OSVANDIR, O INTRÉPIDO II

IMPLANTADO EM ITAÚNA

* Por Pepe Chaves

Como vimos no capítulo anterior, Osvandir aportou em Itaúna, Terra de Sant’Ana, situada a 80 km a Oeste de Belo Horizonte-MG. Veio de ônibus, pois o fusca “histórico” comprado em Araxá fora vendido a preço de banana pelo caminho, já que fundira o motor ainda no Triângulo Mineiro. Xingou Bettinassi e ao chegar com o estômago ainda revirando da viagem e o excesso das iguarias de Araxá, foi recepcionado logo que desceu na Churrascaria do Trevo, em Itaúna, por ninguém menos que Van der Birdies, famoso homem-pássaro que voa por todo Brasil e na ocasião, realizava em Itaúna pesquisa com os prováveis “Starlies”, seres em formato de estrelas que costumam pairar sobre sua cabeça. Os “lies” são uma incógnita para o pesquisador que busca prová-los a todo custo.

Birdies contou ao Osva que Itaúna era uma terra mística e cheia de muros extraplanetários, seres estelares e acreditava que ele se sentiria em casa. Birdies contou que era paranormal e que havia tido um sonho, na noite anterior, a mostrar que, Osvandir passaria por Itaúna, mas sairia da cidade com um implante alienígena. Osvandir se sentiu importante com aquilo que, para ele, era mais do que um elogio. Pepe Chaves, que vive em Itaúna, pelo celular, combinou com ambos um encontro para discutirem sobre os UFOs e ETs da cidade e fornecer as coordenadas dos locais de pesquisa para Osvandir.

Eles se encontraram na praça da matriz e sentados num mesmo banquinho traçaram os planos: uma excursão na Serra Mata da Onça, local com maior índice de avistamento de UFOs na cidade. Osvandir lembrou que estava devendo a seu primo e conterrâneo, Osvaerd, diretor de UFA! (requintada revista de ETs terrestres), uma reportagem sobre os UFOs em Minas e resolveu fazê-la naquela oportunidade. No outro dia de manhã, os três, com suas mochilas nas costas e uma barraca em punho subiram a serra em busca dos ETs itaunenses. Na penosa subida, encontraram os antigos muros de pedras, atribuídos popularmente aos escravos, mas tidos por alguns pesquisadores como sendo anteriores à época dos escravos. Osvandir ficou boquiaberto com o muro que serpenteava por centenas de metros a adentrar uma frondosa floresta de cerrado. Sabia que aquilo era obra de ET, pois, quem mais teria tecnologia para construir um muro no meio daquela mata, há séculos? Quebrou pequenos pedaços das pedras e colocou numa bolsinha de pano, afirmando que levaria amostras para análise do bio-ufólogo Paulo Aníbal em São Paulo. Ele e Aníbal (que visitou Itaúna noutra ocasião) acreditavam na possibilidade de aquelas pedras da Mata da Onça, assim como seus arquitetos, serem de outro planeta.

Chegando no alto da serra, armaram a barraca, vários: equipamentrômetros” , além de um usual “UFO detector” e diversas luzes sinalizadoras ETs. Osvandir espalhou nada menos que 10 luzes piscantes por todo o topo da serra. Segundo ele, aquilo atrairia qualquer UFO que passasse pela região. Acontece que os moradores do bairro Jadir Marinho, localizado logo abaixo da serra é que foram atraídos por aquelas luzes piscantes espalhadas no topo da serra e logo chamaram a Polícia e a TV City que, imediatamente, subiram a serra para averiguar as luzes coloridas.

Osva, Pepe e Birdies saboreavam cachorro-quente (de pão-de-queijo, claro) quando ouviram passos na mata escura. Espertamente, apagaram a fogueira e se esconderam atrás de arbustos quase rasteiros e silenciaram. Logo, viram que o barulho era acompanhado por luzes no mato que estavam se aproximando. As luzes eram como se fossem lanternas, mas Birdies e Osvandir garantiram, aos sussurros empolgados, que aquilo se tratava de sondas eteístas. Ouviram barulho de gravetos pisados e a adrenalina subiu em todos, pois, as luzes agora dançavam na mata, como que procurando por algo. Osvandir já filmava tudo com sua câmera chinesa, lembrando da cara que Osvaerd faria quando assistisse aquilo! Já Birdies, soltando palavrões em sussurros, esbravejava contra sua câmera que acabara de comprar e não queria funcionar por nada deste mundo – nem de outros.

