OSVANDIR – SÉRIE ASSOMBRAÇÃO II

ASSOMBRAÇÃO – Osvandir na Bahia

Um sujeito estranho estava em pé lendo um jornal da região, encostado no muro do terminal rodoviário. Pelo visto acabara de chegar à cidade. Ao seu lado estava uma maleta preta. Dobrou o jornal cuidadosamente, abriu a maleta e o guardou. No momento em que estava colocando o jornal deu para perceber alguns apetrechos eletrônicos que ele carregava. Parece que não havia outra coisa na mala a não ser os equipamentos. Provavelmente estava de passagem para algum lugar.
O sujeito pegou a mala cuidadosamente e veio em minha direção. Ao passar perto de mim deixou algo cair no chão. Era um pequeno gravador de bolso. Ele não percebeu que tinha deixado o objeto cair. Apanhei o gravador e o segui rapídamente para devolver. Dei um tapinha em suas costas. Ele virou-se rapidamente, batendo com a mala na minha perna. Deu um risinho amarelo, pedindo desculpas. Mostrei a ele o gravador que havia deixado cair. Me agradeceu pela gentileza, pegou o gravadorzinho e enfiou no mesmo bolso. Outra vez caiu no chão. Meio desajeitado, meteu a mão no bolso do paletó escuro e percebeu que estava furado. Escolheu outro bolso e o guardou. Antes verificou se estava tudo certo, sem furos. Perguntei se poderia ajudar. Pegou a mala, abriu e retirou novamente o jornal. Perguntou-me se sabia algo a respeito do que estava escrito no título principal “Objetos Estranhos Invadem Maiquinique”. Respondi que sim, que tinha ouvido falar, mas nada foi comentado nos telejornais. Disse-lhe inclusive que me interessava pelo assunto. Osvandir se revelou Ufólogo e que estava indo para Maiquinique averiguar o caso. Fez perguntas sobre a distância e como faria para chegar lá. Conversamos algum tempo sobre OVNIS e ETs. Em seguida o levei para um hotel da cidade. Osvandir disse que seu carro arrebentou a suspensão dianteira ao passar por um buraco enorme no meio da pista a poucos quilômetros da chegada. Por isto teve que fazer o resto do percurso de ônibus. A viagem de Minas para a Bahia foi bastante longa para seu velho Fiat 147. No mesmo dia providenciou o reboque e o conserto do carro.
Osvandir acordou cedo. O tempo estava nublado, ameaçando chover a qualquer instante. Ligou para a oficina. O mecânico avisou que o carro só ficaria pronto no meio da tarde.

“Maldito buraco! Depois os pilantras dizem que a culpa é do motorista quando ocorre algum acidente”. Pensou Osvandir.
Como não havia nada a fazer naquela cidade, ficou no hotel lendo jornal e vendo tv.
À tarde voltou a ligar. Ficou feliz ao saber que o carro estava pronto. Sem perder tempo, pegou suas tralhas, enfiou num táxi e foi para a oficina. De lá partiu em direção a Maiquinique no seu carro, ao som do Depeche Mode, Strange Love. Osvandir adora as músicas dos anos 80.

Seguindo as orientações do amigo que havia encontrado no dia anterior, Osvandir chegou próximo ao Marçal. A pista principal estava interditada porque uma parte do asfalto havia cedido. Uma placa indicava um desvio por uma estrada de terra. Estava enlameada devido às chuvas constantes dos dias anteriores, fazendo com que desenvolvesse baixa velocidade.
Cerca de 15 quilômetros à frente Osvandir teve que parar. Era o começo da famosa Serra. Puxou a manga do paletó. O relógio marcava pouco mais de 17 horas. Saiu do carro para averiguar a situação. Era uma descida imensa, tomada pela lama. Dava medo só de olhar para baixo. Osvandir tinha que tomar uma decisão rápida, arriscar descer e ficar atolado no meio da estrada ou ficar por ali mesmo até chegar alguém. O tempo fechado fazia a noite cair mais rápido do que o normal. Olhou ao seu redor. Parece que não havia alma viva naquele local. Abriu o porta-malas do carro, pegou sua maleta e um binóculo de boa potência. Olhou novamente a região. No alto da Serra avistou uma pequena casinha, quase encoberta pela vegetação. Aliviado com a possibilidade de passar a noite ali, Osvandir decidiu não arriscar a descida. Naquele momento uma fina camada de chuva começou a cair. Pegou rapidamente sua maleta e foi em direção à casa com lama já pela metade das canelas e a roupa molhada. Subiu a Serra com certa dificuldade. A trilha estava escorregadia, cheia de pedras. A escuridão estava tomando conta do local. Osvandir pegou sua lanterninha de pilhas, deu umas sacudidas para ligar. Iluminando o local, Osvandir sentiu arrepios ao ver a velha casa, dando a impressão de estar abandonada à primeira vista. Estava tudo lacrado, portas e janelas. No interior não dava para notar qualquer sinal de vida. Era um breu total. Do lado da casa uma árvore velha de galhos secos chamava a atenção por seu aspecto tenebroso. Mais ao fundo, no quintal, algo que parecia duas cruzes quase caindo de lado, em cima de um monte de terra tomada pelo mato. Osvandir estava tremendo mais de medo do que de frio. Bateu três vezes na porta e aguardou algum instante. Lá dentro, nenhum movimento que indicasse a presença de alguém. Bateu três vezes novamente, agora com mais força. Em seguida ouviu o ruído de alguém destravando a porta, que abria apenas pela metade por estar emperrada. Osvandir ficou paralisado ao iluminar aquele rosto que apareceu detrás da porta. Era uma linda mulher entre 20 e 25 anos de idade. Seus cabelos eram lisos e longos, negros como a noite. Seus olhos grandes e também negros, refletiam a luz da lanterna do Osvandir. Abrindo um sorriso encantador ela o convidou para entrar, pegou um lampião e acendeu. A luz revelou um pouco do interior da casa. Não havia móveis, apenas uma mesa forrada com panos limpos, um prato e comida, como se já estivesse esperando por sua chegada. As paredes estavam rachadas e o teto da casa coberto por teias de aranha. Uma enorme caranguejeira caminhava lentamente pela madeira de sustentação do telhado. Osvandir tinha pavor de aranhas. Mas a beleza daquela moça o fez esquecer de tudo, até do medo. Era estranho o fato daquela moça estar ali sozinha, naquela casa velha. Ela pediu para que fosse tomar um banho e trocar de roupa. Osvandir reparou que estava tudo preparado para ele. A bacia com água morna, as roupas em cima de uma cama e a comida esperando na mesa. Era bom demais para ser verdade. Osvandir perguntou de quem eram as duas cruzes lá fora e se a bela moça morava ali sozinha. Ela respondeu que era o túmulo dos seus pais. Era filha única e morava ali sozinha desde os treze anos, quando seus pais vieram a falecer. Depois disto ela pediu licença e sumiu por algum tempo. Osvandir tomou o banho morno, trocou suas roupas enlameadas e devorou a suculenta refeição. Estava esfomeado. Logo após a moça retornou, apertando contra o seu peito um gato de pelos brancos. Ela o afagava carinhosamente. Osvandir estava encantado com a beleza e delicadeza daquela mulher. Parecia um menino apaixonado. Estaria vivendo um sonho? Era difícil acreditar que aquilo estivesse acontecendo. Seus pensamentos foram cortados quando ela o convidou a se recolher. A cama era simples, mas arrumada, com lençóis limpos. Osvandir estava exausto, pegando logo no sono assim que deitou. No meio da noite, acordou assustado, o corpo lavado em suor. Foi um terrível pesadelo. Acendeu a lanterna e viu uma caranguejeira próximo à cama. Tentou acertá-la com o sapato, mas ela fugiu rapidamente para dentro da rachadura na parede. Abriu a janela do quarto para tomar um ar fresco. Lá fora não dava para ver nem um palmo à frente do nariz, apenas quando uns clarões surgiam no céu. Uma coruja soltou um pio agourento. Osvandir sentiu um calafrio lhe percorrer a espinha de norte a sul. Onde estaria a moça? Fechou a janela, ficou um tempo sentado na beira da cama sem saber o que fazer. Depois voltou a adormecer.
Finalmente a noite acabou. Osvandir levantou-se, andou pela casa e nem sinal da moça. Lá fora viu suas roupas estendidas num varal. Estavam limpas e secas. A manhã estava ensolarada. Pegou, vestiu e aguardou algum tempo para ver se a moça aparecia. Ouviu uma buzina insistente lá embaixo. Pegou seu binóculo e observou. Era um carro aguardando passagem atrás do carro do Osvandir. Sem saber se esperava a moça para agradecer ou se descia, Osvandir optou por descer devido à insistência da buzina. Saiu quase correndo com sua maleta em punho, tropeçou numa pedra no meio do caminho e saiu rolando ladeira abaixo. Com o corpo cheio de escoriações, abanou a roupa, ajeitou-se, verificou os equipamentos para ver se tinham sofrido algum dano, mas estava tudo certo. Lá de dentro do carro o motorista continuava buzinando. Osvandir se aproximou, explicando ao motorista a situação que o obrigou a largar o carro ali. Falou da moça e da noite que tinha passado naquela casa lá no alto da Serra. O motorista arregalou os olhos, respondendo que faziam anos que ninguém morava naquele local e que a família toda tinha morrido num acidente de carro naquela mesma ladeira. Explicou que os corpos dos pais estavam enterrados ali mesmo, nos fundos da casa. O corpo da filha de treze anos jamais foi encontrado. Quase ninguém passava por ali desde que começaram a ouvir histórias estranhas sobre a moça. Ela aparecia de repente e sumia do mesmo jeito na ladeira. Muitos carros quebraram por ali. Osvandir ouviu toda a história perplexo. Entrou no seu Fiat, desceu a ladeira e foi embora na direção de Maiquinique. O sol da manhã deixou a estrada seca, possibilitando sua passagem sem problemas. Sem dúvida aquele acontecimento estranho ficaria um bom tempo martelando sua mente.

AL CRUZ

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