AS 12 APOSENTADORIAS

O VELHINHO E AS 12 APOSENTADORIAS
Imagem Google

Ele achava que tinha pensado em tudo. Agora ia viver muito bem e viveu.

Uma aposentadoria para cada mês do ano, uma foto diferente, um nome diferente e consequentemente uma carteira de identidade também de outra cidade, ou preferencialmente de outro estado.

Foi o que ele fez, percorreu vários estados e em cada um procurou um cartório, dizendo-se do interior e que nunca tinha sido registrado. De posse da Certidão de nascimento ia logo para uma loja de fotografia e fazia a sua fantasia própria.

Na primeira, ele era mineiro, tratou logo, segundo a tradição, de arranjar um velho chapéu de palha, terno de brim bege e camisa branca. Providenciou também um bigodinho de roceiro, daqueles bem fininhos, de amargar. Um par de botinas velhas completou o personagem.

A foto ficou uma beleza, quer dizer, uma feiura danada. Mas estava pronto o seu primeiro personagem.

O segundo foi um paulista, chapéu de lebre, abas curtas, terno listrado e camisa de um azul claro, sem bigode e sapato de bico fino.

O terceiro foi o Rio Grande do Sul, um chapéu de lebre, abas compridas, lenço vermelho no pescoço, um bigodão, dente de ouro e algumas alegorias lá do sul. Passou um pouco de vermelho nas bochechas para provar que era castigado pelo frio.

O quarto, do Rio de Janeiro,  já era de camisa listrada, tênis branco, short, cabelo penteado para trás e óculos escuros.

O quinto foi um nordestino muito bem caracterizado, chapéu de couro de cabra, camisa aberta ao peito, calça jeans e bigode também fino. Um facão na cintura e um relho do outro lado.

E o sétimo? Arranjou uma caracterização de Goiás, chapéu aba grande, enrolada para cima, como nos cantores de Sertanejo. Cinturão todo enfeitado com peças cromadas. Bota de bico fino,  camisa de manga comprida e calça jeans.

Em Mato Grosso arranjou uma vestimenta quase igual a de Goiás, diferenciando apenas nas cores e no lugar de Bota estava usando um chinelão de couro cru, era o oitavo personagem.
Partiu para Bahia e arrumou umas roupas de baiano folgado, enrolou um pano vermelho na cabeça, camisa branquíssima, e umas calças largas, também brancas, um sapato branco, sem salto. Era o nono cidadão que pousou para foto.

Em Pernambuco, como o calor era muito, arrumou um chapéu de palhinha, tipo Panamá, uma camisa colorida e um confortável par de sandálias. Chegara ao décimo, que conseguiu enganar o INSS.

Agora tinha mais dois, um ele tirou a foto de boné e óculos com uma camisa com listras verticais.

A última ele fez um velhinho de barba branca e um chapéu furado e bem surrado, com camisa também até rasgada, sentado num caixote.

Estava montado o sistema de arrecadação daquele velhinho esperto.

Doze nomes, doze fotos diferentes, doze documentos falsos, doze contas bancárias e doze aposentadorias.

O resto foi fácil, pegou estes caras que estão ávidos por uns trocados e que sempre sabem o caminho mais fácil para encaminhar os papéis lá na burocrática agência do INSS.

Foi entrando com os pedidos de aposentadoria por idade, uma em cada mês, começou logo em janeiro para não se atrapalhar.

O difícil foi aparecer no banco com a carteira de identidade do mês. E o traje da foto para não despertar nenhuma suspeita do banco.

Mas como ele recebia as aposentadorias mensais, uma em cada cidade teve que abrir contas em doze bancos e deu preferência a estes de Associação Rural, e que por sinal são os mais assaltados hoje em dia.

Viveu folgadamente por mais de cinco anos recebendo doze aposentadorias, isto é doze salários mínimos mensais.

E ainda passeava por todo lado onde tinha que receber as granas mensais.

Mas tudo tem um fim, a Polícia Federal estava passando um pente fino no INSS, denominada de “Operação pega Velho” e que consistia em por na cadeia todo mundo que fraudava aquela instituição. No Nordeste foram muitas aposentadorias canceladas e em todos estados do Brasil.

Um investigador deu de cara com o velhinho fraudador por acaso, com cruzamento de dados da Receita Federal, por questão de idade.

O velhinho colocou em todas as suas aposentadorias a mesma idade, setenta anos e também a data de nascimento sempre foi a mesma: 12 de dezembro.

Pega um dado aqui, outro acolá, verifica uma fotografia e nome do pai e mãe, estava pronto o balaio de gato em que ele se meteu: sempre colocou a mesma mãe e o mesmo pai nas carteiras de identidade.

Foi chamado ao INSS para uma conversa sobre dados faltosos numa das pastas e foi feito o fragrante.