Entretanto, do outro lado das luzes se encontravam, em verdade, o delegado da comarca de Itaúna acompanhado por dois policiais militares munidos de lanterna e esperando topar com um ET a cada passo que era dado na mata sombria. Eles sabiam da fama do lugar e naquele instante avistaram uma das lâmpadas sinalizadoras do Osvandir. Um dos policiais disse de pronto: “cuidado, não se aproximem muito, esta mini-nave pode ser radioativa ou decolar em alta velocidade pra cima da gente”. Empolgado, Osvandir exclama baixinho aos amigos: “Meu Deus, eles falam a nossa língua!”. Pepe argumenta que, logicamente, aquilo não seria sondas, tampouco ETs, mas seres humanos empunhando lanternas. Ambos visitantes discordam dessa teoria e Birdies roga uma praga final contra sua filmadora, argumentando que ela parou de funcionar, porque aqueles seres eram os “lies”, vindos da constelação de Otários e a energia deles e suas sondas atuaram no campo magnético em que se encontrava a câmera e a travou. Mas como a filmadora de Osvandir continuava funcionando? Simples: acontece que a filmadora do Osva era made in China e a do Birdies, do Paraguai. E, como todos sabem, as produções paraguaias são mais sensíveis a altos campos magnéticos.

Do outro lado, o delegado, já descrente, disse aos policiais: “isso deve ser brincadeira de algum maconheiro desocupado”, ao que, o soldado, formado em “eletrônica prática” por correspondência, garantiu: “pode até ser, mas se não for, não podemos nos aproximar disso, pois se for radioativo morreremos em poucas horas”. Ao ouvir aquilo, Pepe teve certeza que aqueles vultos eram mesmo de seres bem humanos que estavam ali do outro lado com suas lanternas, apenas checando as alarmantes luzes sinalizadoras do Osvandir, que deveriam ter sido avistadas da cidade.

Mas, eis que, naquele exato instante, para a surpresa de todos, surge a verdadeira mãe-do-ouro: uma bola de luz dourada aparece e todos saem correndo pela mata, inclusive, o delegado e os policiais. Birdies jogou sua encrencada filmadora para trás e “esticou” pela mata, Osvandir também se livrou de sua filmadora e, enquanto se safava, reclamava por não ter conseguido filmar a bola de luz voadora. Só conseguia pensar na cara do seu primo, rindo dele, ao contar o que se passara naquela “quase abdução” pela mãe-do-ouro. Pepe, que corria à frente, dirigindo os dois pelo escuro, dizia a eles para não fazerem barulho no mato e se calarem. Foi um deus-nos-acuda, pois a mãe-do-ouro, sobrevoando suas cabeças, soltava faíscas atônitas e estalos periódicos, como que enfurecida, não parecendo estar feliz com aquele movimento “alienígena” em sua área milenar.

Depois de duas horas de silêncio total, saíram os três de um esconderijo na mata e não viram mais as lanternas dos policiais nem a bola de luz voadora. O céu estava de brigadeiro e resolveram voltar ao local do acampamento pra comer um enlatado qualquer com pão-de-queijo e procurarem as filmadoras que descartaram no mato. Não acharam as filmadoras, mas, em compensação, se fartaram de almôndegas enlatadas a rechear pão-de-queijo à revelia. Depois foi a vez de doces com pão-de-queijo: pasta de goiabada e doce de leite como recheio. Ao amanhecer, antes de descerem a serra, tomaram um café com pão-de-queijo recheado com mussarela.

Retornando à cidade, Osvandir disse a Birdies e Pepe que visitaria a Barragem do Benfica, para fazer umas reflexões e checar a incrível casuística do maior espelho d’água da região de Itaúna. Van der Birdies que se despediu dos dois e quase perdeu o ônibus de volta para sua cidade, se encontrava inconformado por não ter conseguido filmar as três sondas que rondaram pela mata, tampouco a bola de luz dourada que sobrevoou a todos em polvorosa. Tinha ele certeza ser aquele o chefe dos “lies” se manifestando aos terrestres. “Esta sim, teria sido a prova de tudo o que ele venho falando a todos os céticos”, lastimou Birdies.

