OSVANDIR E A SENHORA DE CRISTAL III

Capítulo III

OS GUARDIÕES DA TERRA

“Em matéria de religião, não deve o sábio ser
nem supersticioso, nem ímpio.”
(Antoine Rivarol)

Começaram a surgir naquele local muitas seitas, religiões, sociedades secretas e uma infinidade de enganações.

Uma delas adorava os cristais. Nunca foi proibida de exercer o seu culto, desde que não prejudicasse a população. Lançou até uma manifesto a população:

“Nova Era
Nova época se aproxima, aqui em Senhora do Cristal. Uma grande onda energética está se aproximando. Uma essência de luz vinda do espaço, passando por nossos cristais se tornará benigna para todos. É o Senhor de todas as galáxias que quer comunicar-se conosco. Vamos juntar nossos pensamentos em direção a Júpiter para receber melhor os sinais. Uma nova primavera está chegando e com ela as flores cristalinas. Cidadãos, uni-vos em torno de nossa casa para receberem estes benefícios vindos do espaço.
Ashathan Sheran”

As Igrejas Cristãs também lançaram os seus boletins apelando por todos os apóstolos da cristandade.

As Sociedades Secretas, cada uma mais secreta que a outra, escolhiam seu membros no mais rigoroso sistema. Só podiam participar quem fosse realmente honesto, trabalhador e sábio. Como homens sábios estavam rareando, mandaram buscar em todas as partes do país, os mais inteligentes, para participarem de seu núcleo. Eles seriam os Guardiões da Terra dos Cristais.

Ladrões, assassinos, traficantes e usuário de drogas, por ali era difícil encontrar. Ninguém se habilitava, pois eram deportados para outras cidades e nunca mais entravam no Povoado. Pequenos roubos aconteciam e os autores eram severamente punidos com trabalhos sociais, naquela terra não tinha cadeia e sim muitas escolas.

O Povoado de Senhora do Cristal estava crescendo exagerada-mente, até que um dia começaram a fazer uma grande muralha em torno da povoação. Foi a única maneira que encontraram de solucionar o problema do crescimento e as mazelas de cidades maiores.

Tinha deixado quatro portões, dois para rodovias federais e dois para estaduais. Sem contar três saídas secretas, menores, cujo local só os dirigentes conheciam.

Num certo tempo foi necessário solicitar ao Estado o desligamento do povoado da cidade. Para o povo da cidade foi uma tristeza. Vários benefícios foram perdidos. Os políticos não queriam conceder esta dádiva ao povo, mas com muita luta, veio a emancipação.

Exatamente em primeiro de janeiro, data da descoberta da Senhora de Cristal é que saiu o Decreto nº 666, transformando o Povoado em Cidade. O nome ficou o mesmo, cidade da Senhora de Cristal.

Uma enorme festa foi organizada para o povo, com foguetes, brinquedos para as crianças, banda de música e o Prefeito nomeado, falando para todos, na praça central.

Agora precisava fazer uma eleição para escolher quem o povo indicaria para Vereadores, Prefeito e Vice.

O sistema de votação escolhido não era por urna eletrônica. Cada bairro escolhia o seu candidato a Vereador e os partidos os candidatos a Prefeito.

Os Vereadores vencedores seriam os que obtivessem maior nu-mero de votos. O Partido Senhora de Cristal – PSC estava levando vantagem. Os seus candidatos estavam bem cotados, no entanto, através de estratagemas não muito convencionais, alguns partidos nanicos conseguiram fazer alguns Vereadores.

Cada vez mais aquele núcleo de população afastava dos sistemas do Governo Estadual e Federal. Tinha leis próprias, como se fosse um país, dentro do país.

A tributação também era diferente. Os produtos que saiam tinham uma alíquota baixa e os que entravam eram altamente taxados. Pagamento no ato da retirada da Nota Fiscal Eletrônica.

O dinheiro caía aos borbotões nos cofres da Prefeitura, por isso a cidade era muito bem administrada. Não tinham políticos deso-nestos, porque eram expulsos dos partidos pelos eleitores.

As ruas e os sistemas de abastecimentos eram muito bem orga-nizados.

Uma feira foi organizada para exposição dos produtos locais, toda semana. O que sobrava era distribuído gratuitamente entre os mais pobres.

Outra feira anual de grande sucesso era a das pedras preciosas, conhecida mundialmente.

Todos ali dentro daquelas muralhas tinham o seu trabalho. Nin-guém saía, a não ser em casos de extrema necessidade.

Manoel Amaral
(Continua…)

OSVANDIR E A SEMANA SANTA

QUEM MATOU ESTE HOMEM?

“The State of Israel is at war with the Palestinian people,

people against people, collective against collective.”

Benjamin Netanyahu (primeiro ministro de Israel)


Pelos cálculos, ele nascera em 1976, em Belém-PA, Brasil. Tornara-se conhecido pela sua grande sabedoria. Desejava a paz das Nações. Vivia nas favelas ou periferia das cidades, em companhia dos pobres.


Viajava sempre para Israel e seus arredores. Visitava os palestinos, via as suas misérias, o muro, as bombas, os tanques, explosões a toda hora.


Ensinava ao ar livre, debaixo do que restou das árvores do território palestino, bem como atendia a pedidos para palestrar em grandes recintos fechados, com modernas técnicas de comunicação.


Pregava o igualitarismo radical, tanto em níveis socioeconômicos (alimentação e o uso da água para toda a população), como o religioso-político (liberdade religiosa e política). Essa combinação poderia ter levado a execução deste homem.


