OSVANDIR & O DIA EM QUE A INTERNET ACABOU III

Capitulo III

A TOMADA DE JERICO

“Gritou, pois, o povo, e os sacerdotes tocaram as trombetas;
ouvindo o povo o sonido da trombeta, deu um grande brado,
e o muro caiu rente com o chão, e o povo subiu à cidade,
cada qual para o lugar que lhe ficava defronte,
e tomaram a cidade” Js 6:20
.

Os estranhos eram selvagens, atacavam em grupo e tudo destruía. Tocaram umas cornetas feitas de chifres de carneiro, como nos tempos do Primeiro Testamento.

Não sabemos se por milagre ou por dinamite (TNT), a verdade é que ao tocarem aqueles instrumentos, os muros e o portal de entrada da comunidade desabaram.

Aqueles bárbaros foram invadindo tudo e tomando conta dos alimentos.

Barulho se combate com barulho. Sem demonstrar nenhum medo, dois habitantes de Jerico seguiram para o meio do grupo e puseram a tocar, em som altíssimo, seus instrumentos (um piston e um saxofone). Atraídos pelo som que não conheciam, eles foram para a rua principal. Um saiu tocando por um lado e o outro por outra rua, assim aqueles bárbaros foram logo divididos em dois grupos.

Com muito custo, com a ajuda das ideias de Jeq e da astúcia de Osvandir, aquele povo foi dominado e enviado de volta para sua região.

Após a partida deles, o muro foi reconstruído, bem como o portal. Tomaram a precaução de agora em diante, ficarem de sobreaviso para caso de invasão.

Jerico estava num lugar privilegiado, entre montanhas, não tinha campo de aviação. Não recebeu quase nenhuma visita de estrangeiros. Estava muito longe dos grandes centros. Por esta razão evitaram a contaminação pela gripe A. Os raros casos que aconteceram foram com pessoas que por ali passaram e seguiram em frente, levando aquele vírus maligno.

Noutras comunidades a Gripe Suína chegava e se instalava aproveitando a debilidade da população.

Porém após o Raio Azul, as coisas complicaram muito e outras doenças apareceram: varíola, catapora, gripe comum, piolhos, sarna e por aí. O pequeno Posto de Saúde estava cheio de pessoas com uma infinidade de sintomas. Cada grupo que chegava trazia um tipo de doença, que era debelado com muito custo.

Com a chegada de Osvandir, alguma coisa foi melhorada. A população foi devidamente informada sobre este novo vírus da Gripe. Os funcionários do Posto de Saúde queriam saber mais e foram orientados de acordo com vários prospectos que trazia na mochila.

Ali naquela comunidade de pouco mais de 10.000 habitantes as necessidades eram bem menos que outros grandes centros.

Produção de alimentos até que existiam por todo lado, porque as terras não foram afetadas, mas o difícil era o transporte. Para uma viagem de 50 km gastava-se dois dias com o carro-de-bois. Às vezes as verduras e legumes estragavam com a viagem, sendo uma tremenda perda de tempo.

Por esta razão os comerciantes preferiam transportar a carne, os grãos e o sal.

Como Jerico já tinha resolvido muito sobre como moer os grãos (milho para o fubá), triturar o sal e tirar a casca de arroz e café, o seu comércio era muito grande com outras comunidades. Passaram até a fabricar linguiça, queijos, carne seca, gordura de porco, farinha, fubá, pó de café, óleo de mamona (combustível para veículos e lamparinas de iluminação) para remessa a outras localidades mais distantes.

Os problemas maiores eram os custos da segurança para remessa dos produtos. Os assaltos sempre constantes nas estradas impediam viagens sem planejamento.

Quando Osvandir e o seu grupo preparavam-se para partir uma estranha luz apareceu no céu, bem próxima dos moinhos de vento. Ficou girando, como se fosse um torvelinho. O povo ficou olhando aquele espetáculo raro.

