SÉRIE: “OSVANDIR O INTRÉPIDO”

O MISTÉRIO DO TRIÂNGULO MINEIRO


Osvandir como todo bom ufólogo resolveu pesquisar os mistérios do Triângulo Mineiro, pois a cada vez que ouvia este termo soava como Triângulo das Bermudas brasileiro. Chegou em Araxá as 5 da manhã pelo ônibus da Continental, madrugada fria e uma certa tontura devido ao chacoalhar do ônibus.
Encontrou-se com o Fábio Bettinassi que muito solícito combinou de levá-lo a conhecer diversos locais pitorescos, cheios de mitos paranormais, como a árvore dos enforcados por exemplo. Osvandir trouxe aparelhos de medições, entre eles um tal “detector de ufos” e uma câmera de vídeo com visão noturna que ele comprou no Mercado Livre pagando em parcelas pelo Mercado Pago.
Fábio falou-lhe ao pé do ouvido: “segure-se pois tenho uma coisa para você, mais tarde vou te levar para conhecer a verdadeira Operação Prato !”, o pobre do Osvandir sentiu até vertigem, “que tipo de segredo lhe seria revelado?”, seus olhos brilhavam, ficou excitado e impaciente feito um deputado numa reunião com empreiteiras.
Na hora do almoço, Fábio levou-o até a churrascaria e pizzaria O Pizzaiolo. Depois de umas caipiras feitas com a fina cachaça Dona Beja, começaram a chegar as iguarias: churrasco de picanha ao alho, lombo grelhado, linguiça, batata frita e um delicioso feijão tropeiro feito com os mais suculentos ingredientes mineiros. Osvandir repetiu 3 vezes, nunca tinha visto comida tão boa. Sua boca trabalhou acelerado, mas não para debater ufos, era para mastigar mesmo. No final quando se achava satisfeito, veio a sobremesa “Ambrosia”, doce de leite cozido, o néctar dos deuses. Enfim, a foi a verdadeira Operação Prato.
Tomado de terrível moleza, voltou ao hotel e caiu na cama feito um lutador de sumô embriagado. Com o bucho cheio quase explodindo, rapidamente entrou em sono profundo, sonhou que estava dando autográfos na noite do lançamento do seu livro, OSVANDIR E O CÓDIGO SEM SEGREDO , que ainda nem tinha escrito. Horas depois acordou sentindo-se estranho, não sabia se era um sonho ou realidade, o ambiente era todo escuro e pode ver luzes piscando ao redor da cabeça e um agudo zumbido vindo não se sabe de onde. Pensou estar sendo abduzido, lembrou-se num segundo que poderia ter caído em uma armadilha da CIA liderada pelo próprio Daryl Simms.
Com a destreza de um mangusto, saltou da cama e acertou em cheio o dedinho do pé esquerdo no criado mudo, caiu no chão urrando de dor, foi quando em pânico viu entrando um homem alto vestindo uniforme cinza com uma luz sendo projetada de sua mão. Osva que não compreendia a situação gritava apavorado, “-não quero implantes, implantes não, por favor, eu sou inocente”. “-Calma senhor, sou o gerente do hotel, é que o senhor está dormindo desde a hora do almoço e pensamos que estaria se sentindo mal” – falou o “oficial de uniforme cinza” que acabava de apagar sua lanterna Philips e nada tinha de agente da CIA.
Com a cabeça dolorida, viu que as luzes e o zumbido eram resultantes de uma intensa indigestão seguida de cefaléia aguda. Tamanho o mal estar, teve que fazer vigilia da janela de seu quarto no Hotel Palace, pois o intestino rebelde não lhe dava trégua.
No outro dia, já meio aliviado, foi conhecer a CBMM, famosa empresa detentora da tecnologia do Nióbio envolta em mil histórias misteriosas. Para não se passar por espião, colocou um boné do Cruzeiro, óculos escuro, fez a barba e pegou sua camera chinesa. Ao chegar lá ficou maravilhado, conheceu o forno de feixe de elétrons, visitou as minas, andou pela indústria e o que mais lhe chamou a atenção foi a Pirometalurgia, que segundo ele, se parecia muito com a sala dos reatores da nave Entreprise do Star Trek. Observou tudo nos mínimos detalhes e parecia vidrado nas explicações do guia turístico. Durante a visita às minas, tentou encontrar qualquer índicio de atividade alienígena secreta, mas nada viu além de trabalhadores suados e mal cheirosos. Durante a visita, teve uma série de ataques de dor de barriga porém absteve-se de usar os banheiros da fábrica com medo que algum mecanismo oculto na privada pudesse coletar amostras de seus dejetos e usá-las para alguma experiência biológica envolvendo seres de Zeta Reticuli. “- É melhor não arriscar” – pensava ele.