Vamos resumir a sua história: saiu do Brasil aos 30 anos. Perambulou pelo mundo, visitando a Índia, a China, a Rússia, praticamente toda Europa. Teve um carinho especial com aquele povo sofrido da África, visitando constantemente aquela região.


Conversou com grandes líderes do G20 para que ajudassem os países mais pobres.


Arrecadou e mandou toneladas de alimentos para o Haiti, Nordeste Brasileiro e onde havia falta de comida. Levou sua palavra de consolo a muitas regiões do planeta.


Pregou nos mais afastados recantos da terra. Atravessou, oceanos, rios e lagos a procura de alguém que precisasse de sua palavra, nestes tempos de aflição.


Passou uma temporada nos Estados Unidos, falando ao povo, em tempos de crise.

Pregou aos grandes como perdoar e fazer a caridade. Ensinou aos pequenos como suportar a dor e continuar vivendo.


Previu que grande crise mundial viria, mas que seria suportada pela população.

Disse aos barões da coca, traficantes, assassinos, colarinhos brancos, políticos e banqueiros corruptos, e demais bandidos que se não mudassem de vida, veriam seu mundo ruir num piscar de olhos.


Foi sentenciado de morte pelos poderosos, queriam que ele fosse banido de Israel. Passou a viver mais tempo do lado palestino, cuidando dos doentes e criancinhas abandonadas.


Criou e sustentou várias escolas e creches ao longo da Faixa de Gaza.

Ajudou muitos peregrinos que iam visitar Jerusalém e que encontravam-se em dificuldades.


Criticava as bases políticas, religiosas, sociais e econômicas de Israel.

Achava que o Rio Jordão e suas águas pertenciam a todos. Pregava sobre a desigualdade social.


O Povo Palestino em menor número, pobre, estraçalhado pelos foguetes de Israel, só poderiam revidar através de atos de terrorismo. A sua religião ensina as crianças a seguir seus líderes, transformando-se crianças em homens bombas.

Homem sereno e transcendental, sozinho, dolorosamente humano.


Naquele dia, numa sexta-feira, foi preso, carregado até o muro das lamentações, torturado, arrastado por jipes de guerra.


Levaram-no até aos portões de entrada para a Palestina. Pela lei dos Judeus seria o seu castigo o apedrejamento, no entanto foi amarrado numa cerca elétrica de arame farpado.


Colocaram uma coroa feita de arame de aço perfurante na sua cabeça e declararam-no Rei dos Judeus.

Quando estava agonizando um soldado israelense deu uma saraivada de balas com sua metralhadora e perfurou-lhe todo seu peito e informaram para a imprensa que o tiro partira de uma arma dos palestinos.


No muro ao lado uma frase: “Quem vive pelo fuzil, pela metralhadora morrerá!”


Manoel Amaral

OSVANDIR E A SEMANA SANTA

Quando chegava março ou abril, o Osvandir ficava alegre, era época de arranchar na cidade: seu pai e seu tio Osmair alugavam casas por um ou dois meses e as mães vinham antes, com os filhos mais novos.

Era época de assistir, participar e comemorar a Semana Santa.
Começavam os preparativos para grande festa móvel, de acordo com calendário e a lua, também muito procurada pelas cidades vizinhas no longo feriadão.

A lua era cheia, a iluminação elétrica uma porcaria e tinha uma procissão, para a qual, mandavam apagar as luzes, era só clarão da lua e das velas.

Nas fileiras de acompanhamento das procissões, os homens iam do lado direito, as mulheres do lado esquerdo, nada de rapazes seguirem juntos com as garotas; os namorados também eram separados, os guardiões estavam lá devidamente uniformizados para fiscalizar tudo.

Os meninos pingando vela nos dedos e sujando a roupa.
Um acidente de percurso alvoroçou a meninada: uma menina descuidou-se e incendiou o cabelo de uma mulher que estava a sua frente na procissão.

O Vigário, em sua eloqüência, falava sobre a vida de Cristo e as mulheres em lágrimas, escondiam o rosto no véu branco.

Os barrancos eram poucos para o povo. A Praça do Jatobá estava lotada. As bananeiras do quintal do Senhor João serviam de abrigo contra o sereno da noite.

Nesses dias o comércio faturava muito, vendiam de tudo, para aquele povo faminto, que vinha da zona rural, tomar conta da cidade.

Na casa onde o pequeno Osvandir se hospedava via-se pregado na porta da sala, a oração “Breve de Roma” e uma folha com anotações de datas de aniversários da família: Mariquinha, 02 de janeiro; Joãozinho, 7 de julho…

No grande quintal, próximo à bica, um canteiro de macela e outro de cebolinha e salsa. Mais ao fundo, próximo do brejo uma plantação da cará. O cará substituía a atual batatinha, que era rara, produto de luxo, na época.

A beira de uma velha estrada tinha aquela lagoa para a meninada refrescar-se.
Na semana santa, o pai do Osvandir trazia do armazém do português bigodudo e bonachão, Sô Joaquim, uma caixa de bacalhau da Noruega e distribuía para as pessoas da família.

A caixa de madeira, normalmente de taboas pinho com belas listras marrons, era utilizada para fazer os troles das crianças, que viviam descendo e caindo pelas ruas com aquelas “maquinas quentes”, como diziam.

As crianças, nesses dias escutavam as velhas histórias de lobisomens, mula sem cabeça, saci pererê, sexta-feira 13, cemitério fantasma e morriam de medo do capeta.

Na rua principal da cidade um inveterado consumidor de álcool cantava:
“Muié num bebe desta pinga, que eu te dou uma saia preta,
Saia preta, curuz capeta, marido, eu quero é beber da pinga…”

Fim da festa agora era hora de recolher os trecos e voltar para a fazenda para mais um ano de trabalho pesado.