De repente um telefone de orelhão começou a tocar e uma luz acendeu num poste…

Continua…

Manoel Amaral

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OSVANDIR E OUTRAS HISTÓRIAS III

ALAMBIQUE

“Se cachaça fosse boa,
não precisava de tira-gosto!”
David Blaser

No Fumal, o pai abandonou o algodão e passou a cuidar apenas da cana. Fabricava rapadura e cachaça. A marca da pinga era “Palmeira”, muito conhecida na região pelo esmero na fabricação, sem nenhum produto químico, apenas fubá de milho e garapa.

A fama da “água-que-passrinho-não-bebe” atravessou fronteiras e de Itaúna, Pará de Minas, Pitangui e Divinóplois apareciam gente interessados em comercializar a maldita da pinga, a “puríssima”. E a Palmeiria fez muita gente visitar nossa fazenda. Até alunos da quarta-série do Grupo Escolar Benedito Valadares estiveram por lá para conhecer como fabricavam a “branquinha”.

Fiquei até um pouco envergonhado por ver tantas meninas bonitas, com o vistoso uniforme de saia azul e blusa branca. O Joaquim era quem alambicava a “cheirosa”, portanto foi explicando para todos os principais processos pelos quais passavam desde o corte da cana madura, o carro-de-boi, o engenho, os cochos, o alambique, a serpentina e finalmente a “abrideira”, saía geladinha direto para os barris ou tonéis de madeira.

As crianças aproveitavam para tomar uma deliciosa garapa, comer melado ou rapadura (pac-pac). Outros preferiam chupar mexerica ou laranja. O certo é que todos se divertiam. Os professores apreensivos de que alguns pudesse machucar-se, tomavam a “branquinha” para disfarçar.

Acabou acontecendo mesmo! Uma menina mais assanhada que as outras resolveu subir no monte de lenha que servia a caldeira do engenho e acabou engarranchada no meio das toras de madeira. Outro menos avisado subiu num monte de casca de arroz no quintal, nem percebendo que ele estava em “combustão interna”, queimava por dentro. O menino acabou queimando o pé esquerdo, dando uma trabalheira danada para os professores.

A caixa de primeiros socorros foi usada e vários alunos receberam esparadrapos nas mãos e pés.

Um professor tirou do bolso uma lista dos nomes mais conhecidos da pinga:
“Água ardente, abrideira, água-que-passarinho-não-bebe, águas-de-setembro, aninha, azougue, azuladinha, azulzinha, bagaceira, baronesa, bicha (no bom sentido), bico, boa, borbulhante, boresca, branca, branquinha, brosa, brozinha, cambraia, corta bainha, cândida, cachaça, caiana, cana, caninha, canguara, canha, canjica, canjibrina, catuta, caxaramba, caxiri, cobreira, corta baínha, cotréia, cumbu, cumulaia, danada, delas-frias, dengosa, mdesmacha-samba, dindinha, dona branca, elixir, engasga-gato, espírito, esquenta-por-dentro, filha-do-senhor-de-engenho, fruta, girgolina, gramática, grampo, homeopatia, imaculada, já-começa, januária, jesebita, jimjibirra, joça, junça, jura, legume, limpa, linha branca, lisa, maçangana, mandinga, manhosa, mãe de Luanda, mamãe-sacode, mandureba, monjprina, marafo, maçã-branca, montuava, morrão, morretiana, óleo, orantanje, panete, parati, patrícia, perigosa, pevide, pilóia, pinga, piribita, porongo, prego, pura, purinha, puríssima, Roma, remédio, restilo, retrós, roxo-forte, samba, sete virtudes, sinhaninha, sinhazinha, sipia, simba, sumo-de-cana, suor-de-alambique, supura, tafiá, teimosa, terebentina, tinguaciba, tiquira, tiúba, tome-juízo, uca, xinapre, zuinga”.

O nosso professor copiou os sinônimos do Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa, organizado por Hildebrando de Lima e Augusto Barroso em 9a. edição de 1951, Editora Civilização Brasileira.

MANOEL AMARAL

Fonte: 1 – Joaquim Ferreira do Amaral
2 – José Ferreira do Amaral