Já Osvandir, munido de todas as tralhas necessárias, pegou o ônibus Itaúna/Itatiaiuç u e desceu na região da Barragem do Benfica, a 10km da cidade. Seguiu rumo a uma das margens do lago, atravessou uma cerca e acampou na praia. Logo escureceu e ele armou todos os seus aparatos sinalizadores e “radarísticos”, na espera de que um UFO aparecesse e que um ET lhe fizesse contato.

Ele levou lanches de Itaúna para passar a noite lá: uma dúzia de pastéis gigantes “Massa Macia” e dois litros de Coca-cola. As horas foram passando e o melhor a fazer era comer os pastéis de camarão, considerados os melhores da cidade, pois UFOs não apareciam por ali. Por volta de 3h da manhã, o estômago de Osvandir reclama por ele ter comido tão rapidamente todos os 12 pastéis gigantes apimentados – e ainda teve a sobremesa: uma lata de meio quilo de doce de leite, que serviu de recheio para, nada menos que, 10 bigs pães-de-queijo! Atordoado, estomacalmente falando, Osvandir procurou a primeira moita que viu, se desafogou, mas lembrara que não trouxera papel higiênico na bagagem… “Oh my God!”, pensou consigo! Mas, inteligente que é, usou sua lanterninha e verificou a sua volta se havia alguma folha apropriada para substituir o papel. Logo encontrou uma planta espalmada e com aspecto confortável que atenderia ao serviço solicitado. Terminada a sessão, saiu do mato e foi tomar água, quando começou a sentir uma insuportável ardência nas partes baixas, exatamente onde usara a planta. Aquilo foi intensificando e se transformando numa dor insuportável, acompanhada por um ardente desejo de expelir as próprias tripas. Osvandir – e disso ele ficaria sabendo somente no hospital, mais tarde – havia feito de papel higiênico, nada menos que uma folha da famosa “aroeira do sertão”, planta tóxica que, em contato com a mucosa humana, queima e provoca feridas cutâneas.

Literalmente, com “fogo no rabo”, Osvandir não teve outra alternativa, senão, às 3h30 da amanhã, num frio do cão, quebrar o espelho da barragem do Benfica com um mergulho profundo naquelas doces águas. Ali, se lavou e bendisse ao frio que sentia noutras partes do corpo. No entanto, quanto mais se lavava, mais a coisa ardia e quando verificou, o local estava crítico: tivera problema com as hemorróidas. Depressa, juntou suas coisas e correu pra estrada, o sol ainda não havia saído, mas ele tentou pegar uma carona. Foi de uma sorte tremenda, pois uma ambulância do SUS de Itatiaiuçu que levava um doente a Itaúna passava por ali e o levou junto para o hospital “Manoel Gonçalves”. Lá chegando, Osva recusou ser analisado localmente e se limitou em apenas explicar sua situação. O médico disse que a planta era tóxica e recomendou a ele, o uso contínuo de supositórios farmacêuticos, durante as próximas 48h, garantindo que os mesmos aliviariam o ardor.

Assim, contra sua vontade, Osvandir entrou na primeira farmácia que viu e comprou um estoque de supositórios. No ato, ironicamente, lembrou da previsão de Birdies, de que ele “seria implantado em Itaúna”. Mas deveria ser por ETs, ora, bolas! “Videntezinho de merda”, pensou! De volta ao hotel e já devidamente “implantado”, Osvandir resolveu subir o morro do Bonfim, o mirante central da cidade e lá passar a noite. Sabia que ali também se deram alguns avistamentos inexplicáveis e esperava, antes de partir na manhã seguinte, fazer contato extraplanetário em Itaúna, por isso, comprou uma nova filmadora nas Casas Pernambucanas para registrar aquela noite.

No alto do Bonfim, ele captou pelo rádio um estranho sinal que dizia: “terráqueos, o dia de nossa volta se aproxima. Chegaremos em uma frota de milhares de naves, capitaneadas por Jesus, o Cristo”. A mensagem seguiu dizendo: “se você estiver em qualquer lugar do mundo agora, olhe a leste e verá uma luz chegando”. Descrente, Osvandir olhou e, de fato, havia uma luz se aproximando pelo céu, incrivelmente vinda de leste! Rapidamente, pegou a filmadora e começou a filmar, pensando consigo: “agora quero ver quem não vai acreditar em mim, se prepara pra arrebentar, Osvaerd!”. E a voz do rádio prosseguia: “esta que você vê agora, é nossa nave-mãe que está em missão de reconhecimento na Terra e serve de prenúncio para nossa grande chegada”. A luz se aproximava cada vez mais e começou a piscar, piscar, piscar… E ao passar sobre sua cabeça seguiu um forte ronco de turbina! Aquilo era somente um avião que decolara do Aeroporto de Confins, em BH, rumo ao Centro-Oeste do Brasil e, como se sabe, trafegava na rota Leste-Oeste, que passa exatamente em cima do Morro do Bonfim, em Itaúna.