Para sua alegria ganhou uma pequena amostra de ferro-nióbio que com certeza seria colocada em seu relicário ufológico bem ao lado de um fragmento de casca de árvore paraense queimado, presenteado pelo Sr. Pinon e que supostamente teria sido chamuscada pelo raio avassalador da luz chupa-chupa nos tempos da Operação Prato, quando esteve em pesquisa de campo pelas regiões litorâneas do Pará.
No final da tarde, antes de ir embora, Osvandir apaixonou-se, mas não por uma linda alienígena do padrão nórdico, ele gostou mesmo foi de um fusca ano 69 branco, imponente, com faixas brancas nos pneus e calotas do tipo “peito de moça”. Lembrou-se de seu pai que dizia “em cidades do interior de minas, ainda dá pra encontrar verdadeiras jóias automobilisticas”. Sem pestanejar fechou negócio com o intrépido Fusca. Agora poderia realizar seu sonho: colocar na porta um adedsivo escrito: “PROJETO GÊNESE – Grupo de Estudos Ufológicos – pesquisa de campo”. Vale dizer que tal adoração silenciosa por fuscas se deu após Osvandir ler a matéria “Os fuscas e os Ufos”, escrita por Fábio no site Ufovia.
Osvandir, sujeito precavido, antes de pegar a estrada checou todos os itens do fusca, extintor, luzes, pneus, triângulo e chave de roda, tudo ok. Despediu-se do Fábio fazendo a típica saudação “vulcana” de mão que ele copiou do Sr. Spock. Animado com o fusca e cheio de impressões de Araxá, ouvia um jazz de Pat Metheny e Oscar Peterson no rádio, quando mal entrou na estrada sentido Itaúna para visitar o Pepe Chaves e foi parado por uma blitz da polícia rodoviária. O guarda, um sujeito magro e alto com olhar de agente secreto, começou a examinar os itens do carro, quando de repente perguntou “Cadê o triangulo de sinalização??”
Osvandir ficou dez minutos procurando o maldito triangulo, até que vencido, baixou os olhos e desistiu, porém era convicto na certeza de tê-lo visto minutos atrás. Amargurou-se ao ver uma multa de R$ 250, mas como acreditava no destino, deixou pra lá e seguiu viagem. Matuto e incansável, Osvandir não parava de pensar no triângulo de segurança, “-onde estaria ele? eu o ví antes de sair do hotel”, não se conformava. Sem se deixar vencer, parou no acostamento e foi revistar o carro, revirou tudo novamente, foi quando lembrou que não tinha olhado sob o forro do porta-malas. Levantou o espesso forro e eis que repousava o triângulo branco e vermelho, calado feito uma criança culpada. É que no auge de sua excitação para ir à Itaúna, guardou tudo sem prestar atenção.
O pobre Osva, num ataque de fúria, pegou o triângulo e arremessou-o desfiladeiro abaixo feito um bumerangue, enquanto soltava diversos impropérios “-diabos de triângulo, me rendeu uma multa e vários pontos na carteira, que vá para o inferno”.
O que o Osvandir não imaginava era que abaixo do despenhadeiro, encontrava-se uma expedição de ufólogos de Campo Grande que alí estavam acampados em busca de aparições, visto aquela serra ser o tão famoso “Horizonte Perdido”, palco de inúmeros causos e avistamentos de luzes. De repente feito um raio, um dos ufólogos grita “- olha o ufo, olha o ufo”, “- é triângular e reflete luzes vermelhas”, gritou um outro pesquisador que disparava sua câmera digital frenéticamente para não perder o momento insólito. “- incrível, ele gira” berrou um sujeito gordo.
No outro dia diversas listas de discussão e vários sites da Internet, reportavam a matéria : “UFO TRIÂNGULAR É AVISTADO EM ARAXÁ” e diversas fotos de um triângulo desfocado refletindo luzes avermelhadas foram largamente debatidas, chegando a conclusão que de fato uma entidade voadora este lá presente. Houve até um grupo de ufólogos que criou uma lista específica entitulada “Mistérios do Triângulo Mineiro” na qual um pesquisador japonês de São Paulo afirmava veemente que tudo não se passava de uma montagem usando Photoshop.
Depois de 300 km de estradas péssimas e diversos sons metálicos provenientes da mecanica cansada do veterano Fusca 69, Osvandir chega em Itaúna, pára em um barzinho para tomar um café e logo entabula conversa com um senhor manco e olhar aguçado que também se interessava por Ovnis, “- Muito prazer meu caro senhor, meu nome é Osvandir, sou ufólogo”, ” – Verdade?! Que incrível, eu também sou, e por falar nisso, muito prazer meu nome é Van Birdies…”.


Fábio Araxá

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