OSVANDIR NO PANTANAL

OSVANDIR NO PANTANAL

“O que não se compreende, desperta admiração”.
Benedito Ruy Barbosa

Foi numa destas histórias que só Freud explica, Osvandir foi parar no Pantanal, nos anos noventa.

Viu a Juma Marruá, a mulher que vira onça pintada, na beira do rio, fazendo trocas na chalana. Alguém perguntou por José Leôncio, ela respondeu que ele estava em Campina Grande-MT, voltaria à tardinha.

Osvandir seguiu para fazenda, onde recebem todo mundo que chega naquela região. Estava interessado em ouvir histórias fantásticas daqueles pantaneiros.

Com suas tralhas dependuradas ao pescoço andou um pouco e viu ao longe o casarão da fazenda. Muito verde e água, pássaros, animais selvagens e bois por todo lado.

Ao entrar naquelas amplas varandas encontrou aquele peão que só sabia dizer: –Sei lá! Sei lá!
Era o Tadeu, vaqueiro e piloto, filho da companheira de José Leôncio. Aquele que namora todas as moças que aparece por aquelas redondezas.

Osvandir resolveu bater um papo com aquele peão. Perguntou-lhe se teria avistado luzes no ninhal e ele respondeu:

–Sei lá! Nunca vi luzes por lá. Sei lá!
Deu-se por encerrada a conversa e foi saindo para montar em seu cavalo que só anda de rabo arrebitado.

Juventino vinha chegando e o papo pode continuar, ele que conhecia mais destas coisas.

–Olá amigo, sou Osvandir, venho de Minas. Estou pesquisando sobre discos voadores nesta região.

— Olha, ver eu não vi, mas fotografei umas coisas muito esquisitas nestes lagos, vou buscar para você ver.

Saiu da sala, subiu a escada do andar superior e após alguns minutos desceu com um pacote de fotos que fizera daquela região.

Os dois investigavam foto por foto, mas o que viam era só aves voando naquela extensa região. De repente Juventino parou, examinou e falou:

— É essa aqui, olha, fotografei lá no ninhal.

Osvandir olhou, virou de cabeça para baixo, pegou a lupa para ver melhor, colocou ao sol, próximo da janela e deu o seu veredicto:

— Pode ser um ufo, vou levar, se você não se importar.

— Não tem a menor importância, se precisar pode pegar. Amanhã cedo se quiser poderemos ir até o local onde fiz esta foto.

— Quero sim, estou coletando dados desta região e lá em Campina Grande já peguei um bom material.

— Aqui tem boas histórias para você levar, é só ouvir da pessoa certa. Tem muitas lendas, como a da Juma que vira onça e a do Velho do Rio que vira sucuri. Sobre as piranhas tem uma porção de fatos reais.

— Vou anotar tudo, gosto de saber das coisas. Hoje tem cantoria?

— Tem, logo mais, lá pelas sete e meia da noite estaremos ouvindo os cantores Tibério e Trindade cantando as melhores músicas caipiras da região.

— Vão cantar o Cavalo Preto? Meu pai gostava de ouvir era a Mula Preta…

— Aqui todos gostam de ouvir nossos cantores.

— Vou aguardar, lendo algum material que recolhi hoje.

Joventino foi ver a Juma na sua tapera lá no meio do mato, bem longe da sede da fazenda.

Uma sucuri de dez metros de comprimento estava rondando um bezerrinho, assim que colocou as patas na água, foi agarrado e morto por constrição e depois engolido suavemente por aquela bocarra.

Zé Lucas, outro filho bastardo de José Leôncio, proprietário daquelas terras, acabava de chegar e quis saber de onde eu vinha. Falei que morava em Minas, mas que era nascido em Goiás.

O dia já ia terminando e uma friagem dava lugar aquele calor insuportável do dia. O céu começou a escurecer, parecendo que ia chover. O sol foi indo embora sem se despedir de ninguém.

O fogo já esta aceso lá no terreiro e no galpão as pessoas se acomodavam como podiam, naqueles bancos toscos.

Um acorde de viola foi ouvido, era Trindade, que dizem que ele tem pacto com o demônio. Uma música, arrancada do violão ou da viola começou a emocionar a todos. Zé Leôncio já estava pedindo o “Cavalo Preto”, música de sua preferência. Os violeiros resistiram até o final, quando cantaram aquela bela canção, uma composição de Anacleto Rosas Junior:

Tenho um cavalo preto
Por nome de ventania
Um laço de doze braças
No couro de uma novilha
Tenho um cachorro bragato
Que é pra minha companhia
Sou um caboclo folgado
Ai, Eu não tenho família

E seguia naquele ritmo até o final, com todos batendo palmas para aqueles artistas do sertão.

Na manhã seguinte Osvandir e Joventino foram até ao ninhal onde tem uma variedade de pássaros muito grande e bateram várias fotos, com máquinas fotográficas convencionais, dos anos noventa.

Uma coisa esbranquiçada apareceu por trás de uma latada de cipós e eles fotografaram tudo. Osvandir muito contente, imaginava mil e um ufos por ali.

Na volta mais uma foto de um vôo de pássaros em “V”. A chegarem a sede da fazenda arrumou suas tralhas e partiu para Campo Grande num aviãozinho do fazendeiro, pilotado por Joventino. De lá foi para Belo Horizonte, onde não se conteve e mandou revelar todas as fotos.

Ao examiná-las achou duas com grandes possibilidades de serem ufos. Mostrou para o Fábio , que foi logo descartando, dizendo ser pássaros em vôo sobre as águas.

A outra, examinada por outro especialista, parecia várias garças pousadas numa moita, na beira do rio.

Decepcionado, Osvandir disse que nunca mais voltaria ao Pantanal, caiu na real dos anos dois mil e quatorze.

Manoel Amaral
www.afadinha.com.br

Aqui você poderá assistir parte da novela, Cap. 01:
https://www.youtube.com/watch?v=nbxYN8Qvmxc

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