goiaba, Zé da Praça, Veio, Taxinha, Neca da Mariínha, e ia assim, com cada nome. Alguns apelidos não passaram na hora do registro, de tão feios ou mesmo pornográficos. Nome de artista de TV e jogador de futebol, tinha dos dois lados.

Alguns não conseguiram registrar a candidatura porque eram completamente analfabetos. Não passaram num simples teste elabora pelo Juiz Eleitoral, da próxima cidade, onde era a Comarca.

A empresa avisou que as camisas do candidato BILA, estavam prontas, um carro foi buscá-las no mesmo dia. Botaram o material no veículo, sem conferir nada.

Ao chegarem ao município foram logo colocando nas mãos dos candidatos para distribuírem onde eram seus redutos eleitorais: uns correram para a Ponte Velha, outros para o Buraco Quente e os restantes para o Bairro do Bom Fim e centro da cidade.

Naquela alegria toda nem leram o “slogan” escrito na camisa. De repente começaram a surgir uns comentários do outro lado e a coisa pegou fogo. O candidato do Prefeito sentiu-se ofendido e partiu para a defesa de sua candidatura que estava indo por água abaixo.

É que os funcionários da estamparia, que fizeram o serviço, não notaram que algumas camisas já tinham palavras impressas. Aí surgiu toda aquela confusão. O tiro já estava dado, recolher as camisas para o candidato não seria muito agradável.

Ele soltou um boletim, feito às pressas, justificando o engano, aí que a coisa piorou, a emenda ficou pior que o soneto. O furor foi muito maior, porque o outro candidato não gostou da justificativa dada.

O candidato ofendido saiu correndo até a cidade mais próxima e encomendou urgente, cerca de 3.000 camisas para fazer face aquele estrago em sua campanha.

Quando o material chegou, empregaram o mesmo esquema do candidato da oposição. Entregaram nos mesmos locais onde ele haviam distribuído, aquela camisa odiosa, ofendendo o candidato NICO.

Aí surgiu também um imprevisto, as camisas apresentavam outras palavras, a marca de fábrica. E o candidato da oposição não gostou muito. Julgou que aquilo fosse uma ofensa.

No meio daquela confusão, TICO, o terceiro candidato (esquecemos de falar dele), o mais pobre de todos, foi só subindo no conceito do povo. Não distribuía brinde nenhum, apenas um “santinho” mixuruca, uma foto em preto e branco, com seus dados pessoais. Estava tudo virado de cabeça para baixo. O menor partido estava ganhando dos dois candidatos juntos, assim dizia a prévia publicada por um jornal da vizinha cidade. Aquele artigo foi xerocado e distribuído em toda cidade. Até nos postes, que era proibido, eles pregaram o cartaz do terceiro candidato, junto com a pesquisa eleitoral.

Apurado os votos, o terceiro candidato deu um banho eleitoral nos dois bobocas que ficaram brigando por causa de bobagens.

Osvandir ficou sabendo da história, pegou as malas e partiu direto para aquela cidadezinha. Gastou umas cinco horas na viagem, estrada de terra, areia, buraco, devastação pela seca, até que chegou lá.

Almoçou, conversou com um candidato, o NICO, pegou uma camisa de sua propaganda; com o candidato número dois, o BILA, tomou um café e também recebeu dele de lembrança, uma camisa da campanha.

Nas primeiras camisas distribuídas estava escrito: BILA É O MELHOR e logo embaixo, já estava impresso NICOBOCO, e por azar em algumas camisas havia um pingo de tinta na última letra “Ó”. Isso que foi o pingo d’água da questão.

__ Mas e na outra camisa, o que estava escrito? – Perguntou o curioso amigo do Osvandir.
__ Nada de mais, apenas uma coincidência, uma combinação das palavras que já estavam impressas com as que mandaram imprimir: NICO É O BOM, e debaixo vinha, BILA BONG!

Assim acabou a guerra das eleições naquela cidadezinha, vencendo TICO, o menor e o mais inteligente de todos os candidatos.

MANOEL AMARAL