Toc Toc
Toc, toc — o que temos para nós hoje?
O Coelho Branco chegou na toca.
Bolos de chocolate.
Toc, toc — o que temos para nós?
Bolo de abacaxi.
— Mas tu não pode comer açúcar…
— Vamos lá, só um pouco.
— Não pode, amores.
Toc, toc — o que temos para nós?
— Um bolo, sim. Salgado.
— Ah, não.
Início de diabetes.
Ou o fim.
Decifra da poesia
Camada 1 — A estrutura lúdica
O poema é construído como uma brincadeira infantil de “toc-toc” (knock knock), mas subvertida por um tema adulto e pesado. O convite para abrir a porta é também um convite para entrar no próprio desejo — e no conflito que ele gera.
Camada 2 — O Coelho Branco (Alice no País das Maravilhas)
A chegada do Coelho Branco é a chave de leitura. No livro de Lewis Carroll, o Coelho é o gatilho que leva Alice para dentro da toca — para um mundo onde as regras mudam, o tempo é elástico e nada é o que parece. Aqui, ele representa:
- O impulso que nos puxa para o proibido
- A pressa de quem sabe que não deveria, mas vai
- A curiosidade que antecede a queda
A “toca” então não é só o buraco do coelho — é o próprio ciclo de tentação e culpa.
Camada 3 — O açúcar e a negação
O diálogo alterna entre:
| Voz | Fala | Significado |
|---|---|---|
| Desejo | Bolo de chocolate, bolo de abacaxi | O que o corpo quer |
| Razão | “Mas tu não pode comer açúcar” | A consciência freando |
| Desejo | “Vamos lá, só um pouco” | A negociação interna |
| Razão | “Não pode, amores” | A firmeza do cuidado, o afeto que nega |
É uma conversa entre duas vozes — ou entre duas partes de uma mesma pessoa.
Camada 4 — O bolo salgado (anti-clímax)
A terceira oferta é um bolo salgado — a solução racional, o meio-termo. A resposta é “Ah, não.” O desejo não quer substituto. Ou é o que se quer, ou nada. Isso revela a natureza não-negociável do impulso.
Camada 5 — O desfecho
Início de diabetes. Ou o fim.
O poema não dá resposta. Ele coloca a escolha em aberto:
- Início de diabetes = a consequência escancarada, a espiral de pequenas concessões que viram doença
- Ou o fim = ambiguidade poderosa. Fim da resistência? Fim da vida? Fim da negação?
A porta aberta pelo Coelho Branco leva a dois lugares possíveis. O leitor — e o poeta — escolhem qual.
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