Para completar as suspeitas ele entregou uma carteira diferente da que estava no processo. Foi um azar danado, era sexta-feira 13, ele tinha chutado um gato preto na rua e passado debaixo de uma escada. E para por fim nas crendices, a noite ouviu uma coruja cantar numa velha casa perto da sua.

Estava armado o golpe para prendê-lo. O diligente investigador olhou para sua cara e para as duas fotos, a do processo e da carteira que apresentou: era o mesmo homem, apenas com trajes diferentes. Pronto! Tudo fora por água abaixo.

Ele não foi preso porque morreu no outro dia, antes do amanhecer.

Manoel Amaral
www.casadosmunicipios.com.br

OSVANDIR E O VENDEDOR DE LINGUIÇA

“Em tempos de gripe Suína ninguém quer saber de lingüiça de porco”.
( O velhinho vendedor)

Osvandir descia a rua principal de seu bairro, com intenção de dirigir-se ao conturbado centro de sua cidade, para pagar algumas contas, nos Bancos, que estão em greve.

Sua atenção foi despertada por um vendedor de lingüiça, que anunciava o produto.

Um velhinho, barba e cabelos brancos e um bonito chapéu a lhe cobrir a cabeça, estava com seu velho Scort branco, de priscas eras, com pneus carecas, pára-choque quebrado, parabrisa trincado, lanternas queimadas, assentos furados, pintura queimada pelo abrasante sol, significando que não tinha garagem para guardá-lo.

Aqui é assim: no centro não existem mais garagem, no lugar foram instaladas qualquer comércio pequeno. Pela cidade afora pipocam sorveterias, lanchonetes, bares e lojas de confecções, sem contar uma infinidade de Odontólogos, Advogados, Engenheiros, Clínicas de Saúde, Salões de Beleza é uma cidade comercial, prestadora de serviços.

Mas voltemos ao tema principal: o velhinho da linguiça. Ele gritava que ela era de puro lobo ou pernil de porco.

Osvandir resolveu parar seu carro e ir ver o produto. Aí ele muito solícito, deu-lhe um pedacinho para experimentar. Trazia já frito de casa, numa pequena vasilha de plástico, muito asseada.

A lingüiça era até mesmo muito boa, com um gosto especial. Perguntado sobre o assunto, informou que a carne dormia no tempero forte e só de manhã era colocada nas tripas.

Mas Osvandir ficou desconfiado de alguma coisa. Pediu endereço para futura encomenda e ele deu-lhe um cartãozinho, feito em computador, pelo neto, com alguns erros de português.

Seguindo para o centro da cidade, tentou estacionar o veículo, foi abalroado por uma Senhora, até bonita, que saia do estacionamento. Não houve discussão, não compensava, apenas um risco a mais na lataria.

Tentou entrar no banco e dois grevista lá estavam para barrar todo mundo. Se existe uma coisa que Osvandir detesta é o direito de ir e vir que lhe garante a Constituição. Discutiu com os grevistas, ensinou-lhes novas maneiras de fazer greve sem prejudicar a população. Lembrou até daquele caso que aconteceu em Belo Horizonte, quando trocadores e motoristas, em greve, liberaram as catracas para todo mundo viajar de graça. No outro dia receberam polpudo aumento de salário.

Tentou pagar as contas via equipamento eletrônico, mas seu cartão estava sendo recusado. Mudou de máquina e conseguiu pagar os que tinham condições, os demais pagou na loja de loterias.

Ao voltar, ficou pensando em visitar o velhinho para ver as lingüiças. Desceu a rua principal e dirigiu-se para o bairro. Lá no fim da rua, na beira do rio, estava a casa anunciada no cartão. Um barracãozinho nos fundos era a fábrica da dita cuja.

Chamou, ninguém atendeu. Não tinha campainha no portão. Como estava aberto, Osvandir entrou. O cheiro forte que notara ao comer o pedacinho na rua, veio-lhe as narinas. Alguns ossos e couros peludos, marrons, chamou-lhe atenção. A caveira era de porco, mas o couro estava estranho. Pesquisou por ali e encontrou uma grande quantidade de carne para fazer a lingüiça. Era um pouco escura, estava com muito tempero. Cheiro muito forte, para o fraco estômago do Osvandir.

Já estava saindo, quando o velhinho chegou apressado e entabulou uma conversa meio enganatória:

__ Temos uma criação de porcos especiais, muito bons, carne de primeira, veja aí no cercado.

No tempo de criança, Osvandir via muita criação de porcos, em locais que chamavam de manga ou chiqueiro. A manga era cercada totalmente por barrancos, e os animais ficavam lá dentro, a espera de qualquer alimentação.

Desistindo da compra, resolveu ir para casa, despediu-se do velho e prometeu-lhe voltar qualquer dia.

Ao passar pela ponte do rio, viu às margens, uma manada de capivaras pastando e nadando no local.

Manoel Amaral
http://osvandir.blogspot.com
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