MILAGRE DIVINO

MILAGRE DIVINO

O Senhor Raimundinho Nonato, morador naquelas paragens do Nordeste, onde há 30 anos não chovia.

Muito religioso, sempre pedindo um milagre vindo dos céus para poder plantar o seu milho ou a mandioca para sobrevivência.

As vaquinhas morrendo uma a uma naquele pastinho onde se via como alimento só aquelas palmas torcidas, secas, pela falta d’água.

Duas filhas, uma de 15 e outra de 22 anos. Namorar por ali era muito raro, moravam longe da cidade.

De repente a garota mais nova começava a vomitar quando via a comida corriqueira. Queria comer outras coisas difíceis de conseguir por ali.

Cochichou com sua irmã mais velha que o seu “chico” não vinha há meses. Fazia referência a sua menstruação.

Os peitinhos estavam aumentando, sentia fadiga e cansaço. Andar ao sol não podia.

A barriga estava ficando inchada e ia frequentemente fazer xixi.

Algumas manchas na pele, muita ansiedade e irritação. Estava sempre brigando com a irmã.

A adolescente causou comoção na família quando anunciou a sua gravidez afirmando que é virgem e que não sabe como foi que isto aconteceu.

O pai da garota rezou 24 horas seguidas de joelhos para agradecer o “Milagre Divino”.

Algumas pessoas do povoado foram até o local e acenderam velas.

A irmã mais velha olhou o quadro da Virgem na parede e falou:
— Não acredito muito nesta história de virgindade, pois Maria só tem uma.

Manoel Amaral

COITADO DO CHICO

COITADO DO CHICO
Obras da transposição do rio São Francisco. Foto: jornalistaflavioazevedo
O Chico aqui no caso é o Rio São Francisco, poluído, diminuído, arrasado, aterrado, deflorado e desmatado.
Não tem mais condições de sobrevivência como a maioria dos rios brasileiros.
Um país com a quantidade de bacias hidrográficas e faltando água em muito estados, é porque a coisa está grave.
Começaram a transposição, canalizaram uma parte, falta muito ainda para acabar.
E quando acabar não haverá mais água para transpor. Apenas barro e fétido, contaminado, escuro que nem petróleo.
Mas a região do São Francisco não é só água, às suas margens tem muitos afetados, índios,  quilombolas e os ribeirinhos, além das matas ciliares devastadas e terras que eram boas para cultura, sem contar a perda de fauna e flora.
Cientistas listam muitas outras perdas:
a)   fragmentação de cerca de 430 hectares de áreas com vegetação nativa e de habitats de fauna terrestre;
b) Risco da introdução de espécies de peixes potencialmente      daninhas ao homem nas bacias receptoras;
c) Interferência sobre a pesca nos açudes receptores;
d) Modificação da composição das comunidades biológicas aquáticas nativas das bacias receptoras;
     e) Modificação do regime fluvial das drenagens receptoras.
Sobraram só os gases. Os gases que já estão sendo explorados por empresas multinacionais. Daqui a pouco nem eles.
Por que será que as águas doces, quando já estão quase chegando próximo ao mar não são canalizadas para outras áreas, em vários rios que temos. Tinha que ser o São Francisco, naquela obra eterna, para várias gerações futuras.
Nos canais abandonados já tem árvores de grande porte de mais de 5 metros de altura.
Imagino quando a natureza resolver protestar contra esta obra, o que deverá acontecer.
E o Nordeste continua e continuará seco.
Por isso:
“EU VIRO CARRANCA PRA DEFENDER O VELHO CHICO”
Manoel Amaral

DIA DA ÁGUA

Imagem Google

“3 Tendo pois ali o povo sede de água, o povo murmurou contra Moisés, e disse: Por que nos fizeste subir do Egito, para nos matares de sede, a nós e aos nossos filhos, e ao nosso gado?
4 “E clamou o Moisés ao Senhor, dizendo: Que farei a este povo? Daqui a pouco me apedrejará.”
5 Então disse o Senhor a Moisés: Passa diante do povo, e toma contigo alguns dos anciãos de Israel; e toma na tua mão a tua vara, com que feriste o rio, e vai.
6 Eis que eu estarei ali diante de ti sobre a rocha, em Horebe, e tu ferirás a rocha, e dela sairão águas e o povo beberá. E Moisés assim o fez, diante dos olhos dos anciãos de Israel.
7 E chamou aquele lugar Massá e Meribá, por causa da contenda dos filhos de Israel, e porque tentaram ao Senhor, dizendo: Está o Senhor no meio de nós, ou não? (Êxodo, 17.3-7)”
E nos dias de hoje o povo pede água ao Governador e diz: “Por que nos fizeste descer do Nordeste, para nos matares de sede, a nós e aos nossos filhos e aos nossos animais?”
E clamou o Governador a Presidenta, dizendo: “Que farei a este povo? Daqui a pouco vem a eleição e me apedrejará.”
Então disse a Presidenta ao Governador: “Passa diante do povo, e toma contigo alguns dos políticos mais velhos do estado e a ministra do meio ambiente; e traga a perfuratriz, com que ferirá o fundo do Sistema Cantareira, e vai.”
“Eis que eu estarei ali diante de ti, no Vale da Paraíba, a perfuratriz ferirá a rocha, e dela sairão águas e o povo beberá.” E o Governador assim o fez, diante dos olhos dos anciãos da política do estado. (Êxodo Adaptado)
Foi o que aconteceu, uma obra que era para ter se realizado há dez anos não foi feita: diziam que ficaria muito cara.
Só que a população agora é muito maior, cerca de 11 milhões na capital.
A água faltando em quase todos os bairros e o Sistema Cantareira cada abaixa o nível. Como popularmente dizemos: “Está no fundo do poço.”
Fala-se na abertura de um “novo canal de 15 km que interligará o Sistema Cantareira à Represa de Igaratá, no Vale do Paraíba.”
Parte dos “consumidores serão abastecidos pelo Cantareira na capital paulista para os Sistemas Alto Tietê e Guarapiranga.”
O medo é que a “falta d’água possa se estender até às vésperas do início da Copa do Mundo de Futebol.” E o povo não entende e continua lavando carro e calçada com mangueira.
O Governo tem medo que isto tudo possa refletir na sua campanha eleitoral.
Já se anuncia um “investimento de R$ 80 milhões para explorar os cerca de 400 milhões de metros cúbicos armazenados nos fundos dos reservatórios.” É o tal de volume morto.
Mas veja só que ironia: por estes dias os cientistas da Universidade de Penn State e outras instituições,detectaram água na atmosfera de um planeta fora do nosso Sistema Solar que possui a massa de Júpiter e que orbita a estrela próxima Tau Boötis.
– DIA DA ÁGUA, 22 DE MARÇO
Manoel Amaral
Fonte: Bíblia – Êxodo, 17.3-7
Jornal  Estadão

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