O ronco da aeronave terrestre foi um balde d’água fria nas expectativas do Osvandir. Mas, a voz do rádio continuou prevendo: “Se você vê coisas estranhas e está nos ouvindo agora, é porque você é um dos nossos! O seu lugar está seguro entre aqueles que herdarão o reino da Terra”. Osvandir descobriu depois que estava sintonizado era na rádio Osborne, que transmitia ao vivo, uma fala de Jan Val Ellan.

Mas a frustração durou pouco, porque, fantasticamente, um disco voador todo iluminado estava pousando a poucos metros dali. Apressado, Osva empunhou sua câmera para filmar a descida do disco, mas viu que esta não funcionava – certamente, deveria ser pelo campo magnético do disco voador que o fez tremer como vara-verde e arrepiar todos os pelos do corpo, acreditava. Sorrateiramente, Osva se aproximou do objeto já pousado e ainda fumegante. Meio escondido pelo mato e muito surpreso, viu sair do disco dois seres que falaram um para o outro: “Xruuuuvruuuubuuuuu?” e “Yruuuuuuuuuuvruuubi iiiii!”. Eles rondaram o objeto iluminado e Osvandir pensou logo em se apresentar como o embaixador terrestre, mas lembrou do famoso “Caso Rivalino”, ocorrido em Minas e escrito por Alberto do Carmo (que lera em UFOVIA) e teve medo de ser levado por eles, assim como o desaparecido protagonista desse caso mineiro.

Porém, ao buscar maior aproximação para melhor averiguar a fisionomia dos humanóides ETs, ele pisou num galho seco que se quebrou e denunciou aos aliens sua presença no local. Osva tremeu, agora de pavor, pois não conseguira correr, vez que seus joelhos se debatiam entre si ao constatar que os humanóides se aproximavam em sua direção. A respiração ficou ofegante e, ao parar diante dele, o ET que parecia ser o chefe olhou pra ele com uma cara de “quem comeu e não gostou”. Então, o gray abdutor colocou a mão direita (composta por somente três dedos) em sua testa e o contatado Osvandir desfaleceu imediatamente. ..

Na manhã seguinte, Osvandir, maltrapilho, acorda numa praça pública na vizinha cidade de Divinópolis, sem nenhuma explicação lógica para o que havia ocorrido na noite anterior. Vítima de lavagem cerebral extraterrestre, esquecera ele, até mesmo, que havia visto o disco voador gray descer no morro do Bonfim em Itaúna e que um dos seres se aproximou dele. Apenas estranhava algumas coisas: 1) o fato de acordar em Divinópolis, se estava em Itaúna; 2) o fato de estar ali sem suas tralhas, nem mesmo com seus documentos ou dinheiro; 3) no lugar do supositório que estava usando à noite, aparecera outro, das mesmas dimensões, porém, composto de nióbio – diga-se, que curou, da noite para o dia, todas as suas queimaduras cutâneas.

Mais que depressa ele entrou numa lanchonete e pediu um catálogo para encontrar o telefone de Mano el Amaral, famoso pesquisador mineiro que reside em Divinópolis e a quem pediria ajuda para desvendar seus últimos mistérios relacionados ao tempo perdido que vivera na noite anterior, além de pedir também um café com pão-de-queijo e uma grana emprestada para voltar a Itaúna e pegar os seus pertences. Contudo, ainda que não se lembrasse de nada que ocorrera na noite anterior, de uma coisa Osvandir tinha certeza absoluta (graças ao implante de nióbio que lhe foi introduzido) : fora abduzido pelos ETs de Araxá, que o seguiu até Itaúna e o deixou no centro da Divinópolis. Birdies estava certo!

Pepe Chaves

2 thoughts to “OSVANDIR, O INTRÉPIDO II”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *